Um conto dAs Novas Amazonas


Helena por Bruno Lima

Helena por Bruno Lima

HELENA

“O mundo ter acabado foi, provavelmente, a melhor coisa que poderia ter acontecido”. Era o que pensava Helena enquanto observava a beleza da multicolorida e selvagem mata atlântica que avançava inexoravelmente pela cidade que um dia foi São Paulo. A floresta havia avançado e tomado tudo o que antes era apenas concreto, cimento e ferro. Prédios e vegetação formavam, a primeira vista, uma espécie de simbiose mas, se olhássemos direito, veríamos que, na verdade, eram as plantas que ainda permitiam aos antigos arranha-céus seus últimos suspiros de existência.
Helena tinha uma beleza madura em seu olhar sempre sincero, mas também melancólico. Aquele olhar que apenas os que sofreram horrores inimagináveis, mas ainda não perderam completamente a esperança de que a vida vale a pena ser vivida, podem tem. Removeu com um gesto delicado seus longos cabelos avermelhados que, devido ao calor, estavam molhados e insistindo em cair sobre seus belos olhos castanhos enquanto ela se abaixava novamente para voltar a recolher algumas ervas que cresciam entre as entranhas do asfalto rachado daquela região.
– Isto aqui vai dar um ótimo chá… – Pensou em voz alta enquanto colocava algumas folhas em sua bolsa de couro.
Helena contava com 28 anos e, portanto, ela não poderia saber como o mundo ficou naquelas condições. Quer dizer, ela ouviu algumas histórias de sua amiga Zoe a respeito de como a “mãe terra resolveu se vingar das maldades dos homens” e mandou terremotos, maremotos, fome, doenças e morte para toda a humanidade. Estas catástrofes climáticas aconteceram há cerca de 75 anos atrás e o resultado concreto é que mais de 70% da população mundial foi morta, a geografia do planeta mudou radicalmente e a civilização humana voltou praticamente a idade da barbárie.
Mas nada disso preocupava Helena. Ela sempre acreditou que as coisas aconteciam por alguma razão e se o mundo havia sido varrido pela fúria dos deuses ou simplesmente pelo acaso do destino, o importante é que ele devia estar melhor agora. Mas isto não significava que a terra era um lugar tranquilo para se viver. Mesmo as poucas pessoas existentes tendo abandonado as grandes cidades a escassez de recursos criou uma nova sociedade alicerçada sobre a força e a violência. Por isto, todos os pelos de Helena ouriçaram-se quando ela viu sair de trás de um prédio tombado na avenida um homem.
Helena levantou-se instintivamente, separou suas pernas numa clara posição de alerta da mesma forma que uma onça prepara-se para dar seu bote, levou uma de suas mãos à bainha de sua katana, uma autentica espada japonesa do século XVIII, enquanto a outra segurava no cabo da mesma. Apesar de totalmente preparada para o combate, Helena não desembainhou sua espada esperando a reação do homem que surgira há cerca de uns 50 metros de onde ela estava.
Olhando com um pouco mais de atenção enquanto seu oponente não tomava nenhuma atitude, Helena pôde observá-lo com mais calma. Chamá-lo de homem seria quase um exagero pois o fortuito convidado mal havia saído da puberdade com sua cara ainda marcada pelas espinhas. Era magro, sujo e trajava calças feitas de couro animal, botas pretas e uma camisa de estampa velha e rota. Seus cabelos eram grandes e encaracolados e sua pele, branca mas bastante queimada de sol, tinha uma coloração parda. O jovem não ofereceria a menor ameaça não fossem sua altura de quase 2 metros e a lança que carregava a tiracolo apoiada em seu ombro. No entanto, Helena percebeu que ele também se assustara com a presença inesperada dela e, mais ainda, com o fato dela ter se posicionado contra ele e não demonstrando o menor temor.
Após alguns segundos onde eles se entreolharam e mediram suas possibilidades, o garoto de cabelos encaracolados com a lança virou-se para o lugar de onde havia saído e correndo em disparada. Helena não conseguiu segurar o sorriso pela debandada do garoto mas ficou satisfeita de ter evitado o combate. Ela não se regozijava com a luta como sua amiga Olímpia e só entrava em enfrentamentos por que ela sabe que existem destinos piores que a morte quando se cai nas mãos de homens cruéis. Ela viveu quase uma década de sofrimentos e humilhações diárias nas mãos de criaturas assim e jurou que preferiria morrer lutando a passar por isto novamente. Mas, ao que parece, aquele dia estava reservado para o chá e não para o sangue.
Já estava tarde, de qualquer forma. Achou melhor terminar sua colheita por aquele dia naquela região e voltar para o acampamento que suas companheiras haviam feito nos arredores da cidade destruída e semideserta. E, enquanto se colocava no caminho do acampamento, lembrou de cada uma de suas novas irmãs, que se chamavam de Novas Amazonas, num misto de alegria e saudade. É verdade que cada uma delas tinha uma personalidade diferente e, algumas vezes, bastante difícil de se lidar, mas também é verdade que não poderia escolher companhia mais confiável.
Zoe, Isolda, Olímpia, Jasmim, Maria de Lourdes (que preferia ser chamada de Lolita) e Athena. Junto com Helena, estas 7 mulheres se uniram em torno de uma ideia fixa construída em cima de inocentes erros de interpretação. Zoe, considerada a mais inteligente de todas, que conhecia como ninguém os “signos dos antigos” (ou seja, sabia ler), havia visto em algum lugar a história de uma tribo composta apenas de mulheres guerreiras que não se submetiam às vontades dos homens e eram conhecidas como Amazonas. O problema foi que Zoe também viu um mapa e identificou que havia um lugar com esse nome no norte de um país chamado Brasil. Daí ela tirou a conclusão de que estas Amazonas deviam viver neste território que tinha o mesmo nome.
Foi Olímpia, a mais estourada e impetuosa do grupo, que as batizou tão logo soube dessas informações:
– Então novas amazonas seremos!
Helena e Olímpia tinham lá suas diferenças, mas não havia como negar que o nome tinha uma boa sonoridade e isto dava àquele grupo de mulheres uma unidade e uma motivação a mais que ela julgava necessário para suportar as provações deste novo mundo. Foi neste instante que todos os sentidos de Helena se colocaram novamente em alerta ao ouvir, atrás dela, uma voz ainda juvenil falar:
– Ali tá ela! Não falei para vocês que ela era gostosa?
Com um único movimento, Helena vira-se e coloca-se novamente na posição de combate. E, mesmo sem ainda desembainhar sua espada, ela descobre a sua nova e desagradável situação: o jovem de cabelos encaracolados voltou e trouxe com ele outros 3 homens bem mais velhos e de aparência muito mais agressiva e cruéis. Um segundo foi o tempo necessário para que Helena percebesse que aqueles homens não iriam embora sem conseguir o que queriam.
– Vocês não vão querer fazer isto. – Ela falou com segurança e firmeza.
– Sim, nós vamos, garota! – Falou o mais velho, que deveria ter uns 35 anos e parecia ser o líder deles. – E eu se fosse você não iria dificultar a coisa para mim e meus garotos!
– Não sei não, Régis! – Falou um outro homem, um loiro de barbas compridas e não aparentando mais do que 25 anos, que estava um pouco inseguro. Helena só não sabia se era por medo ou resquícios de consciência, mas ela logo obteve sua resposta. – Estou com um mal pressentimento quanto a esta aqui!
– Bah! Você sempre foi um covarde, Arnaldo! – Vociferou o terceiro homem, de longe o mais assustador de todos. Com 30 anos, um corpo muito mais musculoso que um homem normal e carregando uma marreta, aquele homem, conhecido por Raul, era, definitivamente, o único a oferecer real perigo para Helena. Por isto, ele deveria ser o primeiro a tombar. – É por isto que você só fica com os nossos restos!
– As coisas não precisa ser assim! – Retrucou Helena tentando apelar para a razão daqueles homens. – Vocês não são feras e, com certeza, eu não sou a presa indefesa que vocês estão acostumados!
– O que diabos você está falando, piranha? – Escarrou Régis, o líder, puxando uma peixeira. – Você é apenas uma mulher! E nós somos 4 e você está sozinha! Se você largar esse palito que tem na cintura, a gente pode tentar se entender sem que você se machuque…muito!
– Supondo que eu largue minha espada – questionou Helena – de que forma nós nos “entenderíamos”?
– Ah, você sabe! – Respondeu Régis – a gente vai se divertir um pouco com você. Cada um de nós vai te foder um pouco e depois, se você for bem legal com a gente, a gente deixa você viver!
– É! – Concordou Raul, o musculoso – Você pode se tornar a nossa escrava!
– Pelo visto o romantismo realmente está morto! – Disse Helena avançando velozmente enquanto saca sua espada da bainha. Sua ação deixa todos os homens totalmente surpresos pois eles não esperavam que a mulher tomasse a iniciativa.
O que se seguiu poderia ser definido como um balé sanguinário executado com perfeição por Helena. Um silvo corta o silêncio e, em seguida, as mãos agarradas a uma marreta giram no ar formando uma espiral de sangue. Enquanto o musculoso Raul cai no chão de joelhos gritando de horror e dor após ter perdido suas mãos, Helena faz mais uma vítima ao abrir o ventre de Arnaldo, o loiro barbudo. Num misto de reflexo e medo, o jovem de cabelos encaracolados tenta acertar Helena com sua lança que, graciosamente, gira seu corpo evitando a ponta da lâmina e enfia a sua katana no exato local onde o coração do jovem batia.
Antes que os 3 homens caíssem no chão, Helena estava de frente para Régis, o líder do grupo, que largara a sua peixeira e estava de joelhos implorando por sua vida.
-P-por favor…me desculpe… eu não…não pensei que…eu nunca mais…
Helena não quis mais ouvir as súplicas do homem. Ela aprendeu muito cedo que a palavra de um homem não vale nada. Enquanto o musculoso Raul corria gritando como uma criança sem suas mãos, Helena separava a cabeça do líder do grupo de seu corpo.

Cerca de 45 minutos depois, Helena encontra suas companheiras num acampamento nos arredores da cidade.
– Helena! – Gritou Jasmim ao vê-la chegando no acampamento – Por onde você andou?
– Já estávamos ficando preocupadas! – Falou Maria de Lourdes, a Lolita.
– Você mesma disse para não sairmos sozinha por aí – Mencionou Zoe, também preocupada
– E aí? Viu alguma coisa diferente por aí? – Perguntou Athena.
– Não. – Disse Helena com um sorriso torto e triste nos lábios – Continua tudo exatamente do mesmo jeito.

FIM

Para ler as hqs das Novas Amazonas, clique nos títulos: “Homem bom é homem morto”,  “Antigas Histórias” e “Mais intenso que a vida, maior que a própria morte”.

Quer saber mais sobre As Novas Amazonas? Clique aqui. E veja a galeria com as personagens aqui. Se quiser, mande uma ilustração para a gente postar na galeria.

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