Todo roteirista é um desenhista frustrado


Não sei se isso é verdade mas, para mim, a carapuça serve direitinho. A memória mais antiga e ainda vívida que eu tenho a respeito de quadrinhos é de ter em minhas mãos um gibi dos x-men publicado ainda pela RGE (Na revista Hulk Apresenta). Naquela época eu lia a revista e depois recortava os personagens que estavam fazendo poses de ação e usava os papéis (e muita imaginação) como bonequinhos. Sim, eu sei: eu era muito burro!

Depois de um tempo muito curto recortando as revistas, achei que era melhor pedir a alguém mais velho para desenhar os personagens para mim para eu brincar ao invés de estragar as revistas. Após algumas tentativas infrutíferas (Por que os adultos simplesmente não entendem o que uma criança realmente quer), eu mesmo comecei a fazer os desenho dos personagens e, embora eu saiba que eram verdadeiras garatujas, eles cumpriram o seu papel (quer era permitir que eu brincasse sem estragar minhas revistas). Infelizmente não tenho nenhum registro desta época.

Mas, mesmo sendo ainda muito criança (devia ter uns 6 ou 7 anos), aquelas revistas foram a porta de entrada para esta paixão chamada histórias em quadrinhos que me segue até hoje. De esquartejador de revistas a leitor e colecionador fanático por alguns anos, eu comecei a desenvolver essa habilidade que eu sempre achei tão fantástica: desenhar.

Com o início da adolescência, entra em cena a literatura marginal em minha vida: Charles Bukowski e Jack Kerouac foram os escritores que me impulsionaram para dentro desse novo mundo. Com uma nova ideia do que a arte pode alcançar, sempre estive metido na editoriação de fanzines mas naquela época eu e meus amigos não sabíamos o que fazer depois que construíamos uma edição. Normalmente fazíamos uma cópia e passávamos a mesma cópia para algumas pessoas. Foi desse período que nasceu o fanzine “Callipigia Sister não morreu!” que teve duas edições. O nome “Callipigia Sister” eu peguei da hq O “Último e Trágico Dia de Gori Bau e Callipigia Sister”, de Milo Manara, que saiu na revista Animal 02.

“Callipigia Sister não morreu!” foi produzida em 1991 e reunia desenhos, textos, poemas e artigos feitos por um monte de amigos meus malucos e geniais e quem cuidava da montagem (colagem) do fanzine era eu  (Algumas coisas eu assinava como Otto). Eu já tinha 18 anos e, como vocês podem ver, meus desenhos não evoluíram muito do início até o fim de minha adolescência.

Eu não sei quanto tempo eu ainda iria insistir com esta coisa de desenhos se a vida não tivesse realmente começado para mim. E quando começar, digo que tive que para tudo o que eu queria para começar a tentar me sustentar por conta própria. Comecei a estudar para concurso, trabalhar, casei e tive uma filha. Em todo este tempo, acompanhei os quadrinhos apenas como um leitor. Mas sentia que faltava algo mais. Faltava produzir, expressar-me, emitir minha própria voz através da arte.

Preparei-me para voltar a desenhar. E comecei como todo mundo começa: já fui desenhando uma hq sem nem ao menos ter uma história pronta. Depois que tive que refazer alguns quadros, achei melhor, antes de partir para os desenhos, estruturar melhor o que eu ia fazer em um roteiro. Não tenho certeza mas acho que o primeiro roteiro que escrevi de fato foi o do F.D.P. (Que quando criei, eu ainda queria chamá-lo de “bastardo” e depois de “canalha” – sorte que antes de publicá-lo, resolvi mudar o nome).

O fato é que escrever o roteiro completo foi para mim de uma satisfação tão grande que acabei me apaixonando por esta arte. É claro que eu não sabia direito o que estava fazendo na época mas acabei aprendendo bastante rápido. Estamos agora por volta de 2000, 2001. Eu estou com 28 anos, casado e com uma filha de 2 anos. Ou seja, completamente isolado das pessoas que fazem o mundo dos quadrinhos.

Mas, com o advento da internet, descobri grupos de pessoas que estavam na mesma situação que eu: querendo produzir quadrinhos de alguma forma. Foi aí que comecei a produzir roteiros para alguns desenhistas, para alguns fanzines e revistas independente, vieram os prêmios e o resto é história.

Por isso, eu não posso afirmar pelos outros mas eu sou um roteirista por que, no fundo no fundo, não passa de um desenhista frustrado. Mas como vocês puderam ver por aqui, acho que acabou sendo melhor para todo mundo que eu abandonasse a ilustração de vez.

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