Reflexões de um roteirista: Ken Parker e Ivo Milazzo


kpblog-680x340A primeira hq que li de Ivo Milazzo foi uma Ken Parker que comprei num sebo para poder ler enquanto aguardava numa fila para resolver alguma coisa que meu pai me mandara. Eu tinha 14 anos. Só comprei a revista por que era a única coisa que tinha naquele sebo que mais parecia uma prateleira solitária perdida na Ribeira, no centro da cidade de Natal.

Mas como aquela revista mudou meu conceito de histórias em quadrinhos.

Eu já tinha lido coisas muito boas pela abril em seu formatinho mas eu ainda estava circunscrito ao mundo dos super-heróis. Mas aquela revista me fez entender que, além dos super-poderes de seres inimagináveis, haviam seres Humanos, assim mesmo, com “H” maiúsculo.

Ken Parker não era um herói comum. Como muito apropriadamente dizia o lema da revista, ele era um “herói Humano”. Ele não era o fodão, embora soubesse impor suas convicções quando era necessário. Ele tinha medo e errava, as vezes errava feio. E não é só: os demais personagens de suas histórias tinham uma certa profundidade que, mesmo sem entender direito na época, pareciam-me genuinamente reais. Havia em suas páginas todos os sentimentos humanos: bondade, alegria, humor, tristeza, raiva, incompreensão, mentiras, ingenuidade e, principalmente, erros e acertos. Por que é disto que é feito a natureza humana: de erros e acertos. Muitas tentativas. Poucas certezas.

Não bastasse ter personagens maravilhosamente constituídos, seu autor, Ivo Milazzo, sabia impor uma narrativa emocionante, que prendia o leitor da primeira até a última página. E, ao terminar de ler a revista, eu estava sem fôlego. Arfando pelos momentos em que prendi a respiração passando, junto com o Ken Parker, por seus perigos e dificuldades.

De lá pra cá, aprendi algumas coisas e quando me perguntam quem é o melhor roteirista de quadrinhos, não tenho dúvidas e nem hesito em responder: Ivo Milazzo.

Alguns podem falar que o melhor roteirista é o Alan Moore.

Eu simplesmente idolatro Alan Moore pela sua capacidade de construção de suas histórias. São perfeitas e, muitas vezes, ele inova na montagem dos quadros e das páginas de uma maneira completamente diferente do que é esperado.

Porém, em Alan Moore, eu sinto a falta justamente disto: da construção humana de seus personagens.

Parece que, em todas as histórias dele, todos os personagens carregam um peso filosófico que não é natural nos seres humanos. E, pior ainda, eles exalam isto o tempo inteiro. Parece que os personagens de Alan Moore carregam um piano invisível de problemas, dramas, traumas e raiva. Ou seja, os personagens do escritor britânico são carregados de apenas um lado das emoções humanas e, justamente, as mais negras. Parece que ele não sabe aplicar a leveza e a doçura que existe em todas as pessoas, mesmo que em pequenas quantidades.

Mas por que eu falei tudo isto? Para lembrá-los que não se faz histórias apenas com personagens “sombrios”, “sorumbáticos”, “pesados”. Um bom roteirista tem que saber construir essas pessoinhas imaginárias com todas as idiossincrasias dos seres humanos reais.

E a revista de Ken Parker responsável por esta iluminação? Ken Parker 52. A Fúria de Naika. UAU! Me arrepio só de lembrar. E ela tá aqui do meu lado (Tenho a coleção da vecchi quase completa).

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2 comentários sobre “Reflexões de um roteirista: Ken Parker e Ivo Milazzo

  1. Acho que só li duas histórias do Ken Parker, mas adorei cada uma. Hoje não tenho tempo nem de ler o verso de uma embalagem de biscoito, mas espero um dia quebrar uma perna e não ter mais o que fazer e recuperar o tempo perdido.

    • Valeu pelo comentário, Luciano! Ken Parker é o tipo de quadrinhos que nos faz rir, chorar, se emocionar, vibrar! Acho que vou abrir uma vaga nas minhas leituras diárias para ler novamente e poder sentir uma vez mais todas estas emoções.

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