Pernambuco Holandês: Passo a passo para a criação de uma página de hq

Hoje vou falar rapidamente do making of do projeto PERNAMBUCO HOLANDÊS – A QUEDA DE OLINDA que estou produzindo com Carlos Eduardo Cunha e, de quebra, apresentar pedaços do passo a passo para a criação de uma história em quadrinhos com imagens inéditas e trechos do roteiro oficial.

Só lembrando que este é o método que costumo usar mas nem sempre uso apenas este e muitos outros artistas usam outros métodos similares ou completamente diferentes.

Vamos lá:

PARTE 1 – A PARTE ESCRITA

A primeira parte na produção de uma história em quadrinhos como esta, que envolve personagens e situações que realmente existiram, começa com muuuuuuuuuuuita leitura e pesquisa tanto textual quanto visual.

Portanto, uma boa parte do tempo consumido antes mesmo de você ter uma ideia de como vai começar ou o que vai abordar passa, obrigatoriamente, pela leitura e anotações de diversas fontes.

No caso de Pernambuco Holandês foram vários livros, diversos estudos/ensaios, uma centena de textos de páginas web e a compilação disto tudo em diversos arquivos separados por temas como: levantamento cronológico, curiosidades e costumes da época, dicionário texto-visual de personagens, localidades, armas, equipamentos e outros itens diversos como formação tética do exército espanhol e levantamento do perfil do exército misto de oficiais e de mercenários holandeses.

Depois de ler bastante, compilar todas essas informações e começar a juntar minhas anotações com as ideias narrativas sobre o projeto, é hora de começar a escrever o roteiro propriamente dito. Abaixo, vocês podem ver na íntegra o roteiro da primeira página do roteiro da hq:

 

ROTEIRO

PÁGINA 1

QUADRO 1 

SPLASH PAGE. EXTERNA. DIA. PLANO ABERTO MOSTRANDO UMA DAS LADEIRAS DE OLINDA, TODA DE TERRA BATIDA, RODEADA DE ALGUMAS POUCAS CASAS E DE MUITAS ÁRVORES, ONDE UM COMBATE AGUERRIDO ACONTECE ENTRE AS FORÇAS PERNAMBUCANAS DE MATIAS DE ALBUQUERQUE, NO ALTO DA LADEIRA E DOS HOLANDESES, TENTANDO SUBIR. MATIAS DE ALBUQUERQUE ESTÁ MONTADO EM SEU CAVALO ANDALUZ BRANCO, QUE ESTÁ EMPINANDO ENQUANTO DISPARA COM UMA PISTOLA DE MÃO EM DIREÇÃO AOS SEUS INIMIGOS. A OUTRA MÃO (A MESMA QUE SEGURA ÁS REDEAS DO CAVALO) CARREGA UM ESCUDO SURRADO DE MADEIRA QUE O PREVINE DE UMA ESTICADA INIMIGA E DE UM DISPARO. MATIAS VESTE UMA CAMISA BRANCA SURRADA E VELHA, ABERTA NO PEITO, UMA CALÇA TAMBÉM BASTANTE SURRADA E BOTAS. TAMBÉM EM SEU PEITO VEMOS UM CINTURÃO COM ESPAÇO PARA COLOCAR 4 PISTOLAS ONDE 3 DELAS ESTÃO PRESAS (A QUARTA É A QUE ESTÁ EM SUA MÃO). AO REDOR DE MATIAS VEMOS MUITOS SOLDADOS DA MÍLICIA PERNAMBUCANA TRAVANDO UMA LUTA COM EXÉRCITO DE MERCENÁRIOS HOLANDESES. NESTE QUADRO, HÁ UMA PROPORÇÃO DE DOIS OU TRÊS HOLANDESES PARA CADA PERNAMBUCANO. OS PERNAMBUCANOS ESTÃO LUTANDO COM ALGUNS POUCOS MOSQUETES (MUITO POUCOS MESMO UMA VEZ QUE NA OCASIÃO HAVIA APENAS ARMA DE FOGO PARA CADA SOLDADO PERNAMBUCANO), ESPADAS, LANÇAS FEITAS À MÃO. HÁ PORTUGUESES, ALGUNS NEGROS E ALGUNS ÍNDIOS. TUDO MUITO MISTURADO E SEM UMA PROPORÇÃO EXATA. NÃO HÁ UM UNIFORME PADRÃO E CADA UM VESTE-SE COMO PODE. DO LADO DOS HOLANDESES, TAMBÉM NÃO HÁ UMA PADRONIZAÇÃO EM RELAÇÃO AOS UNIFORMES E ARMAS. A PRINCIPAL DIFERENÇA TALVEZ SEJA A DE QUE OS HOLANDESES (E SEUS MERCENÁRIOS FRANCESES, POLONESES E ETC) TEM A CONSTITUIÇÃO EUROPÉIA, BRANCA E, GERALMENTE (MAS NÃO SEMPRE) LOIRA. UM OU OUTRO DELES USAVAM ELMOS DE FERRO, ALGUNS CHAPÉUS DE DIFERENTES MODELOS OU PANOS AMARRADOS À CABEÇA (COMO OS PIRATAS). OS HOLANDESES, MELHOR EQUIPADOS, ATACAVAM MAIS ORDENADAMENTE COM ARCABUZES, ESPADAS E LANÇAS DE 10 PÉS DE COMPRIMENTO (LANÇAS COMPRIDÍSSIMAS). ENTRE OS DOIS GRUPOS, VEMOS UMA BARRICADA DE MÓVEIS DAS CASAS DA CIDADE DE OLINDA COMO MESAS, CADEIRAS, BAÚS, ETC. EMBORA SEJA UMA CENA ABERTA, A INTENÇÃO É FECHAR, AO MÁXIMO, NA IMAGEM DE MATIAS DE ALBUQUERQUE. É IMPORTANTE NOTAR QUE MATIAS DE ALBUQUERQUE ESTÁ TODO CHAPINHADO DE SANGUE PORÉM NÃO É SANGUE DELE MAS SIM SANGUE RESPINGADO DOS OUTROS DURANTE A BATALHA. CONVÉM MENCIONAR QUE, NESTE PERÍODO, A FORMAÇÃO TÁTICA DOS PAÍSES BAIXOS ERA COMPOSTA DE ARCABUZEIROS ADIANTE, OFICIAIS E BANDEIRAS NO CENTRO E PIQUEIROS (LANÇAS) ATRÁS: O FAMOSO TERÇO. OUTRO DETALHE IMPORTANTE DE SE MENCIONAR É QUE AS ARMAS DE FOGO ERAM POUCAS E DEMORADAS PARA CARREGAR, SUAS BALAS ERAM REDONDAS (BOLINHAS DE FERRO) E DISPARADAS POR UM SISTEMA NO QUAL UMA CORDA ACESA COM FOGO COLOCAVA FOGO NA PÓLVORA E PROVIDENCIAVA O DISPARO DESTA BALA. OBS: APESAR DE MUITAS REFERÊNCIA AQUI COLOCADAS POSSAM SERVIR DE INSPIRAÇÃO, LEVAR EM CONSIDERAÇÃO QUE ELAS SÃO DE EXÉRCITOS ESPANHÓIS OU DE OUTROS PAÍSES E, PORTANTO, FAZER OS DEVIDOS AJUSTES PARA A REGIÃO E PERSONAGENS ENVOLVIDOS.

TEXTO: OLINDA, TARDE DO DIA 16 DE FEVEREIRO DE 1630 DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

MATIAS DE ALBUQUERQUE (GRITANDO): RESISTAM, HOMENS! RESISTAM! NÃO DEIXEM QUE OS HEREGES HOLANDESES TOMEM AS RUAS DE OLINDA! DEUS ESTÁ CONOSCO E HÁ DE NOS DAR FORÇAS CONTRA ESSES SEGUIDORES DO SATANÁS!

TEXTO IDENTIFICADOR: MATIAS DE ALBUQUERQUE, GOVERNADOR E COMANDANTE SUPREMO DAS CAPITANIAS DE PERNAMBUCO, ITAMARACÁ, PARAÍBA E RIO GRANDE DO NORTE.

OBSERVAÇÃO: OS CAMPOS DESCRITOS COMO “TEXTO IDENTIFICADOR” SERVEM PARA INDICAR AO LEITOR QUE É AQUELE PERSONAGEM. PODEMOS USAR UMA ESPÉCIE DE FOLHA RASGADA PARA INDICAR QUE É O PERSONAGEM OU OUTRA SOLUÇÃO QUE O DESENHISTA JULGAR MELHOR.

 

PARTE 2 – OS ESTUDOS VISUAIS

Antes de começar a desenhar o roteiro, algumas vezes é preciso desenvolver visualmente os personagens. Vários estudos foram feitos até eu e o Carlos chegarmos a um consenso sobre vários personagens. Abaixo, mostro apenas a versão final dos estudos que fizemos a respeito de Matias de Albuquerque.

E, da mesma forma como é feito um estudo para os personagens, também é feito um esboço da página antes dela ser, de fato, desenhada.

No exemplo abaixo, mostramos duas opções de rascunhos feitos para a primeira página do roteiro (Aqui apresentada). A primeira mostra uma página que não foi aprovada pois Matias aparecia de costas para o leitor dificultando sua apresentação. O segundo rascunho mostra a página melhorada mostrando Matias de frente mas que também não foi aprovada pois ele estava com uma distribuição das armas inconsistente. A página aprovada vocês vão ver mais a seguir na parte 3 – Desenhando a hq.

PARTE 3 – DESENHANDO A HQ

Rascunho (ou sketch como também chamamos) aprovado, Carlos começa a desenhar de fato (e pra valer a página). É neste momento onde todo o talento do artista brilha de forma espetacular. É um trabalho artesanal que envolve muita atenção e muito mais genialidade. E não pensem que é fácil não! Mas o resultado final é simplesmente lindo e totalmente gratificante para todos os envolvidos nesta produção.

A QUEDA DE OLINDA (Por Leo Santana e Carlos Eduardo Cunha) Pag 01 - Lápis

Primeiro vem o lápis

A QUEDA DE OLINDA (Por Leo Santana e Carlos Eduardo Cunha) Pag 01 - Aplicando Cores

Depois vem as cores toda em aquarela.

E, finalmente, temos a página pronta!

A QUEDA DE OLINDA - página 01 - prévia

A QUEDA DE OLINDA – página 01 – Por Leonardo Santana e Carlos Eduardo Cunha

 

Depois disso, é só aplicar as letras e partir para as outras 55 páginas que fazem parte dessa história fantástica cheia de ação e emoção.

“Pernambuco Holandês – A queda de Olinda”, é uma novela gráfica que mostra detalhadamente as primeiras 24 horas de luta que o exército privado holandês infligiu ao povo Pernambucano no ano de 1630 que, mesmo sem nenhum apoio da coroa espanhola , ofereceu a resistência que pode aos invasores.

O roteiro, escrito por Leonardo Santana e ilustrado e colorido por Carlos Eduardo Cunha, tem 56 páginas e faz parte de uma trilogia que se pretende contar toda a saga holandesa em Pernambuco de forma dinâmica, ágil e emocionante. O projeto está na fase de ilustração e na procura de editoras interessadas em publicar este material.

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