Brian Michael Bendis – Os Novos Vingadores 22 – Página 3

O roteirista

New York Comic Con 2006

Brian Michael Bendis é um roteirista americano de histórias em quadrinhos. É mais conhecido por seus trabalhos na editora Marvel Comics tais como Demolidor, Alias e The Pulse, e a série de sua criação Powers, que foi publicada originalmente pela editora Image Comics antes de se transformar no primeiro título da divisão da Marvel chamada Icon. Junto com o escritor escocês Mark Millar e o então editor da Marvel Bill Jemas, Bendis é responsável pela maior parte das criações do selo Ultimate Marvel, que reinventa os personagens tradicionais da Marvel para um novo público, sem a bagagem associada de anos de continuidade. A criação de Bendis Alias inaugurou o selo Marvel Max voltado para leitores maduros. Seu trabalho nas séries Powers, Alias, Daredevil e Ultimate Spider-Man lhe rendeu dois prêmios Eisner de “Melhor Escritor”, em 2002 e em 2003. (Fonte: Wikipedia)

A série

Um dos muitos grupos de super-heróis da editora Marvel. “Os Novos Vingadores” apareceram pela primeira vez em 2005, no n° 1 do gibi “The New Avengers”. A série é um “spin-off” (desdobramento) dos famosos “Vingadores”, título criado em 1963.

A trama desses “Novos Vingadores” ocorre após a HQ “A Queda” (vista em 2004, nas revistas dos “Vingadores” originais): Homem de Ferro e Capitão América (dois dos membros veteranos) decidiram começar tudo de novo. Eles recrutaram primeiramente Homem-Aranha, Wolverine, Mulher-Aranha e Luke Cage. Após algumas aventuras, entraram para a equipe Sentinela e Eco, sob a identidade secreta de Ronin. Entretanto, com o advento da “Guerra Civil”, o grupo passou por uma nova crise e, conseqüentemente, cisão. Com um grupo apoiando o Homem de Ferro — a facção pró-registro — e outro, clandestino, com os “Vingadores Secretos” do Capitão América. Após a batalha definitiva, o grupo passa por novas – e drásticas – modificações.

Após a “Guerra Civil” até o fim da “Invasão Secreta” a equipe era formado por Luke Cage (líder), Homem-Aranha, Wolverine, Mulher-Aranha (temporariamente), Punho de Ferro (Daniel Rand), Eco (Maya Lopez), Ronin (Clint Barton) e Doutor Estranho (porém, devido a problemas pessoais, este último saiu antes da “Invasão”). Eles tinha a ajuda de aliados como o assistente do Dr. Estranho, Wong, a esposa e a filha de Luke Cage (Jessica Jones e Daniele Cage) e a Enfermeira Noturna. (Fonte: Guia dos quadrinhos)

Roteiro traduzido

Página Quadrinizada

Considerações

A primeira coisa que chama atenção no roteiro de Bendis é a nota que ele faz para o ilustrador no início do roteiro. Ele informa que escreve o full script, mas, ao mesmo tempo, diz ao ilustrador Leinil Yu que ele pode interpretar o roteiro da maneira que achar melhor. É simpático e inteligente da parte do Bendis dizer isso por que todos nós sabemos que é exatamente isto que o desenhista vai fazer você dizendo isto para ele ou não. Mesmo assim, isso ajuda a criar uma empatia com o ilustrador e, também, já deixa estabelecido que eventuais alterações não serão um problema maior para ambos. Um outro ponto interessante em observar é que o Bendis diz que depois que a arte está pronta, ele sempre reescreve ou altera alguma coisa no roteiro para garantir que está tudo ok entre a história e a narrativa (Uma espécie de Full Script na ida com Marvel Way na volta).

Analisando o o roteiro em si, vemos que Bendis, assim como  Warren Ellis e Jason Aaron, também não se preocupa muito com a definição de ângulos e planos, e que sua formatação é bastante parecida com os scripts para o cinema onde a marcação das fala dos personagens fica centralizada entre as descrições das cenas e a identificação de cada personagem antes de sua fala aparece em MAIÚSCULO.

Os Novos Vingadores 22 - Página 03 - trecho script

Trecho do script traduzido

A página escolhida para a nossa análise mostra uma vez mais uma cena estática onde, praticamente, há apenas personagens conversando. No entanto, como o próprio Bendis avisa no início do roteiro em sua nota para o Yu, não se deixe enganar, trata-se de uma página bastante tensa.

Infelizmente, apesar de ser um ilustrador espetacular, Leinil Yu falha miseravelmente ao tentar passar essa tensão para o leitor. Ela fica subtendida apenas pelos diálogos propostos do roteirista. Boa parte das emoções dos personagens expostas no roteiro são relevadas à segundo plano pelo ilustrador (A exemplo do quadro “2 – Olhando para baixo e vendo Luke que olha pra cima. Luke faz uma cara feia para ele.”). Eu não sei quanto a vocês, mas eu não vi aqui nenhuma expressão diferente no Luke Cage do que já vinha sendo feito pelo Yu desde o início da história. Pra falar a verdade, não dá nem pra saber para onde ele está realmente olhando (Se para o homem de ferro como pretendia Bendis ou para algum lugar perdido no tempo e no espaço).

Os Novos Vingadores 22 - Página 03 - quadro 02

Os Novos Vingadores 22 – Página 03 – quadro 02

Este acaba sendo um dos maiores problemas que os roteiristas enfrentam: É muito difícil encontrar um desenhista que seja um bom em retratar com sutilezas as emoções que podem ser expressas pelo rosto humano. Uma das raras exceções neste sentido era o desenhista kevin Maguire, que desenhava a liga da justiça nos anos 90.

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Exemplo do trabalho de kevin Maguire na Liga da Justiça

Por fim, o maior trunfo de Bendis é também um dos maiores empecilhos para o desenhista e, consequentemente, para a hq em si: os longos diálogos. No caso escolhido, até que não temos tanto diálogo assim (Se comparado com outras páginas ou outras hqs do mesmo roteirista), mas já serve para termos uma boa ideia dos problemas que podem advir disto.

Bendis usa o diálogo de uma forma bastante dinâmica e coloquial, muito parecido com a fala real, e isto acaba sendo positivo para o desenrolar das histórias, aumentar a empatia com os personagens e para cativar o leitor.

O problema é que isto requer pouca ação e muitos quadros. Quando falo em pouca ação, quero dizer que você não vê um personagem se levantando da cadeira, andando de um lado para o outro, pegando um objeto ou coisas deste tipo. E não vê por que, quanto mais ação um personagem executa num quadro, mais espaço ele precisa para mostrar esta ação. E, na maioria das vezes, não dá para você exibir muita ação e muito diálogo ao mesmo tempo. É preciso escolher como balancear isto. Assim sendo, quando Bendis coloca 7 quadros numa página e uma grande quantidade de diálogos, ele acaba “condenando” o desenhista a se prender às famigeradas “cabeças falantes”. O exemplo acima de Kevin Maguire é um exemplo de cabeças falantes onde só vemos a cabeça dos personagens e suas falas. A diferença é que Maguire é tão bom fisionomista que cada quadro tem uma dinâmica própria que supre parcialmente esse problema.

Um roteirista que sabe como ninguém colocar muitos diálogos numa página e, ainda assim, manter sua dinamicidade é o roteirista Giancarlo Berardi (Ken Parker, Júlia). Ele consegue variar os planos e ângulos dos quadros da página criando uma movimentação que não entedia o leitor. observe na página abaixo que a cena começa num plano frontal aberto, depois vai para um posterior médio focado em Júlia, depois vai para um posterior em relação ao delegado, depois vai para um plano superior aberto, volta para um plano médio frontal fechado no delegado e termina num close em Júlia. É por isso que é tão importante para um roteirista dominar estas marcações pois permitem que você dê mais agilidade às suas cenas (Afinal de contas, não dá sempre para confiar que o desenhista vai pensar em tudo).

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Página de Júlia, Uma criminóloga, de Giancarlo Berardi.

O último ponto que precisamos observar é que o excesso de diálogos pode prejudicar a letreirização da hq. Note que no quadro 4 quase não sobrou espaço para a letreirização e ela acabou estourando para o quadro seguinte. Eu, normalmente, gosto de pensar que, quanto mais diálogos tem numa página, menos quadros devemos dispor para utilizá-las.

Os Novos Vingadores 22 - Página 03 - quadro 04 e 05

Os Novos Vingadores 22 – Página 03 – quadro 04 e 05

É claro que também não podemos exagerar sob o risco de deixar os quadros muitos “pesados” de textos para não cansar a leitura e chatear o leitor. É claro que todos nós queremos ler uma história em quadrinhos, mas ela é, antes de tudo, uma história com fluidez própria e nós queremos que o leitor possa ser conduzido através desse fluido de forma suave, natural e quase hipnótica. Todas as vezes que empurramos uma tonelada de texto para ele, nós emperramos a narrativa e quebramos esta sintonia. Por isto, aprenda a diluir de forma responsável suas cenas e seus diálogos para que nem um nem outro sobrecarregue demais a página. Abaixo, podemos ver um exemplo do excesso de texto em um diálogo tornando a leitura bastante cansativa e arrastando a trama.

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Alguém faça o Donald calar a boca pelo amor de Deus

Conclusões

Mesmo trabalhando na Marvel, editora que costuma adotar o tipo de roteiro Marvel Way, Bendis prefere usar o tipo Full Script. Isto mostra que, cumprindo os prazos e definindo a forma de produção, o roteirista tem liberdade para contar a história como preferir e mostra que este tipo de roteiro é o preferido da maioria dos roteiristas profissionais.

Bendis ficou famoso pelas suas conversas longas e picadas (estilo bate-e-volta). Aqui podemos ver a sua construção e analisar quais os prós e os contras dentro da quadrinização de uma página de hq.

Escrever diálogos é uma característica importante dentro de qualquer história, seja ela de quadrinhos ou não, mas requer atenção. O seu excesso pode trazer problemas para a leitura e o encaixe dentro dos balões.

Vemos também que (Como sempre) nem tudo o que o roteirista imagina para os personagens são interpretados pelos desenhistas. Principalmente as nuances emocionais.

Apesar de tudo, neste caso, pouco se perde entre a intenção do roteirista e a interpretação do desenhista. Mesmo assim, estas observações servem para que possamos prestar mais atenção nestes detalhes quando formos produzir nossos próprios roteiros.

Roteiro Original

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NEWAVENGERS22

 

E vocês? o que acharam desta análise? Comentem aí e sugiram outros roteiros e roteiristas para que eu possa comentar.

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