Mark Millar – Guerra Civil 1 – Páginas 29 e 30

O roteirista

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Mark Millar (24 de Dezembro de 1969) é um premiado roteirista escocês de quadrinhos nascido em Coatbridge, Escócia. Em 2004, criou o Millarworld, selo que abriga suas histórias autorais. Suas obras mais conhecidas incluem: The Authority, Os Supremos (a releitura de Os Vingadores de Stan Lee e Jack Kirby), Marvel Knights Spider-Man, Old Man Logan, Superman: Red Son, Ultimate Fantastic Four, a mega saga Guerra Civil, e os autorais Wanted, Kick-Ass e Kingsman: Serviço Secreto (Os 3 já transformados em filmes de grande sucesso). Em Agosto de 2007, recebeu o prémio Stan Lee no WizardWorld em Chicago. Em 2017, o serviço de streaming Netflix adquiriu a Millarworld. (Fonte: wikipedia – com adaptações)

A série

A Guerra Civil é um acontecimento da editora Marvel Comics, escrita por Mark Millar e desenhada por Steve McNiven. Foi publicada em sete partes entre os anos 2006/2007, além de se espalhar por quase todas as revistas Marvel no período. O evento ocorre após as sagas Vingadores: A Queda, Guerra Secreta e Dinastia M. (Fonte: wikipedia)

Roteiro traduzido

Página Quadrinizada

Considerações

A Cena da fuga do capitão América surfando no jato em Guerra Civil tornou-se uma das cenas mais icônicas dos quadrinhos recentes e, o mais interessante de tudo é que Mark Millar, quando escreveu essa cena, tinha em mente a noção exata do impacto que ela causaria no leitor.

Escrever cenas de ação são complicadas e tendem a cair num lugar comum. É normal o roteirista limitar-se a registrar essas cenas como “o personagem A acerta um soco no personagem B” ou “o personagem C dá um chute no personagem D”, tirando, assim, toda a emoção da cena. O desenhista, se for de sensibilidade mediana, pode pegar essa “falta de emoção” e repassá-la para as ilustrações.

Embora seja preferível desenvolver as tramas e os personagens antes da ação, cabe ao roteirista também se esforçar para inovar, inventar e sair do lugar comum quando se trata em cenas de ações. Principalmente em se tratando de histórias de super-heróis. E, neste quesito, Mark Millar tem se destacado com louvor.

Um outro ponto a se observar é a consciência do roteirista em relação à história que ele está desenvolvendo e o que ele pretende alcançar com o leitor. O roteirista precisa não só saber o que quer, mas também ter a certeza de como quer conduzir o leitor através das páginas de sua história. E, neste ponto, temos que destacar a importância da surpresa da “virada de página”.

É muito importante que o roteirista possa desenvolver sua história de forma que, nas páginas ímpares (normalmente publicadas á direita da revista) ele gere uma expectativa no leitor que o faça querer virar a página e ver o que acontece na página seguinte (A página de numeração par que normalmente é publicada á esquerda da revista). No nosso exemplo, Millar não só gera essa expectativa com os gritos da “equipe de terra” (último Quadro da página 29), como entrega um delírio visual arrebatador para o leitor na “virada da página” com a cena incrível do capitão surfando num jato (Cena que é espetacularmente executada pelo desenhista Steven McNiven), deixando-o completamente embasbacado.

Do ponto de vista técnico, podemos analisar que Mark Millar utiliza o tipo de roteiro Full Script, define um discreto controle de planos e ângulos (Apenas o necessário para se fazer entender) e que, na maioria das vezes, deixa a cargo do ilustrador a organização do layout dos quadros dentro da página.

A forma como ele formata o roteiro é bem simplista destacando apenas o número da página, enumerando os quadros dentro dela usando uma barra (ex: “1/”) e escrevendo tudo em letras minúsculas (Deixando em maiúsculas apenas a marcação dos personagens que falam e algumas palavras do diálogos que precisam de algum destaque).

Ex: CAPT AMERICA: — e cuidado com essa BOCA suja!

Dentro dos diálogos, há 3 pontos também técnicos a se considerar quando analisamos esse roteiro. Primeiro, há uma marcação para os efeitos sonoros (Também conhecidas como Onomatopeias). para quem não sabe, é função do roteirista definir todo e qualquer texto que aparece nos quadros, sejam eles as falas dos personagens em cena, narrações de personagens ocultos e, até mesmo, as onomatopeias.

Ex: EFEITO SONORO: SHADDUNKK!

Tão importante quanto marcar os textos que aparecem num quadro é identificar quando não há nenhum texto dentro dele (Apenas imagens). Neste caso, é importante identificar isso através de uma marcação como fez o roteirista.

Ex: NENHUM DIÁLOGO

Por fim, cabe ao roteirista criar maneirismos que simulam o linguajar real para dar mais profundidade aos personagens (Mesmo que sejam coadjuvantes).

Ex: PILOTO: JEZUUS!

A última observação que podemos fazer em relação ao roteiro de Mark Millar é que, algumas vezes, o desenhista pode optar por aumentar ou modificar a estrutura narrativa para poder melhor contar a história visualmente para o leitor. É o que acontece aqui entre o roteiro e a página desenhada. Na página 29, Mark Millar estabelece uma página com 3 quadros enquanto o Steven McNiven prefere acrescentar mais 2 quadros para melhor narrar a ação (inclusive modificando o enquadramento definido pelo roteirista).

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Página 29 – 1 quadro de script virou 3 quadros de desenho: “corte da incrível fuga para o OUTRO lado da fortaleza voadora onde vemos todos esses caras tentando puxar as grandes portas a tempo. Estamos olhando através de uma grande porta aberta aqui e há um pânico total por aí.”

Isto é perfeitamente aceitável. Quando um desenhista, sem interromper um fluxo narrativo por página, decide melhorar a narração visual de uma cena adicionando mais quadros ou mudando um quadro para colocá-lo em uma perspectiva que facilite o entendimento do leitor, isto normalmente é bem-vindo. O problema acontece quando o desenhista decide contar uma história diferente do que o decidido pelo roteirista (Como adicionando fatos que não existem no roteiro) ou quebrando a narrativa em mais de uma página (Quebrando, assim, o ritmo da história).

Felizmente, isto não é o que acontece aqui e o trabalho do desenhista acaba melhorando a narrativa proposta pelo roteirista.

Conclusões

Mark Millar ficou famoso nos quadrinhos por misturar muita violência e histórias descoladas. Seus roteiros parecem se desenrolar como um filme muito bem produzido onde ele envolve o leitor criando plots legais e cenas de ações incríveis.

Isto mostra o quanto é importante pensar não só no desenvolvimento dos personagens e da trama, mas tentar, também, criar cenas de ação que tirem o fôlego do leitor.

Muitos acham que escrever roteiros é sentar e contar uma história. Não é bem isso. O roteiro tem seu próprio ritmo com suas viradas de páginas e é preciso um domínio narrativo preciso para desenvolver essas histórias de forma a não quebrar esse ritmo.

Do ponto de vista técnico, os roteiros de Mark Millar são bastante “minimalistas” contendo apenas o que é imprescindível para contar uma boa história. Isto faz com que nós admiremos ainda mais o seu trabalho.

Roteiro Original

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E vocês? o que acharam desta análise? Comentem aí e sugiram outros roteiros e roteiristas para que eu possa comentar.

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