Matt Fraction – Casanova 8 – Página 15

O roteirista

Matt-Fraction.

Matt Fritchman (1 de dezembro de 1975), mais conhecido pelo nome artístico de Matt Fraction, é um roteirista de histórias em quadrinhos americanas. É o criador das séries Casanova e Sex Criminals, publicadas pela Image Comics. Como roteirista contratado pela Marvel Comics contribuiu significativamente para as revistas “Hawkeye” e “Fantastic Four”. Em 2013 e em 2014 Fraction foi indicado ao Eisner Award de “Melhor Escritor” por seu trabalho nessas quatro séries. Com o desenhista Salvador Larroca foi indicado em 2008 ao Eisner de “Melhor Edição Especial” pelo trabalho desenvolvido na história “To Have or to Hold”, publicada em “Sensational Spider-Man Annual”. Outra história de Fraction, “Pizza Is My Business”, foi a vencedora da categoria em 2014.
Quatro séries com roteiros Fraction já foram indicadas ao Eisner de “Melhor Série Estreante”: “The Immortal Iron Fist”, co-escrita com Ed Brubaker, recebeu uma indicação em 2008, “The Invincible Iron Man” venceu no ano seguinte, “Sex Criminals” venceu em 2014 e “Hawkeye” foi indicada no ano anterior. Fraction é casado com a também escritora Kelly Sue DeConnick, com quem tem dois filhos, Henry e Tallulah. (Fonte: Wikipedia)

A série

Casanova é uma revista em quadrinhos americana criada e produzida pelo roteirista Matt Fraction e pelos ilustradores Gabriel Bá e Fabio Moon. Publicada originalmente pela Image Comics, a série apresenta “Casanova Quinn”, um jovem que se infiltra numa organização de espionagem que anteriormente tinha seu pai como membro, passando a atuar em diferentes universos paralelos. Por seu trabalho na série, Fraction foi indicado em 2013 ao Eisner Award de “Melhor Escritor”. (Fonte: Wikipedia)

Roteiro traduzido

Página Quadrinizada

 

Considerações

Antes de começarmos, é preciso mencionar que as observações aqui feitas não tem a intenção de denegrir a imagem e nem o trabalho de nenhum dos envolvidos e sua análise é puramente especulativa e com o intuito de discutir possibilidades visando proporcionar uma visão crítica e com um fim didático.

Quadro 01

Casanova_05_17-01

O quadro 1 está totalmente diferente do que foi definido pelo roteirista (“O AGENTE corre enquanto o AVIÃO colide diretamente atrás dele e começa a derrapar, dividindo a terra ao redor como um limpa-neves infernal e dirigindo-se ao AGENTE como um foguete.”). Aqui, o desenhista (Em comum acordo com o roteirista ou a sua revelia, não sabemos dizer), optou por fazer a corrida a partir de planos diferentes (A nave do alto, o agente em terra firme). Talvez o desenhista tenha feito isto por achar que o corte narrativo fosse muito brusco: Na página anterior a nave é atingida e o roteirista gostaria que, na página seguinte a nave já estivesse se chocando no chão. O desenhista pode, neste caso, ter optado por mostrar a nave, gradualmente, caindo no chão. Felizmente, para a história, o objetivo final foi alcançado sem causar maiores problemas para a narrativa ou a história em si.

Quadro 02

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Neste quadro, o desenhista (muito em razão da escolha anterior)  apresentou a nave se chocando no chão. Se tivesse optado em dar continuidade a ideia original do roteirista (A de fazer a nave deslizando pelo chão em direção ao personagem), o desenhista iria precisar de mais quadros (Pelo menos 1 a mais) e isto poderia acabar gerando a necessidade de se repensar a disposição dos quadros 4 e 5 (Que sugeririam quadros mais largos).

Quadro 03

Casanova_05_17-03

Este quadro, em particular, incomoda-me um pouco pois a intenção do roteirista era mostrar o personagem numa situação limítrofe onde ele estava encolhido, esperando a morte certa (ou a pancada certeira da nave) e, ainda assim, mostrar sua determinação em morrer pela suas convicções. Eu acredito que, a escolha feita pelo desenhista de não apresentar a nave deslizando em sua direção, tornou o quadro praticamente dispensável e, com certeza, sua emoção foi totalmente obliterada.

Falo isto numa análise mais aprofundada, mas reconhecendo que, no final, ela é uma cena menor numa história mais importante. Mesmo assim, julguei ser necessário tocar neste assunto para mostrar que, nem sempre, as escolhas feitas pelo desenhistas são as mais acertadas e, frequentemente, eles acabam deixando de lado as nuances, emoções e sentimentos de lado em função do visual.

Para entender a perda que há entre a intenção do roteirista e a cena desenhada, é preciso compará-la com outra que é emocionalmente semelhante. Na imagem abaixo, vemos Tom Cruise, no filme Mission: impossible, totalmente tenso, preocupado com o possível impacto do destroço de uma hélice de um helicóptero que vem em sua direção. Acredito que era este tipo de sensação que o roteirista queria passar para o leitor, mas que ficou de fora quando foi desenhada.

Tom Cruise - M.I.

Tom Cruise em Mission: Impossible, quase sendo atingido pela hélice de um helicóptero.

Quadro 04

Casanova_05_17-04

Nesta cena, o desenhista tenta, de uma forma bem discreta (Note que há uns traços indicando surpresa na cabeça do personagem), simular a emoção de surpresa/alívio (Em contrapeso com a tensão que deveria existir no quadro anterior) por não ter sido atingido.

Casanova_05_17-04-detalhe

Curiosamente, o que ocorre aqui é o contrário: é o desenhista quem adiciona uma emoção necessária, mas que não está explicitamente definido no roteiro. Tudo o que o roteirista faz é subtender essa emoção (“O AGENTE sobreviveu. Ele olha para trás para se certificar.”).

Quadro 05

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Aqui, dois detalhes. Primeiro, o desenhista optou por colocar o personagem de punho erguido ao  invés de apontando sua arma como foi dito no roteiro (“aponta sua arma para ela”). Uma escolha absolutamente desnecessária. Não que colocar o personagem de punho erguido ou apontando sua arma fosse fazer alguma diferença, mas acredito que o desenhista tenha optado fazer assim por causa do ângulo que ele escolheu para compor a cena : plano geral, ângulo posterior.  O ângulo escolhido dificultaria fazer com que o leitor percebesse que ele estava apontando a arma para a nave e, talvez por isto, o desenhista tenha decidido mudar a ação do personagem. Felizmente, mais uma vez, as mudanças propostas visualmente pelo desenhista não afetaram em nada a narrativa ou a história.

cs back view

Counter Striker: visão de um soldado apontando uma arma e visto de costas. Deste ponto de vista não dá para ter certeza se a pessoa está apontando uma arma ou fazendo outra coisa.

Um segundo detalhe que é muito interessante comentarmos é a respeito de tudo aquilo que o roteirista coloca para criar uma sensação não para o leitor, mas para o próprio desenhista que ultrapassa as questões técnicas de marcações e descrição da cena em si. É o que acontece quando o roteirista escreve sobre a nave caída (“parece morta de uma forma que apenas uma aeronave abatida pode parecer.”) que não há a menor possibilidade de ser transferida para a cena pelo desenhista, mas que, mesmo assim, enriquece o texto e passa uma força sensorial maior para o desenhista do que simplesmente dizer que a nave está abatida no chão e em chamas.

Em alguns roteiristas isto é até maior e mais importante do que as descrições das cenas em si. Ou seja, eles preferem escrever um roteiro quase como um romance, mas que é lido apenas pelos desenhistas.

Recapitulando do princípio…

A primeira coisa que percebemos ao ler a página do roteiro e ver a página quadrinizada é que o roteirista tinha a intenção de criar uma espécie de corrida alucinante onde a nave cai e vai deslizando em direção do agente. No final, o agente se abaixa esperando pelo pior que acaba não chegando, mas o desenhista acabou optando por ir numa outra direção.

Isto, como podemos ver em outros roteiros analisados aqui, é uma coisa bastante comum: O desenhista imaginar uma coisa e o ilustrador fazer outra. Não exatamente igual, mas (na maioria das vezes) atingindo um mesmo objetivo.

Isto pode acontecer, basicamente, por duas razões: ou o desenhista entendeu que o que era desejado pelo roteirista não ficava visualmente bem (narrativamente falando) para o leitor ou o desenhista não conseguia alcançar a situação desejada pelo roteirista (Não conseguia, no espaço reservado, desenhar tudo o que a cena pedia).

De uma forma ou de outra, o dano é minimizado quando, mesmo não se desenhando exatamente o que foi solicitado pelo roteirista, atinge-se o mesmo objetivo (Que no caso era fazer a nave cair próxima o suficiente do agente de uma forma que gerasse uma certa emoção).

A observação anterior nos leva a uma segunda consideração que é a seguinte: é preciso cuidar da ação de forma a fazer ela trabalhar em direção da sua história. No caso, imagina só se a nave caísse bem longe e tivéssemos que ter algumas cenas fazendo o agente se deslocar até onde a nave caiu para interrogar seu tripulante? Isto iria acabar com o timing da narrativa tornando-a um pouco mais arrastada e enfadonha.

Da forma com foi construída, ela ficou emocionante e, ao mesmo tempo, ágil, fazendo tudo parecer mais cool, mais legal e mais leve.

Continuamos nossa análise, percebemos que, frequentemente, as informações não visuais (sentimentos, sensações e clima) são relegados a segundo plano (ou mesmo desconsiderados) quando se parte para a as informações visuais (o desenho e a ação).

Tecnicamente falando, Fraction usa o tipo de roteiro Full Script e formata seu roteiro com marcações semelhante ao Jason Aaron, indicando o número do quadro dentro da página sendo antecedido pelo número da página.

EX: 15.1

A marcação das falas dos personagens são separadas apenas por tabulações (Enquanto Jason AaronMark Millar usam dois pontos e Brian Michael Bendis centraliza a marcação do personagem e nas linhas seguintes é que coloca a fala do personagem). Uma curiosidade é que, ao invés de usar reticências, Matt Fraction usa dois traços (–) para passar essa sensação de descontinuidade da fala.

EX: AGENTE                      Merda–

Saindo desta página e analisando o roteiro como um todo, percebemos que não há, em seus roteiros, uma constância definida de marcações de ângulos e planos, aparecendo sempre que ele julga necessário para melhor apresentar uma cena para o desenhista.

Por fim, um detalhe que não me passou despercebido foi o fato de que, mesmo escrevendo a descrição da cena em letras minúsculas, Matt Fraction usa LETRAS MAIÚSCULAS para destacar elementos essenciais em cada quadro. Um subterfúgio que achei muito interessante.

EX: O AGENTE corre PARA A CÂMERA enquanto a aeronave guincha até parar atrás dele…

Conclusões

Esta parece ser uma das principais características do estilo de Matt Fraction: ele faz as ações dentro da história ficarem mais descoladas e mais legais. Todo mundo parece ter sido o cara mais popular do colégio mesmo quando o cara é um total fracassado.

O realismo passa um pouco longe dos personagens nos roteiros de Matt Fraction, mas isto, de forma alguma, é uma crítica ao seu trabalho. Ao contrário, é justamente isto que torna suas histórias tão legais.

Existe em Fraction, assim como em todo bom roteirista de histórias de ação, o cuidado em manter o ritmo constante e imaginar cenas emocionantes de ação. Isto pode acabar gerando alguns problemas para os desenhistas, mas, com certeza, sempre trabalham positivamente em função da história.

Na parte técnica, embora não fuja muito do padrão do full script, seus roteiros apresentam sutis detalhes que se tornam interessantes para o desenhista como, por exemplo, o fato de destacar em cada cena elementos importantes através de letras maiúsculas.

Analisando o roteiro de Matt Fraction chegamos a conclusão de que um bom roteiro não chega a fugir muito de seus padrões de formatação e que o principal reside em como os roteiristas o utilizam para contar uma boa história.

Roteiro Original

 

Casanova 8 - Script cover

Casanova8

 

E vocês? o que acharam desta análise? Comentem aí e sugiram outros roteiros e roteiristas para que eu possa comentar.

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