Capítulo 2 – Zoe

Manter a esperança. Acreditar que amanhã poderá ser melhor do que hoje. Procurar o brilho das coisas mesmo estando mergulhado na mais profunda escuridão. Essa era a verdadeira batalha a ser vencida. Pelo menos era isto que Zoe acreditava.

A bela amazona de cabelos claros como a luz do sol e lisos como seda estava montada em seu cavalo, passando pela floresta da mata atlântica. Ela não estava sozinha. Era acompanhada pelas demais guerreiras que se auto intitulavam de As Novas Amazonas. Ela observava atentamente às árvores, à vegetação densa e aos pequenos animas que abriam passagem assustados quando ela e suas amigas passavam. Mas ela também observava de quando em vez, misturado ao verde das matas, carros destroçados, ferragens diversas, sofás rasgados, pias de banheiro, placas de trânsito. Tudo aquilo havia sido arrastado até ali pelas ondas gigantescas que varreram a costa dos continentes. E depois que a maré recuou, deixou ali aquele amontoado de entulho.

As Novas Amazonas [Zoe] por Carlos Brandino

As Novas Amazonas [Zoe] por Carlos Brandino

Um leve estalido aguçou todos os seus sentidos e a fez, imediatamente, armar uma flecha em seu vigoroso arco. A tensão durou alguns segundos que pareciam uma eternidade. Sua respiração tornou-se lenta e espaçada, uma gota de suor começara a cair de sua têmpora e ela sem mexer um músculo apontando sua arma para o lugar de onde o barulho tinha vindo.

Foi quando, por detrás de um pedaço de uma asa de avião, saíram uma mulher, um homem e uma criança. Todos tinham uma aparência maltrapilha, de pedintes, quase bichos, mas estavam muito calmos, diria-se que quase felizes. O homem devia ter uns 25, talvez 30 anos. A mulher, mais jovem que ele, deveria estar chegando na casa dos 25. E a criança – uma garota – devia ter uns de uns 2 para 3 anos. A mulher carregava um arco laçado por entre o corpo mas Zoe percebeu que eles não representavam nenhum perigo e relaxou a sua flecha na corda do seu arco.

– Algum problema, Zoe? – Veio a voz de Helena lá do fundo, de alguns metros de onde ela estava.

– Não! – Respondeu Zoe ainda sem tirar os olhos da família – Não é nada!

Zoe observou melhor àquelas 3 criaturas: fracas, sujas, desgraçadas. Porém unidas. Unidas no infortúnio, na dor e no sofrimento diário de sobreviver num mundo tão duro e violento. E o fruto daquela união estava ali em seus braços. Esta união lembrou a Zoe de uma outra. Uma na qual não pensava há muito tempo.

O nome de Zoe veio de um livro velho onde jovens guerreiros e antigos Deuses viviam e lutavam entre si. Um livro que seu pai leu para ela quando ela ainda tinha 4 ou 5 anos. Aliás, foi de seu pai que Zoe herdou o gosto pelos livros e a esperança no futuro. De sua mãe, aprendeu coisas mais práticas como o uso das ervas para curar ferimentos e doenças e a caçar com o arco e flecha. Sua mãe era uma guerreira. Seu pai, um pacifista. Olhando para trás agora, ela não consegue imaginar como duas pessoas tão diferentes se apaixonaram. Ela ainda lembrava-se das discussões dos dois a respeito deste tema: guerra e paz. Sua mãe exasperava-se tentando demonstrar seu ponto de vista. Ela gesticulava, andava de um lado para o outro, cuspia berros de indignação. Enquanto isto, seu pai observava tudo com a maior atenção do mundo, escutando cada palavra dela com verdadeira concentração, mas, quando ela perguntava o que ele achava disto tudo ele simplesmente levantava-se, aproximava-se dela, beijava-a profundamente com um amor tão sincero como Zoe nunca mais vira outra vez e então, com um sorriso doce e franco nos lábios, dizia-lhe:

– Pode uma espada vencer isto?

A mãe de Zoe baixava a guarda e desistia da conversa. Pelo menos até a próxima oportunidade.

Eles se conheceram de uma maneira sui generis. Sua mãe dizia que estava andando pela floresta a procura de alimento quando encontrou seu pai sentado embaixo de uma árvore lendo um livro tão compenetrado que sequer percebeu quando a bela arqueira passou por ele. Não resistindo a curiosidade, ela deu meia volta em seu cavalo e perguntou a ele:

– O que você está fazendo aí?

– Lendo! – Ele respondeu após dar uma boa olhada naquela altiva mulher montada no cavalo.

– Lendo? – Ela indagou – o que é isto?

– Você nunca… – ele surpreendeu-se, mas logo lembrou-se de que este não era um hábito comum e que eram poucas as pessoas que passavam este conhecimento de uma geração para outra. – Ler é decifrar os ensinamentos contidos nestes livros!

– E o que você está…lendo… neste…livro? – Ela perguntou cada vez mais fascinada com aquele misterioso e, ao mesmo tempo cândido, homem.

– A Maldição de Titã de alguém chamado Rick Riordan!

Zoe esboçou um leve sorriso ao se lembrar desta história que seu pai sempre lhe contava. Mas o sorriso logo desapareceu de seus lábios dando lugar a uma expressão triste que remetia à saudade que ela sentia pela ausência dos dois.

Zoe e seus pais viveram felizes por muitos anos. Felizes de acordo com as possibilidades dentro desta nova configuração mundial de caos e selvageria. Mas a união entre os três era mais do que suficiente para ignorar as desgraças ao seu redor. Zoe lembrava-se como seu pai estava sempre fazendo-a rir e mostrando-lhe sempre que, por mais terrível que as coisas podiam parecer, estar vivo sempre seria uma dádiva e que dias melhores haveriam de chegar para afastar os dias ruins.

– Não importa por quanto tempo a dor e a tristeza te acompanhe, minha pequena Zoe! – Ele dizia-lhe olhando firmemente em seus olhos – Um único momento de alegria é capaz de te fazer esquecer décadas de sofrimento!

E ele estava certo. A seu modo. A vida deles não era fácil: sempre se mudando de um lugar para o outro a procura de abrigo e alimento, evitando ao máximo o encontro com outros seres humanos (Principalmente quando estavam em grupos) e lutando contra os perigos que a própria natureza lhes impunha. Mas tinham uns aos outros. E os momentos juntos eram sempre especiais. Zoe sempre sentiu isso. Parecia saber que aquilo não iria durar eternamente e sempre procurou aproveitar ao máximo aqueles breves momentos de riso, distração e carinho.

E quando tudo acabou, acabou de uma forma rápida mas extremamente dolorosa para dar lugar a um enorme período de provações e sofrimentos. Zoe não consegue se lembrar exatamente de onde eles vieram. O que ela se lembra é do alvoroço, da correria e dos gritos. Seu pai tomou-lhe nos braços e correu o máximo que pôde. De relance, por cima dos ombros dele, ela viu quando sua mãe tentou armar mais uma flecha e foi atingida por uma lança rudimentar que lhe atravessou o corpo fazendo-a tombar inerte. Em seguida, viu cada vez mais se aproximar a sombra daquele cavaleiro vestindo roupas rasgadas e carregando uma espada na mão. E quando esta espada desceu, seu pai parou de correr e os braços dele afrouxaram-se ao redor de Zoe. Ela foi cercada pelos outros homens e conheceu, pela primeira mas não última vez, a brutalidade selvagem do sexo tomado à força. E enquanto aqueles animais se revezavam em cima dela, a mente de Zoe flutuava no etéreo tentando fugir da violência que seu corpo sofria.

Zoe tinha, então, apenas 12 anos.

Estes pensamentos ruins acabaram por trazer-lhe de volta ao presente e amargar um pouco o doce sabor da lembrança de seus pais que iniciara todas essas reminiscências. Percebeu então por que raramente procurava pensar nos seus pais: a alegria da lembrança sempre estava atada a um grande sofrimento que Zoe luta diariamente para esquecer.

– Você está bem, Zoe? – Perguntou Isolda, a gigantesca e musculosa amazona, aproximando seu cavalo do de Zoe. – Você está aí parada olhando para o nada há alguns minutos.

Zoe surpreendeu-se com a chegada de Isolda, o grande amor de sua vida, e respondeu-lhe:

– O quê? Oh, Isolda, é você? Não percebi você chegando!

– O que houve? Você está se sentindo bem? – Insistiu a outra amazona.

-Oh, sim! Claro! Eu só…achei que tinha visto…algo! Uma família: um homem, uma mulher e uma criança! Mas agora não há nada! Devo estar imaginando coisas!

– Como eles eram? – Perguntou Isolda, armando-se de seu machado preparando-se para algum eventual perigo.

– O Homem era barbudo e a mulher tinha os cabelos loiros e compridos… – Respondeu Zoe.

– Loiros como os seus?

Neste instante Zoe teve certeza de que aquela família que encontrara no meio da mata era fruto mesmo de sua imaginação. Talvez da saudade imensa que nunca deixou de sentir. Talvez da memória que insistia em não lhe deixar esquecer. Mas a verdade é que os estranhos que pensara ter visto, eram na verdade, seu pai e sua mãe num reflexo da primeira memória que ela se lembra deles. Ao tomar consciência disto, Zoe deu um leve sorriso e, enquanto uma lágrima de felicidade e saudade escorria de seus olhos, ela respondeu a Isolda:

– Sim…como os meus…

FIM

Para ler as hqs das Novas Amazonas, clique nos títulos: “Homem bom é homem morto”,  “Antigas Histórias” e “Mais intenso que a vida, maior que a própria morte”.

Quer saber mais sobre As Novas Amazonas? Clique aqui. E veja a galeria com as personagens aqui. Se quiser, mande uma ilustração para a gente postar na galeria.

Anúncios