Capítulo 3 – Olímpia

– Deve ser muito divertido ser feliz!

– O que foi que você disse, Olímpia?

– O quê? Não é nada, Jasmim! Estou pensando alto…

Olímpia não queria tocar no assunto com Jasmim pois sabia como a guerreira de bela cabeleira ruiva era irritantemente compreensiva. Assim sendo, fingiu continuar limpando suas duas pistolas Taurus PT 100 enquanto permanecia olhando de soslaio, de quando em vez, para as apaixonadas Isolda e Zoe. Ah, como aquilo a exasperava.

As novas amazonas estavam numa bela clareira em frente a um límpido rio que corria sereno por entre o verde da selvagem mata atlântica. Estavam afastadas dos destroçados centros urbanos e as guerreiras descansavam de sua jornada em direção à região norte do Brasil, aproveitando as poucas horas de tranquilidade que lhes era permitido ter. Helena lia um dos livros de Zoe – a insustentável leveza do ser – , Athena e Lolita brincavam nuas nas águas do rio, Zoe e Isolda conversavam numa sombra de um pau-Brasil próximo, Jasmim providenciava uma fogueira para preparar o jantar e Olímpia, para não parecer que não estava fazendo nada, resolveu desmontar suas armas e fingir estar limpando-as.

Mas o que Olímpia estava mesmo fazendo era observar – e se incomodar com – o comportamento de Zoe e Isolda.

As Novas Amazonas [Olímpia] por Daniel Brandão

As Novas Amazonas [Olímpia] por Daniel Brandão

Isolda e Zoe eram amantes. O único casal a se formar entre as sete mulheres. Por mais que abominassem os homens e seus comportamentos brutos e cruéis, as relações amorosas entre as guerreiras não floresceram na mesma proporção em que suas amizades. E isto é uma das ironias do amor: é ele quem dita as nossas escolhas e não o contrário. Tirando as duas amazonas, o sentimento que existia entre as demais era o de irmãs: havia o amor, mas ele não era acompanhado do desejo carnal.

Na agradável sombra que se formava, a musculosa Isolda estava sentada encostada no pau-Brasil e a aparentemente frágil Zoe estava encostada na companheira. Porém, esta segunda estava com a parte superior de seu tronco e o rosto ligeiramente voltados para trás, procurando os olhos da amada de cabelos curtos. Elas conversavam e riam suavemente com alguma brincadeira particular que só elas compreendiam. Zoe estava comendo uma maçã e, de tempos em tempos, erguia a fruta até a boca de Isolda para que esta também usufruísse de seu sabor adocicado. E riam mais um pouco.

Estavam felizes. Aquele momento de tranquilidade era raro e a possibilidade de ficarem assim, juntinhas, despreocupadamente sorridentes, era algo para ser festejado. Do jeito delas, simplesmente estando uma ao lado da outra, sentindo um corpo relaxar no outro, rindo de futilidades, compartilhando sabores e suspirando ao perceber no fundo dos olhos da outra que existe ali um sentimento capaz de tornar todos os sacrifícios menos penosos.

E era isto que Olímpia não conseguia entender.

Como podem estas mulheres ficarem felizes num mundo destes? Onde é preciso lutar para sobreviver, onde os homens só pensam em subjugar e destruir. Onde as mulheres não passam de escravas ou prostitutas. Ou ambos.

Este não era um mundo para o amor. Era um mundo onde apenas os mais fortes e cruéis sobrevivem. Era nisto que Olímpia acreditava. Foi isto que a vida lhe ensinou. Por isto, ela não conseguia encontrar motivos para compartilhar daquele sentimento de paz, alegria, comunhão. Um inconformismo aliado a um sentimento de raiva, inveja e frustração apoderaram-se dela e ela ficou ainda mais impaciente do que de costume.

– O que você tem, Olímpia? – Perguntou-lhe Jasmim que notara a perturbação tomar conta de sua amiga.

– Não é nada! – Respondeu rispidamente Olímpia e arrematou: -Por que você não cuida da sua vida?

A convivência com Olímpia não era nada fácil e Jasmim era uma das poucas – senão a única – a preocupar-se realmente com a controversa pistoleira. O contraste entre as duas era tão gritante que ficava difícil de entender como elas criaram este verdadeiro, embora sempre frágil, laço. Enquanto Olímpia era impaciente, intolerante e agressiva, Jasmim era calma, compreensiva e gentil. E estas qualidades, algumas vezes, irritavam ainda mais Olímpia. A esguia amazona de longos cabelos negros e lisos, de olhar sempre afiado e instintos sempre no limite, algumas vezes se fechava de tal forma que, quanto mais Jasmim tentava lhe ajudar, mais ela se afastava.

Isto se dava, principalmente ao fato de que Olímpia, embora sentisse tudo intensamente, não conseguia entender ou expressar estes sentimentos para os outros. Sempre que tentava esboçar alguma reação neste sentido, não só não conseguia encontrar as palavras certas como também começava a achar aquelas sensações ridículas e despropositadas se levassem em consideração o mundo em que viviam. E assim, ela seguia afastando-se cada vez mais das únicas pessoas que poderiam lhe dar algum tipo de ajuda.

A despreocupação de Helena, a ingenuidade de Athena e Lolita, o amor entre em Isolda e Zoe e, principalmente, a preocupação de Jasmim fizeram com que Olímpia se apressasse em remontar suas pistolas e a levantar-se dali.

– Aonde você vai? – Perguntou Jasmim não sem antes pesar bastante se devia ou não interpelar uma vez mais a amiga.

– Vou checar o perímetro! – Respondeu Olímpia ligeiramente mais calma ao saber que o afastamento das demais iria ajudá-la a refrear seu descontentamento.

– Eu vou com você! – Ofereceu-se Jasmim.

– Não é preciso! – Respondeu Olímpia de forma tão firme que Jasmim imediatamente percebeu que a companheira queria alguns momentos para si.

– Ok! Se achar alguns palmitos por aí, traga-me alguns! Vai dar mais sabor ao peixe que irei preparar!

Com as duas pistolas em seus coldres amarrados ao redor das coxas, Olímpia sai da clareira e continua seguindo as curvas sinuosas formadas pelo rio selvagem. Anda ligeiramente cabisbaixa ainda incomodada pelos gestos de carinho entre Isolda e Zoe.

Ela própria nunca soube o que era amor.

A lembrança mais antiga que ela tem é a de um homem que ela achava ser seu pai entregando-a, ainda na tenra idade de 4 ou 5 anos, por um punhado de carne seca, a outro homem. Na realidade, aquele homem que ela julgava ser seu pai, na verdade havia encontrado-a ainda bebê e teria cuidado dela até aquele dia onde a fome e o desespero falaram mais alto e ele preferiu “vender” a criança para outro homem que parecia ter mais posses e poderia cuidar melhor dela do que ele. A verdade é que o maior temor que ele tinha, naquele momento, era de que a fome o fizesse a cometer com a criança o ato mais cruel que alguém poderia cometer com outro ser humano: o canibalismo.

Mas o destino não havia reservado dias melhores para a pequena Olímpia. O homem que a comprara já tinha seus 50 e tantos anos, era magro como um cadáver e possuía um olhar frio e inflexível. Mesmo sem saber nada da natureza humana, Olímpia imediatamente percebeu que aquele homem era o que se podia chamar de a personificação do mal. E ela estava certa.

Ela nunca soube seu primeiro nome mas todos se dirigiam a ele como Senhor Meireles. “Monstro”, porém, seria a definição ideal para aquele homem sádico e cruel. Ele vivia praticamente sozinho num bunker escondido na floresta. Depois de alguns anos de convívio com o “monstro”, Olímpia ficou sabendo que ele matara uma família inteira que vivia ali e que foi ingênua o suficiente para oferecer abrigo para ele. Eram raras as ocasiões em que ele deixava seu abrigo. Geralmente para efetuar trocas. Era conhecido na região como um colecionador: recolhia, catava, coletava, trocava e, muitas vezes, arrancava a força toda a sorte de itens exóticos que encontrava em meio aos destroços de um mundo devastado. Livros, quadros, vinhos, armas – dentre elas as duas pistolas Taurus PT 100 que Olímpia hoje carrega – e um sem número de quinquilharias se entulhavam no interior do bunker que ficava incrustado há alguns metros dentro da terra.

E foi nas mãos do senhor Meireles que, durante 15 infinitos anos, a amazona de cabelos negros conheceu o inferno. Ele sempre a manteve agrilhoada pelo tornozelo e sentia prazer em humilhá-la não só fisicamente, mas também psicologicamente. Ele não precisava de motivos para abusar de seu corpo, castigá-la com chutes, tapas e murros e estava sempre à procura de novas formas de lhe infligir dor. Apesar de tudo isto, ele parecia ter uma preocupação especial de que todo o seu sadismo não promovesse danos visíveis irreparáveis. O carrasco, apesar de cruel, não gostava de ver sinais de cicatrizes no corpo da amazona que cresceu sob o seu jugo. Ao contrário disto, tinha um outro fetiche que, ao mesmo tempo que machucava Olímpia, transformava-a em sua obra de arte particular: a tatuagem. Foi ele quem tatuou o escorpião próximo a virilha, uma faixa com motivos tribais no braço e um imenso dragão subindo nas costas de Olímpia. Ela ainda se lembra da voz rouca e fina do monstro sussurrando em seu ouvido enquanto aguentava mais uma sessão de tatuagem:

– Não chore, meu amor! O dragão é um símbolo de força e de proteção! É dele o poder de dar e o de tirar vidas!

Um barulho que não lhe era estranho tirou Olímpia de seus devaneios e a trouxe de volta para a realidade. Percebeu que havia se afastado bastante do acampamento das amazonas e o som que escutava era a de dois homens conversando despreocupadamente em volta de uma rede com alguns peixes ainda saltitantes presos nela. Eles tinham acabado de sair das águas do rio e conversavam e riam sem perceber ainda a presença da amazona que, após um segundo de hesitação para analisar a situação, continuou caminhando em direção aos dois homens até o ponto em que eles pudessem percebê-la chegando.

Os homens – um barbudo e outro careca, ambos na casa dos 30 anos – assustaram-se com a presença da mulher pois achavam que estavam sozinhos. Olímpia já havia percebido que as únicas armas que traziam eram pequenas facas desgastadas pelo uso e pelo tempo que, até hoje, muito provavelmente, só penetraram na carne de peixes moribundos.

-Oh, é só uma mulher! – Disse o barbudo após recuperar-se do susto inicial.

– Não precisa ficar com medo, querida! – Disse o careca ao perceber a compleição desconfiada de Olímpia. – Somos apenas pescadores! Não lhe desejamos mal algum!

– Vocês estão sozinhos? – Perguntou Olímpia.

– Sim! – Respondeu o careca. – Fizemos da barriga de uma criatura de aço a nossa morada e temos vivido isolados aqui na floresta desde então. Achamos mais seguro do que próximo das cidades abandonadas.

A criatura de aço ao qual o careca se referia, na realidade tratava-se de um avião caído na floresta que tinha mantido intacta uma boa parte de sua fuselagem.

– Venha! – Disse o barbudo. – Sente-se conosco! Iremos fazer uma fogueira e hoje teremos peixe assado!

– Vocês dois não me enganam! – Disse Olímpia num tom agressivo.

– Como assim? – Perguntou o careca. – Não estou entendendo…

– Vocês querem que eu baixe minhas defesas e quando estiver totalmente desprevenida, vocês irão me subjugar! Mas isto não irá acontecer seus desgraçados!

E, ao dizer isto, Olímpia saca suas duas pistolas e aponta para os homens à beira do rio.

Eles se desesperam e, enquanto um tenta acalmar Olímpia, o outro começa a correr em direção contrária à da amazona. Olímpia, de forma fria e calculada atira primeiro no que está fugindo. Dois tiros varam-lhe as costas derrubando o homem nas margens do rio deixando-o com metade do corpo dentro do rio e o restante em terra. O outro cai de joelhos, chorando, soluçando e implorando por sua vida.

– P-por favor…p-piedade…não fazemos mal a ninguém…só queríamos viver em paz…

– Vocês são homens! – Respondeu Olímpia. – A paz não é da natureza de vocês…

E, dizendo isto, acertou uma bala na cabeça do careca que tombou surdamente sobre o cardume de peixes. Todos mortos. Tudo em silêncio. Somente a corrente do rio sussurrando um ritmado sonido.

Olímpia encontrou com suas companheiras no meio do caminho entre o massacre aos homens e o acampamento das amazonas. Todas, sem exceção, vieram de armas em punho em seu encalço depois que ouviram os tiros.

– Olímpia! – Gritou Helena num misto de preocupação e alívio ao ver a pistoleira caminhando tranquilamente na sua direção. – Ainda bem! Estávamos preocupadas!

– Sim! – Disse Jasmim – Ouvimos tiros!

– O que houve? – Perguntou Zoe ainda preocupada com a irmã de armas.

– Não houve nada demais! – Respondeu Olímpia impassivelmente. – Fui atacada por dois homens!

– Você está bem? – Perguntou-lhe a mais jovem amazona, Athena.

– Mas é claro que estou! – Respondeu-lhe Olímpia.

– E o que aconteceu? – Perguntou Helena, agora mais calma ao saber que o perigo não pairava mais sobre as amazonas.

– Eu aconteci! – Respondeu-lhe Olímpia.

Olímpia gostaria de acreditar no amor, na esperança, na paz. Mas o que sofreu na vida até aquele momento ergueram uma barreira intransponível para todos estes sentimentos.

FIM

Para ler as hqs das Novas Amazonas, clique nos títulos: “Homem bom é homem morto”,  “Antigas Histórias” e “Mais intenso que a vida, maior que a própria morte”.

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