Capítulo 4 – Lolita

Para Lolita, escapar da morte não era questão de sobrevivência: era o que tornava divertido e menos tediosos os seus dias.

A mais jovem das novas amazonas estava dentro de um imenso prédio que sofrera bastante com a ação da natureza: primeiro um tsunami varreu seu interior de cima a baixo, depois, terremotos desestabilizaram seus alicerces. Com a estrutura em frangalhos, a vegetação rasteira arraigou-se nas entranhas do edifício criando uma espécie de criatura simbionte – metade concreto, metade planta –  que vem garantindo uma frágil estabilidade à antiga construção.

Lolita corria como se fosse uma rajada de vento, carregando, além de suas lâminas e punhais, um sorriso nervoso nos lábios, desviando-se das antigas escrivaninhas estragadas pelo tempo e pelas intempéries e saltando entulhos do velho prédio.

Atrás dela, tentando com dificuldade acompanhar seus passos ligeiros, quatro homens de aspecto selvagem, vestindo roupas de couro e carregando armas das mais variadas possíveis: um de revólver, um de facão, outro de porrete e, até mesmo, um com uma lança. Todos pareciam estar furiosos com Lolita e não estavam com cara de que queriam apenas conversar com ela. Nada disso: se aqueles homens conseguissem colocar as mãos nela, seu fim seria lento e doloroso.

Mas, ao invés de preocupá-la, isto a divertia ainda mais. O frenesi pelo perigo, a excitação da caçada, a adrenalina do combate: Tudo isto servia como alimento para a fome por emoção de Lolita.

Ela identificou a ausência de piso há alguns metros a sua frente, criando um fosso com cerca de 3 metros de largura e 15 de comprimento – ou todos os 5 andares até o térreo do prédio. Mas, ao invés de diminuir o passo, ela o intensificou imprimindo em suas bem torneadas pernas morenas que saiam de seu curto short de couro preto uma rigidez própria dos músculos retesados ao máximo e só parou de correr pelos breves segundos nos quais seu corpo se lançava no ar para transpor o abismo mortal. O tempo pareceu congelar por um instante enquanto a bela jovem pairava no ar como um beija-flor.

O estrondo feito pelo revólver de um dos homens – que parecia ser o líder dos demais – desfez aquele lacônico momento mágico. E pior: a bala que foi cuspida pela arma de fogo, após várias tentativas anteriores infrutíferas, finalmente conseguiu atingir Lolita, em pleno ar, fazendo-a cair do outro lado do fosso sem mais nenhuma beleza ou encantamento. Parecia mais um saco de batatas sendo despejado para fora de uma carroça. O corpo da garota primeiro girou e depois deslizou pelo assoalho deformado e revestido por gramíneas rasteiras até parar completamente.

As Novas Amazonas [Lolita] Por Carlos Eduardo

As Novas Amazonas [Lolita] Por Carlos Eduardo

Aquele era para ter sido um trabalho fácil: Esconder-se e observar. Helena, a líder das novas amazonas achou que seria o trabalho perfeito para Lolita demonstrar responsabilidade e maturidade. Além disso, era um trabalho que não ofereceria o menor perigo para a mais jovem das novas amazonas. Mas Helena deveria ter escutado à insistente voz em sua cabeça que lhe dizia que deixar Lolita sozinha não era uma boa ideia.

O “trabalho” consistia em subir ao alto de uma das velhas torres de concreto que os antigos moradores desta cidade chamavam de arranha-céus e guardar os mantimentos e outros itens de certo peso enquanto as demais amazonas se dividiam em dois grupos: um para coletar plantas comestíveis, água e outros alimentos enquanto o outro grupo tratava de fazer um reconhecimento do terreno no qual elas deveriam seguir e mapear os perigos existentes. Para isto, os dois grupos precisavam estar o mais leve possíveis para poder lutar ou fugir de acordo com a situação que se apresentasse.

– E porque Athena não fica em meu lugar? – Perguntou Lolita irritadíssima com a escolha de Helena de deixa-la para trás guardando, segundo a própria Lolita, “aquele monte de tralha”. – Afinal de contas, ela acaba de entrar no grupo!

– É justamente por isto, Lolita! – Respondeu-lhe respirando fundo Helena. – Ela precisa começar a identificar as plantas comestíveis das venenosas e aprender outras coisas que nós já ensinamos a você.

– Não há nada de justo nisto! – Insistiu Lolita. – Ficar aqui é um saco! Eu prefiro está lá fora! Na selva! A procura de ação! De emoção!

– Você ainda não consegue entender, não é mesmo, Lolita? – Era Zoe quem se dirigia à jovem e impetuosa amazona, com sua calma e gentilezas habituais. – É exatamente isto que estamos tentando evitar: o confronto! Nossa missão agora é a de coletar mais mantimentos e identificar melhor o caminho que pretendemos seguir. Em qualquer um dos casos, se houver perigo, nossas ordens são para evitar o combate a qualquer custo.

A discussão ainda durou cerca de meia hora até que as amazonas partiram deixando uma inconformada Lolita para trás. Ela ficou resmungando, falando consigo mesma sobre como suas companheiras eram falsas, traidoras, covardes e idiotas. Xingou cada uma delas com todos os palavrões que conhecia – e mais alguns que conseguiu inventar do alto de sua fúria despropositada. E assim ela matou o tempo durante as duas horas e trina minutos seguintes,

Até que algo lhe chamou a atenção…

Do alto do seu esconderijo, Lolita viu um jovem rapaz correndo desesperado. Ele não devia ter mais do que 16 anos. Tinha os cabelos longos, loiros e encaracolados. Vestia-se com calças de couro, pés descalços e uma camiseta velha, cheia de buracos, de uma antiga banda de rock chamada Ramones. Apesar de sujo, o garoto era muito bonito. Uma beleza que remetia Lolita à lembrança da imagem de uma estátua que vira num dos “quadrados” de Zoe chamado “Apolo do Belvedere”.

Ela viu o garoto olhar para trás, cair e colocar-se de novo para correr como se sua vida dependesse disto. E de fato, dependia. Atrás dele vinham os tais homens de aspecto selvagem que, logo logo, estariam no encalço também de Lolita. Antes dela sequer conseguir formular uma hipótese plausível para a razão daqueles homens estarem perseguindo aquele rapaz, a pequena guerreira já estava descendo os lances de escada do seu esconderijo em direção ao perigo.

– Você nos deu uma canseira, danada, garoto! – Falou Basílio, um gordo com longos cabelos e bigodes negros mas sem barba que carregava um facão. – Roubou nossa carne e agora vai ter que nos pagar!

– E-eu … eu tinha f-fome! – Gaguejou o garoto aterrorizado vendo os homens cercá-lo. – É muito… difícil…viver sozinho n-neste… neste mundo!

– Nós sabemos disso, garoto! – Respondeu Dimas, bem mais atlético com o anterior do facão. Ele tinha o cabelo todo raspado e carregava um porrete com pregos na ponta. – Mas não podemos deixar passar em branco o que você fez!

– P-por f-f-avor… p-perdoem-me! – Choramingava o garoto, já esperando pelo pior. – E-eu não tenho….nada de valor!

– Não chore, garoto! – Falou Vespasiano, o líder do grupo. Um homem magro, porte atlético, forte que tinha uma barba e um bigode todo desgrenhado, seus cabelos eram compridos da nuca para baixo, mas ele era calvo na parte superior da cabeça que cobria com um chapéu de vaqueiro. – Você é fraco e os fracos não tem vez neste mundo! Você nos roubou comida e merece algum crédito por isto! Mas um rato que rouba um leão, ainda é um rato! E deve pagar como um!

-N-n-não…p-por f-favor…

O fim parecia ter chegado para o azarado garoto quando Vespasiano fez um sinal para André, um negro magro que também carregava um facão. Ele levantou a arma pronto para cumprir a ordem silenciosa do líder do bando mas, antes que pudesse obedecer, as afiadas lâminas prateadas de Lolita singraram pelos ares e atingira a carótida do negro fazendo jorrar uma incrível quantidade de sangue de seu pescoço.

Todos os homens, inclusive o garoto, olharam com surpresa para a entrada do edifício de onde se encontrava a pequena amazona que ousara desafiá-los. A primeira reação, após a surpresa, foi a de uma rápida análise do que realmente estava acontecendo ali. E, depois de certificarem que se tratava de uma única mulher, jovem, carregando nada mais do que lâminas e punhais e, aparentemente, sem um pingo de juízo na cabeça, Vespasiano gritou com toda a fúria para os seus companheiros:

– Peguem … a maldita … piranhaaaaaaaa!

-oh-oh! – Foi a única coisa que Lolita conseguiu expressar ao perceber o tamanho do problema em que acabara de se meter.

E foi assim que, ao perseguí-la prédio adentro, subindo os andares, atravessando salas abandonadas e desviando-se dos obstáculos entulhados pelo caminho, Lolita foi atingida e acabou no chão, com apenas um fosso separando-a de seus caçadores.

Vespasiano e seu grupo chegou às bordas do fosso que os separava de Lolita esbaforidos pela corrida. Pararam por uns segundos para recuperar o ar antes de começar a pensar os próximos passos.

– Pelo visto não há outro caminho até lá. – Respondeu Robson, o último membro do grupo. Um ruivo de cabelos espetados, barba e bigodes grossos, mas de compleição esquálida, quase cadavérica. Ele carregava uma lança.

– O que vamos fazer? – Perguntou Dimas, o do porrete.

– Temos que pular se quisermos brincar um pouco com a vadia. – Respondeu Vespasiano.

– Ela deve estar morta. – Ponderou Basílio.

– Morta ou não, eu ainda vou foder com ela! – Respondeu rispidamente Vespasiano. – Deus sabe quanto tempo eu não tenho uma mulher!

E, dizendo isto, deu meia volta, tomou uma certa distância que julgava necessária e emprestou às suas pernas todo o vigor para ultrapassar aquele obstáculo. Vespasiano iniciava sua corrida quando Dimas e Robson também começaram a tomar distância para acompanhar seu líder na travessia do fosso. O único que preferiu não arriscar foi Basílio. Não precisava ser um gênio da física para perceber que seu peso e a distância do fosso não fechavam a conta necessária para ele atravessá-lo.

Vespasiano pousou sem dificuldades do outro lado do fosso, onde o corpo de Lolita jazia imóvel. Havia marcas de sangue pelo chão.

– Talvez Basílio esteja certo. – Pensou o líder do bando, enquanto se aproximava da amazona. – Eu matei a vagabunda! Merda! Viva, nós poderíamos nos aproveitar dela por semanas! Quem sabe meses!

– Eu acho que não! – Respondeu Lolita virando-se velozmente e pegando Vespasiano totalmente desprevenido.

Dimas e Robson estavam acabando de pousar do lado do fosso onde estava Lolita quando ela começou a perfurar Vespasiano com duas facas com cabo T.

A faca com cabo T é uma lâmina curta, com cerca de 8 cm de aço inox e o cabo formando um “T” com a lâmina. O atacante, em posse dessa arma, parece que tem uma lâmina saindo do meio de seu punho fechado. E Lolita empunhava uma em cada uma de suas mãos atingindo Vespasiano como se lhe aplicasse murros.

Quando Robson e Dimas entenderam de fato o que estava acontecendo, Lolita já havia atingido Vespasiano no olho esquerdo, no queixo, no pomo-de-adão, no ombro direito, no peito e diversas vezes na barriga. Tudo isto, num piscar de olhos. E antes que os dois homens pudessem preparar devidamente suas armas para o combate, ela já estava partindo para cima deles atirando algumas lâminas de arremesso.

Dimas conseguiu se esquivar das lâminas, mas Robson, o ruivo com a lança, não teve a mesma sorte e foi atingido em cheio na testa tombando para trás, no abismo do fosso.

Dimas esboçou uma reação girando seu porrete tentando atingir Lolita mas a ágil amazona não só desviou-se da clava mortal como cravou uma adaga de baixo para cima no bíceps de seu agressor.

Dimas largou sua arma urrando de dor mas foi imediatamente silenciado quando Lolita, sem retirar a primeira adaga do braço de seu inimigo, atingiu-lhe a garganta com uma segunda adaga.

Os olhos de Dimas pareciam não acreditar em tudo o que acontecera naquele palco sangrento. Como pode uma garotinha carregando nada mais do que facas acabar com 3 homens fortes como eles? Dimas, porém, não iria obter resposta que esperava, pois a morte já havia chegado para carrega-lo em seus braços.

Lolita observou o ferimento da bala que pegou de raspão na sua cintura. Apesar de não ter causado muito estrago ainda ardia como o diabo. Contudo, um outro barulho chamou-lhe a atenção: Era o gordo Basílio que, apavorado com o que acabara de ver, começava a fugir de forma aparvalhada, tropeçando nas próprias pernas.

– Seria pedir demais que todos os meus dias fossem divertidos assim? – Sussurrou Lolita entre um sorriso ligeiramente maligno de excitação pela brincadeira de cão e gato que estava prestes a recomeçar.

FIM

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