Capítulo 5 – Isolda

Os dias eram quase sempre corridos e a luta pela sobrevivência, uma constante frenética. Por isto, os momentos de paixão eram raros, mas sempre saboreados com tamanha lentidão como se pudessem ser os últimos. Isolda sentia o contraste da pele macia e sedosa de Zoe com a sua, dura e áspera, e tentava lembrar se alguma vez na vida já tocara em algo tão sublime quanto o corpo de sua companheira.

Era noite e as duas guerreiras estavam afastadas o suficiente das demais amazonas para que pudessem preservar sua intimidade enquanto trocavam carícias apaixonadas. Isolda beijava os lábios adocicados de Zoe como se eles fossem uma frágil pétala de flor enquanto suas mãos brincavam com a delicada cintura de sua amada. Ora subindo por suas costas, ora descendo até suas nádegas.

O contraste dos corpos das duas mulheres era gritante: Enquanto Zoe era magra, esguia, suave e pequena, Isolda era musculosa, trincada, bruta e grande. A macieza da pele nua de Zoe fazia o corpo de Isolda vibrar de alegria: uma alegria que não vinha do instinto erótico animal mas da admiração divina pelo belo. Isolda amava tudo em Zoe, mas amava ainda mais esta frágil pureza autêntica que a arqueira de longos cabelos loiros e olhos azuis como um topázio transbordava por todos os seus poros.

E, enquanto sentia os beijos de sua amante deslizar de seu pescoço para seus seios, Isolda mergulhava num transe de prazer pensando no quanto ela era abençoada por ter encontrado alguém como Zoe e por elas guardarem entre si um sentimento tão genuíno e puro. Era como se suas vidas estivessem predestinadas a se cruzar e, a partir de então, caminharem juntas.

As Novas Amazonas [Isolda e Zoe] porMauro Barbieri

As Novas Amazonas [Isolda e Zoe] porMauro Barbieri

A vida de Isolda, como a da maioria das pessoas depois que o mundo foi devastado por catástrofes climáticas a cerca de 75 anos atrás, não foi fácil. Filha de um estupro – algo selvagemente comum naqueles dias -, tão logo teve idade para entender as coisas, foi colocada para trabalhar como escrava em uma pequena aldeia controlada por lutadores que viviam nos vales dos cânions de em uma região que já fora conhecida como Cambará do Sul, no sul do antigo país chamado Brasil.

Grande demais para sua idade, feroz demais para sua própria sorte e inflexível demais para alguém nas suas condições, não demorou muito para ela ser jogada no “fosso”. O fosso era a prisão da aldeia na qual Isolda cresceu: um buraco de mais ou menos 8 metros de diâmetro por 5 metros de altura onde eram jogados os inimigos capturados ou os casos mais problemáticos dentro da aldeia. Isolda se encaixava na segunda categoria. E foi no fosso que ela passou a maior parte de sua vida.

A primeira vez que foi jogada lá, tinha apenas 10 anos (Mas já parecia que tinha uns 16 devido a seu tamanho abrutalhado). Após ser bolinada por um dos homens da aldeia, que estava embriagado, esmagou-lhe os testículos com uma barra de ferro e só não lhe abriu a cabeça em dois pedaços por que foi contida por Arnon, o chefe daqueles selvagens.

Ela não sabia por quê, mas Arnon, um gigante de 2,20 metros, musculoso como um titã e o mais irascível homem daquela comunidade, viu algo de especial naquela simples menina que não conhecia o seu lugar nesta nova sociedade. E o fosso foi a forma como ele evitou que Isolda morresse sem ter a chance de desenvolver este potencial.

Aquela menina rebelde e agressiva divertia os homens com sua ferocidade. Tanto que eles começaram a treiná-la para o combate. Espadas, lanças, adagas, massas e machados: o uso de todas estas armas foi parte da educação que Isolda ganhou enquanto vivia no fosso. E seu corpo, que já era grande, foi ganhando contornos de músculos firmes e bem delineados.

Mas a fúria e o ódio daquela garota eram tantos que mais de um de seus “professores” entraram no fosso para lhe dar uma lição e saíram de lá aleijados ou, até mesmo mortos. Mas estes excessos praticados pela jovem Isolda não passavam impunes. Toda vez que eles aconteciam, vários homens se reuniam para contê-la e então aplicar-lhe a pena que eles julgavam necessária. Estas penas variavam de espancamentos, chicotadas e, não raramente, de sessões de estupro. Mas era só algum dos homens se distrair para Isolda quebrar algum osso ou arrancar algum pedaço deles com seus dentes: Isolda era uma fera que não podia ser domesticada.

E, devido a esta terrível característica, ela se tornou uma espécie de bárbara distração para os violentos homens daquela vila. Isolda teve seu crescimento marcado pela luta constante pela sobrevivência. Enfrentou desde animais selvagens capturados – como javalis, cobras e, em certa ocasião, uma onça pintada – até prisioneiros que eram jogados no fosso para disputar sua liberdade com a guerreira.

– Mate a garota e você está livre! – Dizia Arnon para os homens que eram jogados no fosso.

Isolda não tinha mais que 16 anos nessa época.

Tudo isto serviu para que Isolda se fechasse totalmente em suas dores, amarguras e sofrimentos. Sempre sozinha, no isolamento perpétuo do fosso, ela olhava para as estrelas e se perguntava se aquilo era tudo o que o mundo tinha para lhe oferecer? Se, talvez, não fosse melhor desistir de tudo e se permitir o descanso da morte? Ela observava os corpos sem vida de seus forçados adversários e parecia apreciar a paz que emanava de seus cadáveres. Ela nunca havia ouvido falar de Deuses e de seus paraísos prometidos, mas questionava se havia um outro mundo onde não fosse necessário utilizar a violência e a dor para viver.

Foi quando jogaram no fosso uma outra mulher.

Isolda ficou surpresa e assustada. Nunca uma igual fora arremessada no fosso em todos aqueles anos em que ela esteve presa ali. Apenas homens e feras foram as companhias ocasionais da musculosa guerreira até então.

A princípio, ela ficou confusa. Quem era aquela outra mulher? O que fizera para merecer um castigo tão cruel como este? Deveria atacá-la? Era necessário matá-la? Era isto que os homens esperavam? A morte era uma desagradável conhecida de Isolda, mas nunca enfrentara alguém tão aparentemente frágil como aquela mulher que, agora, compartilhava de sua sina.

A mulher tinha cabelos mais curtos que o seu. Isto indicava que, até bem pouco tempo atrás, ela era totalmente careca. Agora ele crescia ralo e dourado como o sol. A recém-chegada possuía um rosto de uma rara beleza que carregava em si não só uma pureza verdadeira, mas que emanava uma bondade e uma compaixão que Isolda jamais vira ou sentira em ninguém até aquele dia. Todos esses sentimentos eram novos para a guerreira e isto a deixou confusa e paralisada. Pela primeira vez em todos estes anos de reclusão, esta fora a primeira vez que Isolda se sentiu totalmente desarmada e vulnerável.

– O que você está esperando? – Gritou Arnon do alto do fosso. – Mate ela!

Isolda saiu de seu torpor e avançou em direção à sua companheira de confinamento, mas alguma coisa dentro daquela máquina de matar já não estava mais funcionando como antes. Seus passos pareciam incertos, cambaleantes. Parecia que correntes invisíveis restringiam seus movimentos.

– Você não precisa fazer isto! – Disse a pequena prisioneira.

– Eu não sei fazer outra coisa. – Respondeu Isolda com uma certa insegurança.

– Eu posso lhe ensinar…

Isolda se conteve, observou os profundos olhos azuis daquela garota e sentiu como se pudesse mergulhar naquela pacífica imensidão que era seu olhar. A invicta lutadora desabou de joelhos diante de sua “adversária” e, pela primeira vez em toda a sua vida, Isolda sentiu as lágrimas rolarem pela sua face. Eram lágrimas de epifania, de libertação. Não de seu corpo, que ainda permanecia preso ao fosso, mas de sua alma. Sentia-se uma nova mulher e o toque da mão daquela outra mulher em seu rosto, procurando gentilmente aparar suas lágrimas, arrebataram de vez seu coração, até então, embrutecido.

Aquele momento mágico foi interrompido pelas pedras arremessadas pelos homens de Arnon que, frustrados, esperavam um resultado diferente para aquele encontro. A frustração, porém, logo deu lugar ao tédio e eles se contentaram em deixar as duas prisioneiras em paz. Quem sabe amanhã não encontrariam um adversário a altura que proporcionasse a todos uma melhor diversão.

As duas mulheres, então, entreolharam-se ainda com dúvidas de como deveriam proceder uma com a outra. A recém-chegada por pura insegurança e Isolda por total falta de experiência. Após alguns longos minutos de indecisão, a aparentemente frágil garota de olhos azuis ensaiou uma aproximação.

– Meu nome é Zoe. Qual é o seu?

– Eles me chamam de garota! – Respondeu Isolda após alguns segundos pensando no que responder. – Mas também já me chamaram de bicho… de fera… de besta…

– Garota não é exatamente um nome. – Retrucou Zoe sempre com sua gentileza e simpatias latentes – Veja só: eu também sou uma garota.  Depois vamos ter que pensar num nome para você. Há quanto tempo você está aqui?

– Desde aqui. – Isolda respondeu indicando com a mão, a partir do chão, qual a altura que tinha quando foi jogada no fosso.

A esta resposta, outras rodadas de respostas foram se complementando às novas perguntas que eram feitas por Zoe. E esta conversa seguiu com a mais nova prisioneira também se oferecendo para responder questionamentos que, por ventura, Isolda tivesse. E a cada momento, um sentimento – ainda estranho e inexplicável – crescia dentro de Isolda. Um sentimento de que já conhecia aquela mulher há muito tempo, mesmo sem nunca a ter visto anteriormente. Um sentimento de confiança plena que não reconhecia justificativa racional. E, talvez o mais surpreendente para ela própria, um sentimento de querer bem por aquela mulher que lhe chegava a roubar sua respiração por alguns momentos.

O cansaço e o estresse do dia transformaram-se num sono pesado quando a noite finalmente se debruçou sobre aquelas paragens. O frio daquela região já não incomodava Isolda, mas a falta de costume de Zoe a fez aconchegar-se junto da giganta num contato epitelial que, a princípio, incomodaram Isolda mas que, logo logo, se transformou num momento de radiante alegria.

Algumas horas haviam se passado e há muito que já não se ouviam os barulhos nos arredores acima do fosso quando uma corda foi arremessada para dentro da prisão-arena. Aquilo foi tão inesperado para Isolda que lhe causou uma reação de como se seu coração fosse explodir. Zoe, no entanto, não parecia surpresa, enquanto se espreguiçava como uma gata manhosa.

As duas olharam para cima, mas apenas Zoe reconheceu a mulher – também de cabeleira raspada ainda em crescimento – que lhe jogara a corda.

– Não se preocupe! – Zoe tentou acalmar Isolda. – Esta é Helena! Ela é nossa amiga e veio nos ajudar! E, se você quiser, você pode vir conosco!

Isolda sentiu um inexplicável arrebatamento com as palavras de Zoe e seguiu aquele pequenino anjo de olhos celestiais cordas acima.

A fuga das 3 mulheres daquela aldeia de selvagens nos vales dos cânions da outrora região chamada de Cambará do Sul foi alucinante e sanguinolenta, mas Isolda pouco se lembra disto. Desta louca escapada, a musculosa amazona guarda apenas o sentimento de precisar desesperadamente estar junto daquela outra mulher que, jogada no fosso para morrer pelas suas mãos, foi responsável pelo resgate do seu corpo, da sua mente e da sua alma.

As reminiscências de acabaram quando os corpos de Isolda e de Zoe vibraram de prazer quase ao mesmo tempo enquanto uma estava com a cabeça enfiada entre as pernas da outra. Zoe endireitou-se e galgou suavemente o corpo de Isolda aninhando-se em seus seios e beijando molhada e suavemente a boca da amante.

Após um breve relaxamento, Isolda pergunta para Zoe:

– Leia para mim uma vez mais, Zoe!

– Eu já lhe ensinei a ler, Isolda. – Respondeu Zoe com uma voz doce. – E, além do mais, você precisa praticar.

– Mas o som das palavras na minha boca fica duro, sem vida! Ficam “feias” de se ouvir! – Retrucou Isolda. – Vamos lá, Zoe, leia para mim. Por favor…

A própria Isolda se surpreendeu com este seu acesso repentino e natural de manhosidade. Um comportamento ainda incomum para a mulher que durante boa parte de sua vida só conheceu a dor e violência. Zoe também percebeu isto e não teve mais como negar o pedido da amada.

Zoe levantou-se e caminhou, ainda nua, sob o olhar apaixonado de Isolda até uma mochila de couro onde trazia alguns livros recuperados em suas andanças. Após abrir a mochila ela virou-se para a companheira e perguntou:

– E então? O que você quer que eu leia par você?

Isolda devolveu-lhe um olhar de amor sublimado e com um sorriso que encerrava em si toda a alegria plena que só alguém apaixonado pode sentir, respondeu:

– Você sabe o quê. O primeiro livro que você leu para mim depois que nos conhecemos: Tristão e Isolda.

Zoe quis esboçar uma reclamação a respeito da escolha de Isolda mas, logo em seguida desistiu pois percebeu que, muito mais do que a história que o seu amor já conhecia decorada, ela queria reviver uma memória sentimental que apenas as duas compartilhavam.

E, enquanto Zoe, de posso posse do alfarrábio requisitado, caminhava em direção de sua amada, Isolda perguntava a si mesma se no mundo de outrora alguma vez existiu – como nas páginas daqueles livros – um amor mais puro e sincero do que o delas. Ela sorriu e concluiu:

– Isto não importa. O que importa é o aqui e o agora…