Capítulo 6 – Jasmim

O som do trovão já não a assusta, mas as lembranças que ele suscita deixam um gosto de amargor na boca de Jasmim.

A chuva torrencial acompanha as novas amazonas com uma monótona insistência e o descampado no qual elas se encontram não lhes deixa outra alternativa a não ser percorrê-la debaixo das fortes pancadas de água. Não adianta correr com os cavalos pois o terreno, apesar de plano, é cheio de irregularidades proporcionadas por destroços e buracos, e isto poderia causar machucados desnecessários aos animais. Dessa forma, meio resignadas, meio aborrecidas, elas se mantêm em seu curso enquanto não é possível vislumbrar uma melhor opção de abrigo para se proteger da força da natureza.

No entanto, para Jasmim, a Amazona ruiva, a tempestade passa quase desapercebida. Todos os seus sentidos parecem estar atentos apenas no próximo rugido do trovão que surgirá logo após o próximo relâmpago iluminar o céu. Aquele barulho ensurdecer a leva para uma outra época e um outro lugar onde um barulho semelhante sempre esteve presente em sua vida: O som da explosão de uma espingarda BOITO Modelo BSA 5T 84 PUMP.

-O coice é pior do que o de uma mula braba!

Jasmim esboça um sorriso ao se lembrar das palavras de seu pai e, no instante seguinte, a chuva desaparece, o sol brilha imponente no firmamento e ela está correndo pelo chão batido da aldeia onde passou boa parte do final de sua infância e adolescência. E uma sensação indescritível de alegria percorre todo o seu corpo novamente.

A corrida dela termina num abraço tão forte e tão cheio de amor genuíno por aquele homem de aparência rústica e, ainda assim, com olhos tão suaves que poderiam encantar a qualquer um. Seu nome era Artur e ele era grande, forte e cabeludo como um viking. As grandes madeixas e barba ruivos acentuavam ainda mais esta associação. A diferença é que, ao invés de carregar um machado de guerra, sua arma em toda e qualquer situação era a espingarda calibre 12 que não largava nem quando dormia. A única exceção era quando deixava a sua filha, a então adolescente Jasmim, treinar com o equipamento.

As Novas Amazonas [Jasmim] por Vubidugil Henrique

As Novas Amazonas [Jasmim] por Vubidugil Henrique

Da mãe, Jasmim pouco se lembrava. Ela havia sido assassinada durante um enfrentamento com uma tribo nômade quando ela ainda era muito criança para compreender qualquer coisa. Tudo o que ela sabia é que seu nome era Maria, e, quando muito se esforçava, a amazona conseguia entrever uma imagem distorcida de uma mulher dócil e amável. E era só.

Mas, para Artur, aquela tinha sido uma experiência tão traumática que ele jamais pode esquecer. Ele atribuía à si a culpa pela morte de Maria e, desde então, tinha se tornado o homem mais feroz e incansável que já havia pisado naquelas terras. Ele vivia para treinar, melhorar suas habilidades, força e técnicas de combate e empurrava isto com toda convicção para a sua filha, Jasmim. A brutalidade com que ele imprimia reprimendas na garota por ela não conseguir alcançar determinadas atividades durante seu treinamento contrastava com o amor e o carinho que ele depois lhe cobria.

A nova amazona tinha apenas 14 anos e um corpo ainda mirrado e caniço, muito próprio das adolescentes que não pareciam querer deixar a infância para trás, mas já recebia gritos histéricos por não conseguir aguentar o tranco da arma da família, a espingarda cano 12 do pai:

-Você quer morrer? Se não aguentar segurar sua arma, você vai sofrer uma morte miserável nas mãos de homens cruéis! É isso que você quer? É isso, sua pirralha mimada e molenga!

E ela engolia o choro pois sabia que se uma única lágrima sequer rolasse de sua face, as tiras de macambira que seguravam as calças de seu pai iriam arrancar sangue de suas costas.

-Se você for chorar por tudo de ruim o que acontece na sua vida, é melhor se matar agora mesmo e poupar meu tempo! – Ele dizia sem nenhum remorso aparente.

Mas, algumas vezes, quando ele bebia demais da aguardente produzida pelos seus vizinhos, ela podia perceber alguma coisa diferente acontecer com seus olhos. Ele a observava com uma hipnótica atenção, parecendo se permitir compreender, mesmo que por um instante apenas, o valor e a importância que a então magricela menina tinha para ele. Ele, então, aproximava-se muito lentamente, meio entorpecido, levantava a gigantesca mão crispada e tocava os cabelos dela com uma gentileza incomum para alguém daquele tamanho. E, dali, deslizava ainda mais suavemente pela bochecha dela, pousando em seu queixo como se o erguesse com delicadeza para contemplar toda a pureza, inocência e beleza daquele rosto que lembrava tanto o rosto da mulher que ele perdeu anos atrás e que nunca saiu de suas memórias.

E, nestes momentos, sempre tão únicos e singulares, ele se contorcia num choro descontrolado – mas silencioso –  que só conseguia encontrar abrigo no colo da pequena criatura que estava sendo preparada para enfrentar tudo de ruim que havia no mundo e que se via confusa quando estas demonstrações de humanidade explodiam diante de si.

Viver nessa estressante montanha russa emocional deixou sequelas em Jasmim. Tínhamos de um lado da moeda uma guerreira preparada para enfrentar um mundo cruel de cabeça erguida e arma em punho e, na outra face desta mesma moeda, uma garota insegura e frágil para a tomada de decisões difíceis. Ela sabia cumprir ordens como ninguém e tinha um coração imenso para cuidar daqueles que necessitavam. Mas, ao mesmo tempo, via-se impossibilitada de escolher entre duas direções opostas devido ao pavor de desapontar aqueles que dependiam dela.

Mas, até então, isto não era o maior de seus problemas pois seu pai, aquela fortaleza intransponível de força, ferocidade e determinação, estava ao seu lado para lhe apontar o melhor caminho e o mais seguro.

Até que, numa fatídica noite de junho…

A chuva torrencial já durava três dias inteiros sem dar trégua aos moradores daquela região. Quase toda a aldeia estava encharcada de lama. Os casebres, levantados com madeira e cordas, estavam sendo castigados e não havia muito o que fazer a não ser suportar como fosse possível. Não era possível enxergar mais do que alguns poucos metros adiante. E foi esse o fator determinante para que a, até então, tranquila aldeia de Jasmim fosse invadida por um grupo de saqueadores selvagens.

Os primeiros gritos vieram misturados com as pancadas de chuva, o que dificultou a percepção da aproximação do grupo. Mas, à medida em que eles avançavam, invadindo as casas, atacando as famílias e digladiando-se com alguns aldeões que tentavam se proteger, a balbúrdia cresceu até chamar a atenção de Artur. Ele observou da janela de sua cabana algumas pessoas correndo desesperadamente e logo percebeu os combates acontecendo há poucos metros de seu lar.

A adrenalina percorreu seu corpo como a descarga elétrica de um relâmpago e ele imediatamente se colocou em movimento de forma frenética.

– Jasmim, pegue a mochila de emergência e a espingarda! Nós precisamos sair daqui AGORAAAAAAA!

Antes mesmo de Artur terminar de gritar suas instruções, Jasmim já estava correndo de um lado para o outro da cabana catando as coisas. Eles já haviam treinado para uma situação como aquelas centenas de vezes. A diferença é que agora era para valer. A mochila de emergência era uma espécie de kit de sobrevivência pronto para uso. Dentro dele havia cerca de 30 cartuchos de munição para a espingarda devidamente lacrados, alguns mantimentos de consumo e um pouco de água potável.

No momento em que Artur pegou na mão de sua filha e se preparava para sair, a porta da cabana foi arrombada por um forte chute de um homem ainda maior que o “viking”. Os dois homens trocaram um olhar analítico de menos de um segundo onde ambos avaliaram suas chances. Jasmim estava com a espingarda guardada entre suas costas e a mochila de emergência deixando Artur desarmado. O selvagem que invadiu seus domínios trazia um facão.

Foi o barulho do trovão que tirou os dois homens de seus estados de indefinição.

O brutamontes invasor avançou de facão em punho em direção a Artur que, entre tentar pegar a espingarda das costas de Jasmim e empurrar sua filha na tentativa de protegê-la, preferiu a segunda opção. Artur conseguiu segurar o punho de seu inimigo impedindo assim, o golpe fatal em sua direção, mas, mesmo assim, isto não lhe trouxe muita vantagem pois deixou a ambos numa disputa mais ou menos equilibrada de forças.

– O que diabos você está esperando? Atire nele, droga! Atire nele agora!

Gritava Artur para Jasmim que, até então, assistia ao embate sentada no chão da cabana invadida.

Imediatamente, ela puxou a espingarda das costas e, da forma que lhe foi ensinado e que praticara diversas vezes, apoiou a espingarda na altura de seu abdômen (Que era onde o coice doía menos) e apontou para o homem que digladiava com seu pai. Ele estava ligeiramente de costas para Jasmim, mas, mesmo assim, ela não se sentia confiante para puxar o gatilho. Temia, de alguma forma, acertar seu pai. Enquanto isso ele lutava para manter o seu inimigo nesta posição. Mas, mesmo um homem forte como ele, tinha seus limites. E seu oponente já começava a perceber que ele não iria aguentar aquela peleja por muito tempo.

Enquanto isto, Jasmim vivia seu dilema pessoal: atirar no inimigo e acertar seu pai ou esperar uma oportunidade melhor? Quem sabe, pensava ela, seu pai conseguiria vencer o selvagem? Afinal de contas, além de muito forte e inteligente, o pai sabia de muitas coisas e lhe ensinara golpes e truques para enfrentar oponentes maiores do que si mesma. Não havia menor dúvida de que ele conseguiria se livrar daquele maldito. Depois disto, bastava ela passar a arma para que ele pudesse guiá-la para fora da aldeia e de todos os problemas que surgirem. Como ele sempre fez.

Suas esperanças, porém, começaram a ruir por terra no momento em que a expressão colérica de seu pai que gritava alucinadamente com ela se transformou numa silenciosa careta de incredulidade.

De alguma forma, o selvagem conseguiu desvencilhar uma de suas mãos do bloqueio de Artur, puxar uma faca e perfurar o peito do viking ruivo. Antes de perder completamente suas forças, Artur atinge com sua testa violentamente no nariz do invasor fazendo-o explodir num turbilhão de sangue.

Sem conseguir raciocinar direito ao ver seu pai tombando com a faca cravada no peito, Jasmim observa atentamente o rosto de Artur se contorcendo e, mesmo sem ouvir mais nenhum som de sua boca, ela consegue ver ele expressar a seguinte palavra: “atire”.

Neste momento, agora sem hesitação, com os olhos arregalados, com lágrimas rolando (mas o rosto impassível), com uma convicção que antes não conseguia encontrar, Jasmim apertou o gatilho da espingarda contra o peito do homem de nariz estraçalhado que já estava virado em sua direção. O homem voou alguns metros e estatelou-se, já sem vida, contra a parede da cabana.

Sem conseguir piscar – apesar das lágrimas que caiam abundantemente de seus olhos – Jasmim se aproximou de seu amado pai, de seu – até então – protetor e ajoelhou-se diante dele a espera das próximas instruções.

– D-Desculpe, minha flor! Meu amor, minha v-vida! A c-culpa é minha! Apenas minha! Mas, n-não se preocupe! Apenas… apenas escute-me: C-corra, Jasmim! F-Fuja!…ungh! Evite confronto mas…mas se não for possível…aaahhhh…mate-os! Mate todos sem hesitar!

Desta vez, Jasmim não retrucou, não discutiu, não titubeou. Colocou-se de pé e iniciou sua corrida desesperada pela vida. Na saída da porta de sua cabana, ainda debaixo de uma chuva torrencial, um outro selvagem se aproximava – desta vez menos forte, mas igualmente ameaçador – e Jasmim, sem interromper sua corrida, puxou uma segunda vez o gatilho de sua doze fazendo o inimigo tombar de joelhos jorrando sangue de onde antes havia uma cabeça masculina.

E, em meio à lama e à chuva, percorrendo as trilhas que margeavam a aldeia, sem se colocar propositadamente em perigo, Jasmim seguia seu passo firme e ligeiro afastando-se cada vez mais da carnificina que tomava conta de seu antigo lar. E, durante as várias horas que correu, apesar das lágrimas que continuavam a rolar mesmo depois que a chuva parou de cair, o semblante de Jasmim trazia uma estranha tranquilidade.

As coisas são mais simples quando se tem alguém para tomar as decisões por você. As ordens devem ser seguidas. Sem titubear. Sem contratempos. Sem oposições. Estava satisfeita consigo mesma pois seguiu as ordens de seu amado pai à risca. E, onde quer que ele esteja agora, estaria orgulhoso dela.

Era isso o que se passava pela sua confusa cabecinha enquanto percorria enormes distancias a pé.

E, durante muito tempo, viveu de forma semisselvagem evitando o contato com outros seres humanos. Mas sentia-se mal pois até mesmo as decisões mais banais torturavam-lhe o âmago de seu ser. E esta angústia perdurou até encontrar Helena e suas Novas Amazonas. Agora, não há dia em que não agradeça por ter encontrado alguém que pudesse cuidar dela e direcioná-la como fazia o seu pai.

Um novo estrondo do trovão a traz de volta ao presente e Jasmim percebe que, uma vez mais, como naquele dia em que fugiu de sua aldeia deixando para traz o grande homem de sua vida, suas lágrimas estão novamente misturando-se com as gotas da chuva torrencial.

A chuva, como sempre, tinha essa capacidade: A de lavar a sua tristeza.

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