Em 2008, aproveite as oportunidades

Artigo publicado no site Bigorna em 21/12/2007.

patinh

A piada é velha e não tem a menor graça, mas vamos a ela.

Todas as noites, antes de dormir, José ajoelhava-se diante da imagem de Jesus cristo crucificado que havia na parede de seu quarto e rezava fervorosamente:
– Senhor, eu te imploro, por tudo o que é mais sagrado no mundo, para livrar-me da minha vida miserável, fazei com que eu ganhe na loto! Só assim minha vida será melhor e só assim alcançarei meus objetivos! Nada mais te peço e nem te pedirei se apenas este meu único desejo o senhor cumprir!
E, noite após noite, essa ladainha se repetia com cada vez mais fervor sem, porém, o pedido de José jamais ser atendido. Até que um dia, já velho e cansado, José morreu. Ao ascender aos céus, a primeira coisa que fez foi solicitar um encontro com Jesus Cristo, o próprio filho de Deus! Após ser recebido com muito carinho e atenção por nosso senhor, José o confrontou:
– Senhor, durante toda a minha vida, rezei à vossa graça para que me concedesse o meu único desejo que era o de ganhar na loto e, mesmo empregando toda a minha fé, ainda assim, o senhor jamais atendeu ao meu pedido! Por que fizeste isto comigo, Jesus ?!?!
– Eu ouvi tuas preces, José! – retrucou Jesus – e até tente te ajudar, mas como eu poderia se tu nunca chegaste a jogar?

Como eu disse, piada velha e sem graça. Ainda mais sem graça pelo fato de que ela serve como infeliz metáfora para muitos de nossos artistas nacionais que estão sempre chorando a própria sorte sem jamais levar a cabo a tarefa básica que os impelirá rumo aos seus objetivos. Alguns confundem que apenas escrever um roteiro ou fazer ilustrações (ou pin-ups, como se costuma chamar) os levarão a algum lugar por si só. Na verdade, servirão apenas para contatos iniciais e parcerias. A verdadeira tarefa básica que cumpre a cada um de nós que se vê no mundo dos Quadrinhos (Seja ele nacional, americano, erótico ou, até mesmo, zineiro) é concluir, terminar, entregar pronta uma HQ. Uma História em QuadrinhoS com todos os seus elementos comuns e minimamente necessários para que ela possa, de fato ser chamada de HQ. É isso que vocês tem que ter em mente. É isso que é a nossa tarefa base.

Mas, diante da profusão de propostas e possibilidades que recebemos nesse meio (quase nunca remuneradas), às vezes fica difícil decidir qual delas seguir, qual delas aceitar, qual o foco que devemos manter e direcionar para atingirmos nossa premissa de cumprimento da tarefa básica ao qual nos impomos. Por isso, pare um momento, analise as propostas que lhe surgem, os parceiros, os objetivos e quais os alvos de publicação para esses trabalhos a serem produzidos. Alinhe-os com os seus objetivos e comece a produzir. Produzir com gosto, com vontade, com garra, com determinação. Os verdadeiros vencedores não são aqueles que conseguem produzir um único trabalho notável, mas aqueles que estão sempre produzindo bons trabalhos. Preste atenção nessas palavras: “sempre” e “bons”. Esqueça, pelo menos no primeiro momento, as palavras “único” e “notável”. Procure-as quando já tiver seu nome forte e sedimentado no nosso meio. Concentre-se no “sempre” e “bons”.

Muitos reclamam que não há oportunidades reais. Outros tantos não acreditam, não botam fé, nas oportunidades que lhe surgem. “Publicar em fanzine é um desperdício de meu talento”, podem pensar, ainda que silenciosamente, alguns. “Escrever (ou desenhar) um personagem de outra pessoa não vai me render nenhum benefício”, é outro pensamento estúpido que surge de vez em quando em outros tantos. Isso é uma grande bobagem. Meu primeiro prêmio como roteirista eu conquistei escrevendo um personagem que não era meu. Portanto, a verdade é uma só: TODO trabalho terminado é importante. Toda HQ concluída e publicada é mais um tijolinho que você coloca na casa que é o seu nome em nosso meio.

Este ano foi excelente para os Quadrinhos nacionais. Talvez ainda não o tenha sido financeiramente (ao menos não para os autores), mas cada trabalho publicado, cada nova nota na mídia, cada nova publicação que sai, cada nova festa de lançamento é um novo motivo de comemoração e é uma injeção de força no nosso mercado para os artistas nacionais. Por isso tudo planeje-se, organize-se, mantenha o foco, produza, termine seus trabalhos. Aproveite as oportunidades que surgirem e não fique no meio do caminho como muitos que só sabem reclamar das chances que lhe surgiram e eles não souberam aproveitar. Ou seja, reze… mas não se esqueça de jogar…

Um Feliz Natal e um 2008 maravilhoso para todos vocês que acompanham a nossa coluna e aos leitores do Bigorna.net.

(ilustração: Gerson Witte)

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