Leitor x Autor: o que realmente importa?

Artigo publicado no site Bigorna em 06/07/2006.

O que importa é o leitor!

Esqueçam tudo o que vocês pretendiam fazer nos Quadrinhos, pois isso não importa. É duro, eu sei, mas o leitor não está nem aí para o que você quer ou o que você pensa. O que importa para ele é o que ELE quer (mesmo que muitas vezes ele próprio não saiba muito bem o que realmente quer). Podemos fazer Quadrinhos para leitores ou Quadrinhos para a crítica. Se a sua escolha é pela segunda opção, faça um favor a si mesmo e vá ler outra coisa. Se a sua decisão é a de fazer quadrinhos para quem realmente interessa, então algumas coisas precisam ficar bem claras.

O que importa são os desenhos!

A não ser que você seja Alan Moore, o primeiro passo para que seu trabalho seja notado é procurar caprichar nos desenhos. Desenhos limpos e bonitos são o básico, o mínimo, para que o leitor não pegue sua HQ, folheie um pouco, faça uma careta e a coloque de volta na prateleira. Não estou falando de mulheres siliconadas e homens com musculaturas improváveis. Falo de traços claros, cenários bem acabados e quadrinhos saudáveis aos olhos. Esqueça Bill Sienkiewicz. Pense em John Byrne. Ou para ficar no Brasil: esqueça Lourenço Mutarelli, pense em Mozart Couto ou Watson Portela. Não estou com isso diminuindo o talento e a importância de Lourenço Mutarelli, mas esperem um pouco para tentar experiências como a dele.

O que importa é a história!

Vencido o primeiro obstáculo, cabe ao escritor conduzir o leitor para que ele tenha a mais agradável experiência ao ler sua história (seja ela de humor, terror, aventura ou dramática). Não o enfadonhe com tramas muito paradas ou com excesso de textos. Faça-o pensar, mas não o deixe confuso. Dê-lhe um pouco de ação ou alguma emoção que não seja sempre negativa (fracasso, perda, morte, impotência são temas interessantes, mas procure variar trazendo-lhe sucesso, ganho, vida e ação de vez em quando). Doses de humor sempre adoçam e trazem leveza a qualquer história. O excesso pode depreciar. Se puderem, tentem mostrar algo que engrandeça a quem ler, mas não seja um chato. Suas verdades podem não ser as verdades de quem lê.

O que importa são os personagens!

O leitor gostou do desenho e gostou da história que leu. Mas, quando uma história não tem um personagem ou a história é do tipo que não cabe uma outra história com o mesmo personagem, neste momento, o encanto se desfaz. Se houve alguma identificação entre o leitor e o personagem, ela acabou aí. O leitor não vai esperar uma próxima edição com uma nova história daquela personagem tão simpática/antipática/legal/chata/ interessante/curiosa e o elo que tão demoradamente se firmou não terá continuidade. O leitor, intimamente, não se preocupa muito com as histórias, mas sim com os personagens. Eles querem saber é quem é aquela pessoa que enfrentou aquele perigo, que se meteu naquela engraçada confusão, que fugiu desesperado do terror, o homem por trás da máscara de herói. A trama pode ser envolvente, mas o leitor quer saber mesmo é o que vai acontecer com o personagem. Isso é o que o motiva a continuar comprando/lendo as mesmas revistas. O personagem é, em última análise, o que fará o leitor continuar acompanhando aqueles desenhos bonitos e aquela história legal.

O que mais importa?

Estamos no Brasil, não na França. O nosso público leitor não é igual ao de lá. E, embora muitos considerem sacrilégio o que irei dizer, o caminho certo para se formar um público leitor de seu trabalho não é fazer histórias que sejam elogiadas pela crítica por sua elaboração complexa e apurada. O caminho que acho mais correto é, antes de fazer isso, fazer histórias que as pessoas queiram ler, queiram acompanhar descompromissadamente ou não. Conquiste o leitor. Procure saber o que ele quer. Dê-lhe isso colocando o seu melhor, as suas idéias e um pouco de cultura. Mas faça isso de forma que ele possa digerir.

E o resto? O resto não importa!

P.S.: Este texto não se propõe a ser um guia definitivo. Ao contrário, trata-se apenas um pequeno norte para aqueles que estão iniciando.

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