O Novo mercado nacional

Artigo publicado no site Bigorna em 26/02/2007.

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Um dos maiores problemas enfrentados pelos artistas nacionais, hoje em dia, é a falta de um mercado consumidor para os seus trabalhos. Esse grande problema acaba gerando uma série de problemas menores que vão desde o não recebimento pelos trabalhos produzidos até o desânimo em produzir novos trabalhos. Mesmo assim, para alguns artistas, deixar de produzir não é uma opção. O que fazer então para encontrarum mercado para as suas HQs? A resposta está bem na sua frente: a Internet.

Cada vez menos tímida, a Internet cumpre um papel importantíssimo num fenômeno que vem crescendocada vez mais ao redor do mundo chamado de A Cauda Longa (leia mais sobre a o assunto aqui). De acordo com essa teoria, o custo fixo de um produto que vende muito é equiparado a um produto que vende pouco. Isso deve-se, principalmente, a inexistência da necessidade de se manter um estoque  do produto e os custos associados a isso. Uma outra forma de dizer isso seria imaginar que o produto real não existe até o momento em que ele é comprado por algum internauta.

Trazendo isso para os Quadrinhos, poderíamos – a grosso modo – comparar a prática da Cauda Longa com os mecanismos de produção dos fanzines. Geralmente, o fanzineiro só confecciona um novo exemplar de seu zine quando chega algum pedido para o mesmo. E esses custos (de xerox, por exemplo) já estão sendo pagos no momento da compra pelo adquirente. Não é necessário fazer uma grande tiragem, com um investimento relativamente alto e, posteriormente, uma obrigação maior de vender grande parte deste material para que esse modelo de negócio funcione. Um outro exemplo prático que eu poderia dar já está em execução em meu próprio site, onde eu vendo revistas nas quais tenham trabalhos meus publicados. Embora eu tenha alguns exemplares comigo, a tendência cada vez maior é de que os leitores comprem no meu site e seus pedidos sejam despachados diretamente pelos editores que produziram a edição (a não ser, é claro, quando eu mesmo sou o editor). Também ando fazendo experiências de produção sob demanda que irão fortalecer essa tendência de eliminação de custos.

Um outro fator determinante para a criação de um novo mercado utilizando a Internet como ponta de lança está numa eficiente e abrangente rede de contatos. Ou seja, clientes de fato ou clientes em potencial. Foi-se o tempo em que a própria Internet era colocada como um empecilho para venda de Quadrinhos com os argumentos de que nem todos os leitores tinham acesso à rede. Hoje, só no Brasil, mais de 32 milhões de pessoas (de acordo com o PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domilcílios – verificada neste artigo), com mais de 10 anos, acessam a Internet em algum lugar (seja em casa, no trabalho, na escola, etc.). E a tendência desses números é aumentar. Uma rede de contatos, como um orkut ou o myspace, por exemplo, já permitiu que bandas como Artic Monkeys e Panic at the Disco! se tornassem  mundialmente famosas antes mesmo de gravar seu primeiro álbum. Por quê, então, não se pode fazer o mesmo com os Quadrinhos? A resposta é: Nós podemos!

Mas, se tudo isto está disponível e é possível fazê-lo, o que está faltando para que esse novo mercado desponte de fato? Está faltando o novo artista. O novo artista nacional não será aquele que somente escreve ou desenha uma HQ. O novo artista nacional é aquele que produz de frente para o seu público, que mantêm com ele um contato mais próximo, que presta uma assessoria de imprensa aos seus trabalhos procurando divulgá-los onde e como puder, que vai atrás de novos leitores e que está preocupado com eles e com o que eles estão achando de seus trabalhos. Que procura dar ao seu trabalho um acabamento gráfico de qualidade (ou procura veiculá-lo em revistas que o tenham). Enfim, o novo artista nacional é uma editora de um homem só.

Em mercados dinâmicos, quando modelos antigos tornam-se obsoletos, novos modelos são criados para suprimir a ausência do que se fôra. No caso dos Quadrinhos nacionais, acredito eu, a nova tendência está não em receber pelo trabalho produzido como contratado (ou free-lancer) de editoras (já que isso hoje, praticamente, inexiste), mas o de produzir suas próprias revistas e receber o dinheiro pelo produto final que é a própria revista e não pelo trabalho produzido. Acredito ainda, que isso trará muita maturidade ao artista que irá se preocupar mais com o seu público-alvo e, assim, evoluir técnica e artisticamente. Nesse último item, um ponto polêmico: O lucro. Não se é possível pensar mais em produzir seus trabalhos apenas pelo amor à arte. Porque isso, em último caso, não vai permitir a continuidade de seu trabalho. Portanto, é preciso quebrar esse tabu de que aqueles que lucram com os frutos de seu próprio trabalho são mercenários. Portanto, não projetem publicações que não pagam, sequer, os custos de produção. E não se envergonhem de colocar uma porcentagem equivalente ao lucro pela venda de suas publicações.

O último ponto desse novo mercado de Quadrinhos nacionais está fixado nos trabalhos terceirizados dos Correios – responsáveis pelas remessas das revistas compradas pelo leitor. Embora a instituição não seja infalível e ainda existam muitas queixas a respeito dela, eu posso afirmar por experiência própria que ela atinge seus objetivos básicos em cerca 95% das vezes. Por isso tudo, acho que o cenário brasileiro está cada vez mais propício para esse novo tipo de relacionamento comercial e artístico entre leitores e quadrinhistas nacionais. Obviamente, não é um caminho fácil, de curta duração (ao contrário, é constante e eterno) e nem 100% garantido. Mas é uma possibilidade (mais uma) que se apresenta àqueles que estão procurando novas rotas para descobrir um novo mercado para suas HQs. Eu já estou nesta trilha e acredito que existam boas perspectivas dentro dela. Não a vejo como a única, mas, para mim, com certeza, está sendo um ótimo ponto de partida.

(Ilustração: Gerson Witte)

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