O troca-troca

Artigo publicado no site Bigorna em 26/01/2007.

troca-troca

Depois de um longo e tenebroso inverno, eis-me aqui novamente para falar de um assunto aparentemente banal, mas que eu considero muito interessante: A troca de edições entre os produtores de Quadrinhos independentes. E, antes de começarmos com nossos argumentos, é necessário avisar que essa coluna, em particular, não se destina a mostrar como todos deveriam se comportar diante do fato e nem que esta opção apresentada é a mais certa que outras. Trata-se apenas de mais uma sugestão. A apresentação de mais uma opção que você pode usar ou ignorar. E só.

Então, vejamos: uma regra geral que permeia a cabeça da maioria dos produtores de Quadrinhos independentes, sejam eles de uma edição mais caprichada impressa em gráfica com capa colorida em papel couchê ou aquela xerocada e, algumas vezes, até mesmo sem grampos no meio da revista, é que as edições produzidas devem ser trocadas sem quaisquer despesa extra de qualquer uma das partes adquirentes. Há alguns anos, esse comportamento informal era uma maneira interessante de se fazer amigos, conhecer os trabalhos de outros artistas e permitir que eles conhecessem os seus. Isto devia-se, principalmente, por causa da base da produção independente que era a ausência da busca por lucros.

Hoje em dia, com a produção mais profissional dessas edições independentes, esse tipo de comportamento começa a se tornar uma ameaça para a sobrevivência dessas publicações porque, embora ainda não se possa dizer que se busque tirar lucro das mesmas, o fato é que elas começaram a ter um custo maior, o que obriga esses produtores a observar que a simples troca de uma edição por outra já não é tão desejável como antes. Atualmente, considero a troca de edições salutar apenas quando, de fato, ambas as partes querem adquirir o material um do outro. E, ainda assim, com volta de dinheiro para aquele que saiu perdendo na troca. Por exemplo: Eu lanço uma revista que o preço dela é R$ 6,00, já incluída a despesa de postagem e um outro produtor tem uma edição que cobra R$ 3,00, também incluindo as despesas de postagem. Isso significaria, em termos práticos, que eu sequer conseguiria cobrir os custos da minha edição e, em alguns casos, ainda teria que adquirir um exemplar de uma edição que não me interessaria.

É neste instante que grande parte dos zineiros (produtores independentes amadores ou, até mesmo, profissionais) se revoltam contra esse meu pensamento. Mas não deviam. Acho louvável quem pode e abre mão de alguns poucos reais em função de manter um intercâmbio, uma amizade e pela arte em si (sic). Mas já alcançamos a capacidade de lançarmos edições independentes (ou seja, bancadas pelos nossos próprios bolsos e independentemente das editoras do mercado apoiarem de alguma forma ou não). O próximo passo é permitir que essas edições tentem, a princípio, se manter (ou seja, ao menos se pagar). Porque, se isso não for possível, o produtor independente, que sabe-se lá como, conseguiu juntar R$ 1.000,00 ou R$ 2.000,00 e imprimir uma tiragem de sua publicação, não terá capital suficiente para dar continuidade ao seu projeto.

Ora, fato é que temos uma capacidade maior de atingir pessoas ligadas artisticamente aos Quadrinhos do que aos leitores comuns (os de banca de revistas). E se não começarmos a dar o valor devido às publicações de nossos patrícios, como podemos esperar que alguém dê o devido valor às nossas? Um exemplo prático do que estou falando é o caso de um editor de um importante fanzine ganhador de vários prêmios nacionais. Mesmo recebendo as edições gratuitamente para divulgação em seu informativo, ele sempre procura comprar as edições de outros editores. Outra questão a se considerar é que, além do investimento inicial para a impressão das revistas (aqueles R$ 1.000,000 ou mais mencionados anteriormente), acaba-se tendo que gastar dinheiro ainda com despesas postais para outras pessoas. E tudo isso sem retorno algum. O que eu tenho me acostumado a fazer é o seguinte: quando entro em contato com algum produtor que tenha alguma publicação que me interesse, eu simplesmente pergunto-lhe o preço e como pagar e compro. Se, por algum acaso, esse produtor deseje fazer alguma troca com alguma edição que eu tenho, aí sim, efetuamos uma troca. Quando os valores são equivalentes (Mesmo com uma diferença de, por exemplo, até R$ 1,00), a gente troca sem maiores problemas. Mas quando a troca é desvantajosa para qualquer um dos lados, eu me antecipo e informo a diferença e quem deve pagar (se sou eu ou ele).

Pode parecer uma falta de educação ou até mesmo rudeza de minha parte, mas a verdade é que, embora existam uma centena ou mais de revistas independente ou fanzines sendo publicados atualmente, apenas uma média de uma dezena deles é que, de fato, me interessa adquirir. E eu adquiro com prazer. Eu acredito que todo esse comportamento no sentido de se adquirir revistas ao invés de simplesmente trocá-las, incentiva o produtor a buscar a qualidade de seus trabalhos (ele precisa vender, afinal de contas, para que possa reinvestir em novas edições), gera ganhos reais e palpáveis pelos seus esforços (uma espécie de prêmio por sua ousadia e pelos seus investimentos iniciais) e é uma forma de prestigiá-lo (nada mais do que simplesmente o tapinha nas costas. Gostou, comprou! Isso é que é prestígio. O resto é conversa-mole!).

Bom, acredito que essa coluna vai encontrar mais críticas do que elogios. Mas, assentada a poeira da raiva pura e simples, espero que alguns, mesmo que poucos (mas sérios), possam refletir e observar se o que eu digo tem algum cabimento ou não.

(Ilustração: Gerson Witte)

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