A Sarjeta e os tipos de transições

A sarjeta

A leitura de uma história em quadrinhos é um exercício de interpretação textual-visual contínua e múltipla. Ao se deparar com uma hq, o leitor precisa ler o texto, apreender as imagens, traduzir os signos visuais acessórios (diagramas, onomatopeias visuais, notas musicais, etc) e interpretar os espaços em branco que são as transições entre as imagens. É uma atividade que precisa constantemente da participação do leitor para que uma história possa ser “completada” e compreendida satisfatoriamente.

“A configuração geral da revista em quadrinhos apresenta sobreposição de palavra e imagem, e, assim, é preciso que o leitor exerça as suas habilidade interpretativas visuais e verbais. (…) A leitura da revista em quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual.”

-Will Eisner, Quadrinhos e arte sequencal

A Sarjeta (ou calha ou elipse) é o espaço entre um quadrinho e outro. É nesse espaço que o leitor “complementa” a história, interagindo com ela, construindo e dando interpretação proposta pelos autores (mesmo quando a sarjeta é subtendida).

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Dois quadros com a indicação da localização da sarjeta

No caso acima, a interpretação mais óbvia que o leitor pode assumir é que o homem de machado conseguiu matar o outro homem. E este entendimento é “incluído” na leitura da história na sarjeta. É aqui que os dois quadros, unidos pela sarjeta, ganham uma significado único.

“É aqui, no limbo da sarjeta, que a imaginação humana capta duas imagens distintas e as transforma em uma única ideia”

-Scott McCloud, Desvendando os quadrinhos

É claro que tudo isto é subtendido. Avançando mais na história, poderia ser mostrado que essa assunção é totalmente equivocada (o homem de machado acabou sendo morto pelo outro homem ou, até mesmo, que ninguém matou ninguém), mas, neste momento, na hora em que esta sarjeta é colocada, os autores da história decidiram direcionar a interpretação do leitor para uma determinada direção.

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Canhabora – pag 1 – quadros 4,5 e 6 – Roteiro de Leo Santana e arte e cores de Chris Munhão

No exemplo acima, vemos um trecho editado da hq “Canhabora”, de Leo Santana e Chris Munhão, onde podemos demonstrar claramente a importância da sarjeta para a leitura. No quadro 4, vemos uma camionete em alta velocidade e, passando diante dela, vemos um lobo guará perseguindo um pequeno animal. No quadro 5 vemos um close do animal. A primeira sarjeta (indicado pela seta 1) leva o leitor a conclusão de que o animal está paralisado diante da batida iminente da camionete exibida no quadro anterior. O quadro 6 não mostra nenhuma imagem. Apenas a representação visual de uma onomatopeia. Estivesse essa onomatopeia fora do contexto, ela não significaria absolutamente nada. No entanto, devido à segunda sarjeta (que é subtendida e está indicada pela seta 2), o leitor pode concluir que o carro, realmente, acertou o pobre animal.

Tipos de transição

Cada quadrinho apresenta uma transição no espaço-tempo da história. Quando temos dois ou mais quadrinhos, é a sarjeta que incentiva o leitor a dar algum sentido a essa transição e aplicar a devida passagem de tempo baseada na sua própria experiência pregressa.

De acordo com Scott McCloud,no seu livro “Desvendando quadrinhos”, existem 6 tipos de transições quadro-a-quadro:

1. Momento-a-momento

É a transição que exige o menor esforço de interpretação e entendimento por parte do leitor pois constrói a ação de forma quase segundo-a-segundo. Esta transição é muito usada para indicar uma passagem relativamente pequena de tempo (algo muito rápido ou quase instantâneo entre uma cena e outra).

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Exemplo de transição momento-a-momento na hq “Abraços por 50 centavos” com roteiro de Leonardo Santana e arte de Laudo

No exemplo acima, a passagem de tempo é indicada através da quantidade relativamente pequena de passos dados pelo personagem de bigode. Ou seja, ela acaba decorrendo dentro de poucos segundos e é possível acompanhar quase toda a movimentação e gestual dos personagens.

 

2. Ação-para-ação

Mostra um tema em desenvolvimento com ou sem cortes, mas sempre relacionados. Essa transição seria um resumo, um “melhores momentos” de várias transições momento-a-momento onde o(s) personagem(ns) executa(m) alguma ação relevante na história. Dessa forma deixamos o leitor complementar os passos intermediários executados entre as duas transições.

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Dormir, talvez sonhar (Por Leo Santana e Wendell Cavalcanti) Página 05

Exemplo de transição ação-para-ação na hq “Dormir, talvez sonhar” com roteiro de Leonardo Santana, desenho de Wendell Cavalcanti, arte-final de Carlos Alberto e cores e letras de Lula Borges.

No exemplo acima, vemos que, embora toda a ação se desenvolva em torno de um combate, algumas ações são subtendidas como, no quadro 2, onde o “curupira” está indo em direção da personagem “cabala” e, no quadro 3, ele já está atingindo-a. Toda movimentação entre esses quadros (o pulo e o giro em direção da personagem) está subtendido. Da mesma forma, não vemos a personagem “cabala” caindo após ser atingida. Vemos apenas ela já no chão. A queda, entre o golpe e a imagem dela no chão é, uma vez mais “complementada” pela sarjeta através dos esforços de interpretação do leitor.

 

3. Tema-para-tema

Nessa transição, permanecemos dentro de uma cena ou ideia, mas exigimos do leitor um grau maior de envolvimento. Isto significa que o leitor precisa estar atento a história que se desenrola para compreender totalmente as transições. A informação é, conscientemente, omitida e uma parte considerável do tempo é passado deixando para o leitor o preenchimento de todas as ações entre uma cena e a outra. A história fornece duas situações distintas relacionadas entre si pela sarjeta e deixa para o leitor que faça a devida conclusão.

 

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Trecho da hq “A cadeia” de Leo Santana e Fábio Turbay

Exemplo de transição tema-para-tema na hq “Fome” com roteiro de Leonardo Santana e arte de Fábio Turbay.

Aqui, temos uma transição tema-a-tema nos quadros 3 e 4 onde vemos, no quadro 3, uma cobra de boca aberta e no quadro seguinte, ela com o corpo guardando uma certa protuberância. Embora não seja exibido, podemos supor que, baseado no contexto anterior (o coelho em alerta no quadro 2), que a cobra atacou e engoliu o pobre animal. Essa mudança temática (A cobra antes do ataque e a cobra depois do ataque) exige a participação ainda maior do leitor para complementar o sentido das duas cenas e, assim, garantir seu total entendimento.

Algumas transições tema-para-tema exigem bem mais do que apenas atenção do leitor. Elas obrigam ao leitor que faça associações mais complexas que vão exigir dele uma certa experiência de vida e malícia para associar certos signos visuais a ideias que o autor pretende passar. É o caso da página abaixo de Bomb Queen de Jimmie Robinson.

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Bomb Queen volume 2 – N. 02 – Página 15, de Jimmie Robinson

Na página acima, as transições dos quadros 3,4 e 5 exibem imagens aparentemente não relacionadas, mas que, na verdade, pretendem substituir cenas de sexo por ideias visualmente associadas com o ato sexual em si.

4. Cena-para-cena

Aqui, existe um corte entre duas cenas distintas no tempo e no espaço que exigem do leitor raciocínio dedutivo para que ele possa compreender essa passagem. Por ser um corte muito brusco na narrativa sequencial, normalmente, elas são acompanhadas de textos que situam melhor o leitor nesta transição mais complexa.

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Dormir, talvez sonhar (Por Leo Santana e Wendell Cavalcanti) Página 01

Na página acima, a história passa por diversas locações nacionais e em diversos horários tendo, como suporte, além da imagem, a narração (os textos) da personagem principal.

 

5. Aspecto-para-aspecto

De acordo com Scott McCloud, esse tipo de transição “supera o tempo em grande parte e estabelece um olho migratório sobre diferentes aspectos de um lugar, ideia ou atmosfera”. É como se fosse uma visualização não necessariamente sequencial de algum tema para gerar um clima ou para passar uma sensação muito mais do que para contar uma história ou uma ação. Normalmente são transições “silenciosas” (ou seja, não possuem textos ou diálogos e são meramente contemplativas).

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Página 2 da hq “Fome”  com roteiro de Leo Santana e arte de Mauricio Fig.

No exemplo acima, os quadros giram em torno da apresentação de uma grande metrópole e o seu dia-a-dia agitado. Percebe que, embora nenhum quadro seja continuação do anterior, todos se prestam ao mesmo propósito que é o de passar para o leitor a sensação de caos e urgência que existem numa cidade grande

 

6. Non-sequitur

O último tipo de transição existente entre as sarjetas são as que não estabelecem nenhuma sequencia lógica entre os quadros. Non Sequitur é uma expressão latina (em português “não se segue”)  e raramente são usadas. E, quando o são, geralmente são usadas em HQs experimentais. Essa transição não se preocupa com os eventos ou qualquer tipo de narrativa lógica.

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Hq “Samplerman – 50 Watts” do artista Yvan Guillo

 

Exemplo de transição non-sequitur do artista Yvan Guillo onde, embora possamos atribuir o significado que quisermos às imagens sequenciais da história, a verdade é que eles não possuem nenhum diretamente observável.

Conclusão

Conhecendo a verdadeira função da sarjeta e os tipos de transições possíveis, um autor pode, não só aplicar as melhores transições na construção de suas narrativas, como também extrair o máximo de suas possibilidades.

O autor pode controlar o tempo, a passagem da informação e administrar as possíveis conclusões do leitor enriquecendo sua experiência durante a leitura da obra.

Por fim, dominar as técnicas é se tornar um artista mais completo e oferecer ao leitor a informação correta de acordo com as intenções do autor.

Exercício-Bônus

A seguir, alguns exemplos de transições famosas usadas por grandes mestres dos quadrinhos. Será que você consegue classificá-los corretamente? Coloque nos comentários qual a transição correta para cada página!

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1) Planetary 27, de Warren Ellis e John Cassaday

Bill Sienkiewicz 1981 Moon Knight 9Color

2)Bill Sienkiewicz – Cavaleiro da Lua (1981)

Batman a piada mortal

3) Batman, a piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland

cavaleiro das trevas - Frank MIller

4) Cavaleiro das trevas de Frank Miller – A Morte dos pais de Bruce Wayne.

 

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