Em busca da ideia perdida

Um roteirista de história em quadrinhos não pode e nem deve ficar à mercê de uma ideia que talvez nunca apareça. Ele precisa compreender que todo ato de escrever é, como reza a máxima, cerca de 90% de transpiração e apenas 10% de inspiração. Ele precisa correr atrás dessa ideia, dessa inspiração, que lhe permita iniciar o seu trabalho independente de qualquer circunstância. Não se pretende, aqui, ser condescendente com ninguém. O foco deste livro é transformar o leitor num roteirista de produção, que tem que cumprir prazos e honrar compromissos. O próprio Alan Moore mencionou que não podia se dar ao luxo de ter bloqueios artísticos por que, simplesmente, havia contas a serem pagas no final do mês. Assim sendo, é preciso compreender algumas técnicas e dicas para a obtenção de ideias e de como desenvolver essas ideias.

A ideia é aquele estopim inicial do qual toda a história se desenvolverá. Ele pode ser uma palavra, uma frase, uma cena, um objetivo, uma sensação, etc. Porém, no início, na maioria das vezes, tudo o que existe é o imenso branco em sua mente e na folha na tela de seu computador (ou de seu caderno, como queira) e que precisa ser preenchido o quanto antes para que seu trabalho possa ser concluído. A primeira indicação de onde pode-se buscar por uma ideia foi dada por Alan Moore que escreveu: “as ideias parecem germinar na fértil encruzilhada entre as influências de outros artistas e minhas próprias experiências”.

Hoje em dia, existem várias técnicas e ferramentas que servem para estimular o surgimento de uma ideia. Foram separadas algumas identificadas como principais devido à sua ampla utilização e facilidade de uso, dentre as quais:

  • Associação de ideias;
  • Brainstorm;
  • Estímulo aleatório;
  • Técnicas das perguntas (5W+1H);
  • Técnicas alternativas.

 

Associação de ideias

A associação de ideias é tida como uma das mais antigas, datada do século IV a.c. e estruturadas por Platão e Sócrates. Ela é advém da capacidade do cérebro em estabelecer relações de algum tipo entre dois ou mais conceitos e, a partir disso, criar um novo conceito (ou ideia). Alex Faickney Osborn, criador do brainstorm, outro processo de produção de ideias, a definiu como “Fenômeno em virtude do qual a imaginação se entrosa com a memória, fazendo com que um pensamento conduza a outro”. A associação de ideias obedece a 3 leis propostas por Platão e Aristóteles que são Contiguidade, semelhança e contraste.

Por exemplo, você tem que escrever uma história de ficção científica e começa sua associação com a palavra “futuro”. Utilizando as 3 leis das associações de ideias, inicia-se o trabalho de associação com a procura de causas e efeitos (contiguidade) referentes ao primeiro conceito e chega-se, por exemplo, a “avanço tecnológico”. Depois disso, procura-se fatores comuns (semelhança) e chega-se, talvez, a “máquinas com alma”. Na fase de procura por semelhanças, pode-se utilizar metáforas para estimular o distanciamento com a fase anterior. Na última fase, o esforço parte em sentido oposto ao do primeiro conceito (contraste) e chega-se, dentre tantas possibilidades, a “presente”. A partir daí, pode-se continuar com o trabalho de associação de ideias até atingir um objetivo, ou ideia, que lhe seja satisfatório. No caso específico acima, você já poderia escrever uma história de ficção científica que falasse de um robô (ideia relacionada com “avanço tecnológico”) que adquirisse consciência (ideia relacionada com “máquinas com alma”) e se questionasse o que os homens estão fazendo com o mundo nos dias atuais (ideia associada com “presente”).

Então, resumindo, o seguinte fluxo deve ser observado:

  1. Conceito inicial;
  2. Contiguidade (causas e efeitos);
  3. Semelhança (Fatores comuns, uso de metáforas);
  4. Contraste (oposto);
  5. Retornar ao passo 2 e refazer os demais passos até obter o resultado desejado.

 

Brainstorming

O brainstorming é uma da técnica que visa estimular o maior número de ideias e associações possíveis sem a preocupação imediata se elas são realmente interessantes ou não (ou mesmo se são realmente relacionadas ou não) e, posteriormente, fazer uma filtragem deixando apenas as ideias que melhor atendam às suas necessidades.

Brainstorming significa tempestade cerebral e sua intenção é justamente essa: a de incentivar caoticamente a produção de ideias visando tirar da grande quantidade, a qualidade desejada.

O brainstorming tem sido uma das técnicas mais utilizadas, no Brasil, em cursos de graduação e em grandes empresas de marketing, design, propaganda e etc. No Brainstorming, nenhuma crítica é aceita. Todas as ideias são válidas, das mais inteligentes às mais estapafúrdias e não existe um limite para a quantidade de ideias geradas.

Embora o Brainstorming envolva, geralmente, um grupo de 4 a 8 pessoas, pode-se utilizar essa técnica para o desenvolvimento de ideias para histórias em quadrinhos sozinho ou mesmo com a participação de mais um parceiro. O importante é não esquecer de registrar (seja escrevendo ou mesmo gravando) todas as ideias para uma posterior avaliação das mesmas.

Então, numa sessão de brainstorming, sozinho, com o tema “ecologia”, se você gerou, por exemplo, as seguintes ideias:

“lixo”, “vida”, “saúde”, “bueiros entupidos”, “enchentes”, “catástrofe”, “terra destruída”, “vingança da natureza”, “monstro do pântano”, “Alan Moore”, “integração homem-natureza”, “educação”, “limpeza” e “futuro da humanidade”.

Você poderia analisar as mais interessantes para o seu caso e a partir daí, talvez, escrever um roteiro sobre como a natureza adquiriu consciência e criou um monstro para matar os seres humanos como forma de se proteger. Ou seja, embora o tema inicial tenha sido ecologia, você acabou utilizando apenas as ideias “vingança da natureza” e “monstro do pântano“ (Que num primeiro momento poderia até parecer ridícula) para lhe fornecer subsídios criativos para escrever uma nova história.

 

Estímulo aleatório

Algumas vezes, as ideias parecem levar sempre ao mesmo caminho. Torna-se complicado de pensar em algo novo, diferente do usual pois existe uma certa dificuldade de abandonar conceitos e raciocínios enraizados. Ou, como costuma ser dito: “o difícil não é ter novas ideias, mas se livrar das antigas”. Assim sendo uma técnica simples e interessante de se utilizar para se obter pensamentos inovadores e novas perspectivas é a do estímulo aleatório, criada por uma das maiores autoridades no campo do pensamento criativo, Edward de Bono. A técnica do estímulo aleatório, como escreveu Virgílio Vasconcelos Vilela, “se baseia na capacidade imensa que o nosso cérebro tem de estabelecer relações, ligações, conexões entre tudo; de fato, fazemos isto todo o tempo, ligando o que vemos e ouvimos ao que conhecemos e estabelecendo conexões entre o que já sabemos”.

A técnica consiste em escolher uma palavra relacionada com o tema que você quer desenvolver e, em seguida, procurar aleatoriamente outra palavra que seja um substantivo. Entre a primeira palavra (relacionada com o tema) e a segunda (escolhida aleatoriamente), coloca-se a palavra “po” que pode significar possibilidade, hipótese, suposição. O substantivo escolhido aleatoriamente pode ser encontrado, por exemplo, abrindo uma página qualquer num dicionário (ou talvez numa revista ou num jornal) e pegando o primeiro substantivo que houver nela. Após efetuar essa ligação, comece a anotar as ideias produzidas por esse estímulo incomum e, posteriormente, verifique se existe alguma que lhe sirva.

Para melhor ilustrar essa técnica, vamos usar um exemplo prático. Suponha que você tenha que escrever um roteiro sobre a guerra do Vietnam. A palavra que serviria de início poderia ser a própria palavra “Guerra”. Abrindo o dicionário aleatoriamente, encontra-se o substantivo “engenho”. O exemplo completo ficaria então “guerra po engenho”. Estimulado a partir de uma associação tão incomum, poderia surgir, de repente, a ideia de escrever um roteiro onde um engenheiro militar tem que usar seu conhecimento de engenharia para manter-se vivo numa selva cheia de Vietcongs. Então, uma possibilidade que dificilmente passaria pela cabeça de um escritor torna-se perfeitamente aproveitável com o uso dessa simples técnica de estímulo criativo uma vez que ela é excelente para quebrar padrões de pensamentos que muitas vezes restringem a criatividade.

 

Técnica das perguntas (5 Ws + 1 H)

Existe um ditado que diz: “saber fazer as perguntas, já é metade da resposta”. Ou seja, ao adicionar todos os detalhes necessários para formular uma pergunta, percebe que parte da (Senão toda a) resposta já começa a aparecer antes mesmo de você receber a resposta de seu interlocutor.

A técnica do 5W + 1H (Why,When, Where, Who, What, + How) originou-se do estudo de Hermagoras de Temnos que definiu 7 circunstâncias como fonte de uma questão. São elas Quis (quem), quid (o quê), quando, ubi (onde), cur (Por quê), quem ad modum(De que maneira), quibus adminiculis (de que forma). Esses elementos foram utilizados através dos séculos de formas diferentes (Com mais ou menos elementos) até que em 1902, Rudyard Kipling celebrou o 5W+1H em seu livro “Just So Stories” E em 1917, o 5W+1H começou a ser ensinado nas escolas de jornalismo.

“Eu mantenho seis honestos servidores
(eles me ensinaram tudo o que eu sabia);
Seus nomes são o quê e porquê e quando
E como e onde e quem”.
– Kipling, Rudyard

A técnica envolve fazer perguntas para obter informações básicas que permitam elucidar pontos a respeito de determinado assunto e também a de estimular o surgimento de ideias por associação relacionadas com as respostas dadas. São elas:

  • Por quê (Why)?
    • Por que o personagem fez ou deixou de fazer determinada coisa?
  • Quando (When)?
    • A história se passa no presente? No passado? No futuro?
  • Onde (Where)?
    • A história se passa num salloon? Numa floresta? Dentro de uma sala de estar?
  • Quem (Who)?
    • Quem está envolvido no assassinato? Quem foi o último a sair?
  • O quê (What)?
    • O que aconteceu com o irmão do personagem? O que aconteceu com as joias da coroa?
  • Como (How)?
    • Como as joias foram roubadas? Como ele conseguiu sair ileso das chamas?

As respostas obtidas para as perguntas acima podem ajudar a gerar mais perguntas ou a trazer ideias que podem ser aproveitáveis para o seu roteiro. Depois disso, é só utilizar outras técnicas (que serão mostradas mais adiante) para saber o que mostrar ao leitor, quando mostrar e de que forma mostrar visando conseguir o máximo de impacto para a sua história.

 

Técnicas alternativas

Técnicas alternativas são todas aquelas que são utilizadas informalmente por escritores e artistas diversos, são facilmente implementadas, mas que são frutos de, muitas vezes, simples experiências e experimentações pessoais. São dicas, macetes e sugestões que funcionaram para alguns grandes artistas e, quem sabe, pode ajudar também você.

 

Banco de Ideias

A inspiração é uma musa caprichosa. Ela não vem quando mais necessitamos mas pode aparecer quando menos esperamos. E, algumas dessas vezes, as ideias vem, mas não temos, naquele momento, onde utilizá-las. Um exemplo disso seria surgir a ideia para uma cena super-legal de ação mesmo quando estamos, na verdade, escrevendo um drama. Então, para não descartar ou esquecer aquela cena (por que, acredite, você vai esquecer), guardamos a cena num caderno ou num arquivo no computador e chamamos esse caderno ou arquivo de “Banco de ideias” (O meu banco de ideias, eu chamo de Pequeno Grande Livro De Citações e Referências).

Outra razão para guardarmos ideias num banco é que as vezes as ideias para um determinado roteiro surgem, mas ele ainda está em estado bruto e nem todas as suas arestas estão fechadas. Então, você pode optar por guardar aquela ideia/sinopse no seu banco de ideias, partir para outro roteiro e reutilizá-lo futuramente tentando desenvolvê-lo melhor ou usá-lo como base para novas ideias/roteiros.

Um banco de ideias com fontes para uso futuro ou para estimular a criatividade pode ter: frases soltas de gente famosa (ou não), diálogos, cenas, imagens específicas (se você usar um caderno, pode querer colar alguma imagem que recortou do jornal ou de alguma revista, mas se você usar um arquivo de computador, pode querer criar uma pasta só com imagens para referências visuais) e, até mesmo, pesquisas inteiras sobre determinado assunto (Embora, nesse caso, talvez fosse melhor ter a pesquisa em arquivos separados de acordo com o assunto). A Tabela abaixo mostra um exemplo de algumas das coisas que podem ser encontradas num banco de ideias.

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Consulta a outras mídias

Assistir filmes, seriados, documentários, clipes musicais, programas de viagem, sobre a natureza, sobre a história do mundo, ler revistas de notícias, de fofocas, da vida dos famosos, jornais, escutar música clássica, blues, jazz, rock pesado, dance club… tudo isso pode ajudá-lo a ativar suas sinapses mentais e estimulá-lo com imagens, palavras, ritmos, sensações e sentimentos que podem fazer germinar uma ideia para a sua próxima história.

Escutando a música “It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine…)”  da banda R.E.M., surgiu-me a ideia para um roteiro onde o mundo havia sido destruído pelo homem e dois deles se encontram com visões diferentes sobre o ocorrido: Enquanto o primeiro achava aquilo terrível e queria reconstruir o mundo exatamente como ele era antes, o outro discordava e dizia que o mundo, devastado daquele jeito, estava simplesmente perfeito para ele.

Algumas vezes, um choque midiático externo é necessário para quebrar pensamentos condicionados e nos estimular com novas ideias.

sozinho

Página da HQ “SOZINHO” inspirada a partir da música “It’s the end of the world as we know it (And I Fell Fine…)” da banda R.E.M. – Roteiro de Leonardo Santana e arte de Carlos Klein.

Pesquisa relacionada

Algumas vezes, a única forma de se estimular o surgimento de ideias a respeito de determinado tema é através de uma apurada pesquisa relacionada ao mesmo. Como podemos ter ideias sobre Rei Arthur e a távola redonda se não sabemos nada a respeito de sua mitologia? Um estudo sobre os personagens, sobre a época e os costumes de então podem ajudar a acender alguma fagulha que possa render alguma história.

Um exemplo prático que posso dar foi quando resolvi escrever uma HQ sobre um dos ícones dos quadrinhos nacionais: o RAIO NEGRO, criado pelo mestre dos quadrinhos nacionais GEDEONE MALAGOLA. Primeiro tive que pesquisar sobre a origem do personagem e depois sobre o período histórico em que ele existia, que compreendia os anos iniciais da Ditadura Brasileira. Uma pesquisa mais detalhada sobre esse negro período de nossa história levantou-me questões sobre como um homem que, além de um super-herói era também um militar, conseguia conviver com essa dualidade?

Essa questão foi a semente que me motivou a reescrever a origem do Raio negro inserindo-o numa realidade onde ele tinha que lidar com a ditadura e o conflito entre ter que decidir entre as convicções militares e as suas pessoais.

Observação apurada

Anaïs Nin, escritora Francesa autora de Delta de Vênus e amante do escritor Henry Miller, escreveu: “Minhas ideias geralmente não vêm quando estou escrevendo, mas enquanto estou vivendo”. Se você vai ser um escritor, seja de roteiros para quadrinhos ou de qualquer outra mídia, uma das primeiras coisas que você precisa aprender é a observar as coisas e pessoas à sua volta. É preciso que você seja um incansável perscrutador da sociedade em que vive.

Um exercício muito útil é encontrar uma rua bem movimentada onde você possa observar sem ser notado e procurar perceber os passantes e as situações que acontecem e tentar imaginar o que as levaram até aquele momento ou o que irá se desenrolar a partir dali. Uma garota muito alta de mãos dadas comum garoto baixinho pode lhe estimular a pensar o que os levou a ficarem juntos numa relação onde o tamanho não é documento. Ou então ver uma criança de 5 anos andando na frente enquanto sua mãe, cheia de comprar vem atrás dele como se a criança dominasse a pobre mãe fazendo-a de escrava.

Qualquer situação que você ver, pode servir de um pontapé inicial para uma história. É um estímulo que pode servir de semente para uma ideia totalmente diferente (ou não) para um novo roteiro. Além do mais, a observação lhe permitirá aprender mais sobre a sutileza das relações humanas e sobre o comportamento social.

A observação pode lhe ajudar também na composição de uma história. Foi a partir de uma observação apurada que eu escrevi a maioria das HQs da série METRÓPOLES. Observando situações do dia-a-dia numa grande cidade, várias ideias surgiram e várias cenas foram compostas a partir dessa “técnica”.

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Página da hq “” da série “Metrópoles” escrita por Leonardo Santana e desenhada por Maurício Fig.