Tipos de roteiristas

Embora existam algumas regras que precisem ser seguidas, escrever uma cena de quadrinhos no estilo Full Script não é exatamente uma atividade de complexidade exponencial. Ela pode ser resumida à:
a) Adicionar uma marcação de quadro e página;
2) Descrever a cena (A ação);
3) Identificar as falas dos personagens e outros textos.

Apesar disto, a forma como você pode escrever uma cena pode variar muito em relação ao estilo de prosa escolhido para isto. A seguir, iremos apresentar algumas formas de se escrever a mesma cena partindo do exemplo de como outros roteiristas famosos fazem isto e, também, misturando um pouco com a nossa experiência prévia de mais de uma década escrevendo roteiros para quadrinhos.

A cena é a seguinte, retirada da hq dAS NOVAS AMAZONAS intitulada “MAIS INTENSO QUE A VIDA, MAIOR QUE A PRÓPRIA MORTE…”, página 02, quadro 01. Se quiser ler a hq completa, clique aqui.

As Novas Amazonas 03, pag 02, quadro 01

Descolado

Este estilo é muito usado pelos escritores que querem escrever um roteiro de forma descolada, parecendo ser um cara legal e, dessa forma, impressionar o desenhista (ou quebrar um pouco sua resistência).  Embora seja legal ler um roteiro como se estivesse recebendo uma mensagem de um amigo pelo whatsapp, eu acredito que isto gera muita informação desnecessária para o desenhista, coisa que não vai ser aproveitada de forma alguma e só terá algum valor se, algum dia, o roteiro for publicado no seu conteúdo original em alguma coletânea onde quem o ler vai poder dizer: “Olha como esse cara escreve de forma legal e descontraída”.

Exemplo:

Tudo bem? Eu espero que você esteja ligado e cheio de entusiasmo para desenhar essa história como eu fiquei para escrevê-la. Eu coloquei o dedo na tomada e fiquei ligado a 220 voltz e tenho certeza de que você vai me acompanhar nesta viagem alucinante pelo universo das novas amazonas. O mundo foi destruído por um cataclismo ecológico e as coisas andam feias, como você deve imaginar. O lance é meio “Mad Max” com “O dia depois de amanhã” misturado com aqueles filmes dos anos 70 e 80 onde a mulherada pegava nas armas e ia pra cima. Mas a gente vai começar com a uma cena simples, de duas das amazonas (Isolda e Zoe) caminhando no meio de uma cidade destruída.

Minimalista

O roteirista minimalista é aquele que deixa todas as decisões para o desenhista preocupando-se com o mínimo possível para ele escrever a cena. Quando o roteirista decide ser minimalista, ele não pode se preocupar muito com o resultado final ofertado pelo desenhista.

Exemplo:

Isolda e Zoé caminhando no meio de uma cidade destruída.

Detalhista

Também conhecido como “Allan Moore’s Style” (brincadeira!), este tipo de descrição de cena é um dos mais detalhados possíveis deixando pouco (ou nenhuma) margem para mudanças pelo desenhista. Isto não quer dizer muita coisa por que, na maioria das vezes, os editores preferem as modificações e propostas construídas pelos desenhistas em lugar das definidas pelo roteirista. Além do mais, este tipo de construção costuma aborrecer os desenhistas que, em geral, não tem muito paciência ou bons olhos para este nível de controle. Alguma vezes, é importante detalhar  a cena por que os elementos internos são importantes dentro da narrativa. Porém, quando não há este grau de importância para a narrativa, é de bom tom não se estender muito na descrição da cena.

Exemplo:

É noite. Plano aberto superior. A lua cheia ilumina a cidade. Vemos as duas amazonas (Isolda e Zoe) caminhando por uma das ruas da cidade destruída e deserta. Há muitos destroços e entulhos espalhados pelas ruas. Vemos carcaças de carros abandonados e até um sofá destruídos jogado na rua. Os prédios estão semidestruídos e possuem rachaduras que os cobrem por todos os lados. As duas amazonas estão de costas para nós. Zoe está há alguns metros na frente de Isolda, que a segue de perto. Elas estão conversando, mas não estão olhando uma para outra. Ao contrário, estão ambas olhando para a frente como se estivessem mais preocupadas com o caminho a desbravar. Além disto, elas não precisam necessariamente estar olhando uma para o rosto da outra para conversar. Zoe está jogando fora uma lata que acabar de encontrar entre os destroços indicando que ela não lhe tem muita serventia. Em sua outra mão ela carrega seu arco sempre disponível para entrar em ação caso seja necessário. Isolda, ao contrário, carrega seu machado em suas costas. Apesar do caos que rodeia as duas mulheres, elas continuam caminhando tranquilamente em busca de mantimentos ou utensílios que lhe sejam úteis.

O moderado (ou Como eu escrevi)

Partindo do que já foi dito acima, podemos supor que já ficou claro que a melhor forma de se descrever uma cena de quadrinhos é se mantendo no meio termo entre o minimalista e o detalhista e tentando evitar ao máximo as elucubrações do descolado. Você deve procurar detalhar suas cenas apenas com as partes realmente relevantes tomando cuidado para esse texto não ficar muito grande e tornar a leitura de toda a história cansativa. É óbvio que algumas vezes isto não é possível, mas se você manter em mente este pensamento, isto o policiará na construção de suas cenas. Embora a descrição de cena proposta utilizada neste artigo possa ser descrita de uma dezenas de possibilidades diferentes, acreditamos uma dessas possibilidades é a apresentada aqui e que foi a forma como eu escrevi originalmente.

Exemplo:

PLANO ABERTO MOSTRANDO AS DUAS MULHERES EM MEIO A UMA RUA DESTRUÍDA. ZOÉ ESTÁ NA FRENTE, MEIO QUE VIRANDO-SE PARA TRÁS, PARA OLHAR PARA ISOLDA. ISOLDA ESTÁ MAIS ATRÁS OLHANDO PARA ZOÉ. ZOE ESTÁ JOGANDO A LATA FORA SEM INTERESSE.

 

***

E aí? Existem outros tipos de roteiristas? Quais e por quê?

Espero que tenham gostado desse artigo. Se gostaram, comentem e compartilhem! E se quiserem que eu fale sobre algum outro assunto relacionado com a construção de histórias em quadrinhos, é só deixar aí embaixo a sua sugestão nos comentários.

Anúncios