Sobre enquadramentos para hqs

Por Leonardo Santana (06/07/2016)

Embora tenha nascido antes do cinema, boa parte dos termos utilizados na construção de roteiros para quadrinhos foram pegos “emprestados” e adaptados da sétima arte. Acredito eu que isto tenha se dado em boa parte pela profissionalização/especialização dos quadrinhos. Inicialmente, era o próprio desenhista quem fazia tudo e, portanto, não era necessário descrever a história a ser produzida em forma de roteiro. Mas, já bem cedo, com a massificação da produção das revistas em quadrinhos e a divisão dos trabalhos entre desenhistas, roteiristas e letristas, foi preciso começar a passar melhor as informações para cada um dos envolvidos.

Por não ser uma ciência, muitas coisas que se referem aos quadrinhos (e ao cinema também) são usadas de formas diferentes de pessoa para pessoa. Tomemos, como exemplo, a definição de PLANO MÉDIO (PM) em duas fontes diferentes. Na primeira, define PM como “A figura humana é enquadrada por inteiro, com um pouco de ‘ar’ sobre a cabeça e um pouco de ‘chão’ sob os pés” enquanto a segunda fonte diz que “o personagem é enquadrado da cintura para cima”.

Há quem defenda que isto é uma questão menor. Que o mais importante é passar a mensagem correta para o desenhista, não importando (ou importando menos) estas questões técnicas. Concordo apenas parcialmente com estas opiniões. Acho sim, que a mensagem é mais importante que a forma. Porém, acredito que conhecer melhor as formas ajudam ao roteirista na hora dele passar a sua informação com maior qualidade e propriedade.

Por esta razão, decidi criar um guia com os tipos e descrições de cada elemento de enquadramento para facilitar e tornar ainda mais clara minha comunicação com os artistas que, por ventura, pegarem meus roteiros par produzir.

Isto posto, preciso advertir que, uma vez que este estudo serviu única e exclusivamente para me ajudar a tomar uma decisão final a respeito de quais termos eu utilizaria em meus roteiros a partir de agora, não tenho a intenção de mudar o pensamento de ninguém e, tampouco, ditar regras a respeito do uso dos termos aqui propostos. Meu único objeto é apenas compartilhar um esforço ao qual eu dediquei e que pode (ou não) ser útil para outros roteiristas.

ENQUADRAMENTOS

É através do enquadramento que o roteirista pode construir as cenas de sua história de forma a causar maior ou menor impacto ao leitor, servindo de fio condutor para a apresentação da história. É o enquadramento que diz ao desenhista o que mostrar e como mostrar.

O enquadramento comum, o do cinema, depende de dois elementos:

  • O PLANO
  • ÂNGULO

Para os quadrinhos, eu resolvi incluir mais um elemento que, na falta de um termo melhor, eu costumo chamar de:

  • FOCO.

PLANO

É o principal componente do enquadramento. Pode-se dizer que o plano é a marcação que determina a distância entre a visão de quem observa e o objeto observado. Se estivéssemos falando de cinema, o plano seria a distância entre a câmera e a cena. É a função do plano criar a noção de dimensão e profundidade da cena.

TIPOS DE PLANOS QUANTO AO ENQUADRAMENTO

TIPOS DE PLANO 01
TIPOS DE PLANO 02
TIPOS DE PLANO 03

TIPOS DE PLANO QUANTO À PROFUNDIDADE

Nos quadrinhos, uma cena pode ter tantos planos de profundidade quanto o desejado pelo escrito, no entanto, é de senso comum não utilizar mais do que três a não ser que seja estritamente necessário. Levando-se em consideração este limite de três, os planos se dividiriam em:

  • PRIMEIRO PLANO
  • SEGUNDO PLANO
  • FUNDO
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EXTERNA. NOITE. EM PRIMEIRO PLANO VEMOS UM CLOSE POSTERIOR SUPERIOR ABERTO DE ISOLDA CORRENDO DE MACHADO EM MÃOS. EM SEGUNDO PLANO VEMOS UM PLANO GERAL POSTERIOR SUPERIOR DE UM GRUPO DE HOMENS (UNS 5 OU 6) HÁ LGUNS METROS A FRENTE DE ISOLDA, AINDA SEM PERCEBER SUA PRESENÇA. AO FUNDO VEMOS UM GRANDE PLANO GERAL POSTERIOR SUPERIOR ABERTO MOSTRANDO UM SEGUNDO GRUPO DE HOMENS (UNS 3) CERCANDO ZOÉ, QUE ESTÁ CAÍDA NO CHÃO. PODE-SE DIZER QUE ELES ESTÃO MANTENDO-A NO CHÃO E UM DELES ESTÁ TENTANDO ESTUPRÁ-LA.

OBSERVAÇÕES

PANORÂMICA

O termo “panorâmica” é comumente usado nos quadrinhos para definir uma paisagem. Parece-me, no entanto, que o termo adequado a se usar ainda é o grande plano geral (GPG). O termo “panorâmica” é mais usado, no cinema, para identificar o plano de acordo com a movimentação da câmera uma vez que este termo é usado para definir “o plano em que a câmera, sem se deslocar, gira sobre o seu próprio eixo, horizontalmente ou verticalmente”. Porém, nada nos impede de sugerir para o desenhista (e o leitor) uma panorâmica com dois ou mais quadrinhos para atingir o mesmo objetivo.

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ACIMA, UM PANORAMA DE 1851 MOSTRANDO SÃO FRANCISCO DO BAIRRO DE RINCON HILL PELO FOTÓGRAFO MARTIN BEHRMANX.

PLANO DE CONJUNTO

O plano de conjunto serve para informar que há mais de um personagem na cena. Optei por não usar este identificador ficando com os planos de acordo com seu nível de profundidade.

ÂNGULO

São usados para dar a ilusão de movimento à história, mudando a visão do leitor na ação, como uma câmera que se movesse em torno dos personagens e ambientes.
Para uma correta definição do ângulo, podemos usar dois sub elementos: Lado e Altura.

CLASSIFICAÇÃO DO ÂNGULO QUANTO À ALTURA

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CLASSIFICAÇÃO DO ÂNGULO QUANTO À ALTURA

SUPERIOR ABSOLUTO

Também conhecido no cinema como “Zenital” ou “Plongê absoluto”. É quando fixamos a “câmera” no ponto mais alto da cena e apontando-a diretamente para baixo, o equivalente a um ângulo de 90 graus em relação ao chão.

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EXTERNA. DIA. PLANO MÉDIO SUPERIOR ABSOLUTO FECHADO MOSTRANDO ZOÉ DEITADA DELICADAMENTE EM UM LINDÍSSIMO JARDIM FLORIDO COM SEUS CABELOS ESPALHADOS POR ENTRE AS FLORES E COM UM SORRISO MEIGO, CHEIO DE AMOR EM SEUS OLHOS. UMA FELICIDADE DE AMAR E SER AMADA.

SUPERIOR

Também conhecida como no cinema como “Câmera Alta”, “Plongê” ou “Picado”. O Termo “Plongê” vem do francês plongée, que significa “mergulhado”. Quando usamos esta altura, queremos dizer que a visão do leitor é do alto, num ângulo equivalente a algo em torno de 45 graus mais ou menos em relação ao nível do chão. Esta medida não precisa ser exata pois a verdadeira intenção é mostrar a visão de cima sem, necessariamente, utilizar a mesma função que o SUPERIOR ABSOLUTO.
Este tipo de ângulo supostamente passa uma impressão de achatamento, inferioridade, solidão, perscrutação do ambiente/cenário.

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PLANO GERAL SUPERIOR LATERAL FECHADO MOSTRANDO DOIS POLICIAIS REVISTANDO FERNANDO E FABRÍCIO ENCOSTADOS NUMA PAREDE DENTRO DE UM DELEGACIA QUE MAIS PARECE UMA CASA.

NORMAL (OU REGULAR)

A visão da cena está situada numa altura equivalente à dos olho dos leitor. É a mais comum de todas e, quando não há menção no roteiro da altura utilizada para a cena, subtende-se que esta é a altura utilizada. Por proporcionar uma melhor visão dos personagens, ela ajuda a intensificar a atuação dos personagens e, consequentemente, o drama.

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PLANO AMERICANO FRONTAL (NORMAL) ABERTO MOSTRANDO O RAPAZ DO CARTAZ COM A BATA E DE BRAÇOS ABERTOS COM OS DIZERES “ABRAÇOS” NUMA LINHA E, NA OUTRA, “POR R$ 0,50”. ELE SE ENCONTRA NO MEIO DE UMA DESSAS RUAS LARGAS DE UM GRANDE CENTRO URBANO QUE SÃO CALÇADAS E SÓ PESSOAS PASSAM POR ELAS (NÃO CARROS) E CERCADO PELOS DOIS LADOS POR LOJAS DE COMÉRCIO DOS MAIS VARIADOS POSSÍVEIS (CALÇADOS, ROUPAS, MAGAZINES, ÓTICAS, BIJUTERIAS, LANCHONETES, ETC,ETC,ETC). AS PESSOAS DAS MAIS DIVERSAS ORIGENS PASSAM PARA LÁ E PARA CÁ ALHEIOS AO RAPAZ COM O CARTAZ.

INFERIOR

Também conhecida como no cinema como “Câmera baixa”, “contra-Plongê” ou “contra-Picado”. Este ângulo é o oposto do SUPERIOR, ou seja, quando usamos esta altura, queremos dizer que a visão do leitor é também num ângulo equivalente a algo em torno de 45 graus mais ou menos em relação ao nível do chão, só que de baixo para cima.
Este tipo de ângulo supostamente passa uma impressão contrária à do ângulo superior, ou seja, superioridade.

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PLANO AMERICANO LATERAL INFERIOR FECHADO NO CRÂNIO OLHANDO PARA FRENTE COMO A VER OS 3 BANDIDOS DESMAIADOS (QUE, OBVIAMENTE, NÃO APARECEM NA CENA).

INFERIOR ABSOLUTO

Também conhecido no cinema como “Contra-Zenital” ou “contra-Plongê absoluto”, este ângulo é o contrário do SUPERIOR ABSOLUTO, ou seja, é quando fixamos a “câmera” no chão e apontando-a diretamente para cima, formando o equivalente a um ângulo de 90 graus.

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EXEMPLO DE PLANO SUPERIOR ABSOLUTO

CLASSIFICAÇÃO DO ÂNGULO QUANTO AO LADO

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ANGULO-LADO-02
ANGULO-LADO-03
ANGULO-LADO-04
ANGULO-LADO-05

FOCO

Elemento criado para determinar se, em relação ao enquadramento descrito, o desenhista deve apresentar a cena com foco apenas no objeto principal observado (fechado) ou se o objeto em questão está disposto no centro de uma cena maior (aberto).

FOCO

MARCAÇÕES ESPECIAIS

Alguns enquadramentos podem ter características diferenciadas dos normais o que convém lhes dar uma marcação especial já no início de sua descrição. Isto prepara o ilustrador para uma melhor compreensão do resto da descrição da cena.

SPLASH PAGE

De acordo com Dennis O’Neil em seu Guia Oficial DC Comics Roteiros, Splash Page é “geralmente a primeira página, com uma ou duas imagens, incorporando o título, logotipo (se houver), créditos e outras informações desse tipo”. Normalmente, é a página de abertura ou introdução da história trazendo alguma cena importante, de contextualização ou de impacto dramático para o leitor. Apesar de reconhecer sua importância, sobretudo nos comics americanos, eu prefiro ignorar o termo e descrever o splah page como uma página de um único quadro.

SPLASH

EXEMPLOS DE SPLASH PAGES

VISÃO SUBJETIVA

Chamamos de visão subjetiva aquela na qual a cena é apresentada pelo ponto de vista direto de quem está executando a ação dando a impressão de que somos nós mesmos (no caso, o leitor) e não o personagem quem está agindo naquele momento.

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EXEMPLO DE VISÃO SUBJETIVA

MULTIMAGEM

Apresenta uma série de ações no mesmo quadro atribuídas, normalmente, a um mesmo personagem. A Mutimagem serve como uma espécie de “Câmera lenta” da ação do personagem.

MULTIMAGEM

EXEMPLO DE MULTIMAGEM

MODELO PADRÃO DESCRITIVO DE UM QUADRO

[EXTERNA/INTERNA]. [DIA/NOITE]. [MARCAÇÃO ESPECIAL]. [PLANO] [ÂNGULO: ALTURA+LADO] [FOCO: ABERTO/FECHADO] [DESCRIÇÃO DA CENA/PERSONAGENS]. [DETALHES ADICIONAIS]. [INCLUSÃO DE REFERÊNCIAS CRUZADAS DE IMAGENS DE APOIO (EM MEUS ROTEIROS NORMALMENTE UTILIZADAS NO APÊNDICE 1 – REFERÊNCIAS VISUAIS)]

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EXTERNA NOITE. GRANDE PLANO GERAL SUPERIOR FRONTAL ABERTO MOSTRANDO O PERSONAGEM CAMINHANDO PELAS RUAS VAZIAS DA CIDADE. ESTÁ CHOVENDO BASTANTE E O PERSONAGEM ESTÁ ABRIGANDO SUAS MÃOS EM SEUS BOLSOS TENTANDO DIMINUIR O FRIO QUE SENTE.

RESUMO

RESUMO

RESUMO DAS MARCAÇÕES PARA CONSTRUÇÃO DE UM ENQUADRAMENTO