Tipos de roteiros para hqs

Antes de começar a escrever seus roteiros, você precisa conhecer quais são os tipos de roteiros que existem para decidir qual deles usar e quando usar. Conhecer as principais características desses tipos de roteiros lhe dará subsídios para poder usar qualquer um deles quando a necessidade se apresentar. Os tipos de roteiros diferenciam-se, principalmente, pelos seus métodos de produção de uma HQ. A seguir, iremos estudar cada um deles o mais detalhadamente possível.

The Marvel Way

“Então Stan Lee desenvolveu o que chamamos hoje de Marvel-style [estilo Marvel]. Isso envolve primeiro separar a história em prosa, muito rusticamente, deixando para o artista interpretá-la, traduzi-la em quadrinhos desenhados.”

-Warren Ellis, Guia do Blefador para Digitar Histórias Com Poucas Palavras e Desenhos Grandes

Reza a lenda que o roteiro no estilo Marvel Way foi inventado por Stan Lee durante os idos dos anos 60 quando ele era responsável pelas funções de editor, letrista e roteirista de uma variedade de títulos mensais como, por exemplo, o quarteto fantástico, capitão América, hulk, Thor, homem-aranha e muitos outros.

Com tantas atribuições, era de se esperar que Stan Lee não pudesse escrever detalhadamente todos os roteiros de todos esses personagens. Dessa forma, para agilizar o processo de produção, Stan Lee esboçava a ideia central do roteiro numa espécie de argumento ampliado. Esse argumento não tinha marcações muito rígidas e, nem mesmo, o diálogo dos personagens. Ele apenas sugeria o que iria acontecer naquela história. Esse argumento era passado para o desenhista (que na maioria das vezes era o genial Jack Kirby) que desenvolvia a história numa narrativa sequencial apropriada. A história desenhada então retornava para Stan Lee que revisava, aprovava, redistribuía os quadrinhos de uma forma mais apropriada quando julgava necessário, solicitava correções e, quando tudo estava perfeito, ele legendava a HQ criando, neste momento, os diálogos que os personagens iriam travar.

Como você já deve ter percebido, nesse método de trabalho o esforço maior recai sobre o desenhista que tem que interpretar (e, algumas vezes, até mesmo adivinhar) o que o roteirista desejava, criar uma narrativa visual lógica e refazer o trabalho quando não acertava o que o roteirista pretendia mostrar. Já para o roteirista, este método permite uma maior velocidade de produção e uma abstração quanto à narrativa e, consequentemente, menos trabalho. O maior problema com esse tipo de roteiro é que o roteirista coloca muita responsabilidade nos ombros do desenhista e isso já gerou, até mesmo, problemas do tipo que o desenhista exigiu ser creditado como co-roteirista da história. Foi o caso do próprio Jack Kirby que alegava ter contribuído consideravelmente para que as histórias que desenhou terem feito tanto sucesso inclusive, melhorando algumas ideias do próprio Stan Lee. Confusão semelhante também fez com que John Byrne passasse a aparecer como co-autor nas histórias dos X-men escritas por Chris Claremont.

Um outro problema com o Marvel Way é que nem sempre você vai poder contar com um gênio da narrativa visual como Jack Kirby para dar vida ao que você imaginou. A maioria dos desenhistas precisam de definições explícitas de qual caminho seguir e de que elementos usar. Quando você diz, por exemplo, que o personagem está preso pelos pulsos, o desenhista pode travar querendo saber se ele está preso por algemas, correntes, cordas ou outra coisa do gênero.

Por tudo isso, você deve usar o tipo de roteiro Marvel Way se você tiver quer desenvolver um trabalho realmente rápido e não esteja tão preocupado quanto ao resultado final que será dado pelo desenhista, uma vez que ele será tão autor da mesma quanto você. Ou então, se você realmente trabalha num processo de parceria que não dá para identificar onde o trabalho de um começa e o do outro termina. Mas, se você quiser ter um pouco mais de controle sobre a sua história, se quiser poder delinear melhor a personalidade de seus personagens ou se simplesmente quer fazer um trabalho o mais bem feito o quanto possível, o Marvel Way deve ser evitado.

Laiautado

O roteiro layoutado é aquele tipo de roteiro que, ao invés de descrever as cenas, o roteirista esboça um rascunho das mesmas. Neste tipo de roteiro, pode-se dizer que o roteirista tem total domínio sobre a história pois ele não só identifica o que deseja na cena: ele mostra exatamente o que quer e como quer.

Este tipo de roteiro deixa pouca ou nenhuma liberdade criativa para o desenhista que, às vezes, pode imaginar a disposição dos elementos descritos pelo roteirista de uma forma mais dinâmica e excitante que o roteirista sequer poderia imaginar agregando ainda mais valor ao trabalho do roteirista.

Embora não seja um requisito obrigatório, o roteiro layoutado também demanda do roteirista algum tipo de conhecimento básico sobre desenho (como perspectiva, luz e sombra e, até mesmo, conceitos básicos para construção de formas pouco convencionais como naves espaciais e animais mitológicos) de forma a facilitar seu trabalho ao passar ao desenhista o que você deseja que ele faça. Quanto menor sua habilidade nos desenhos, mais você vai ter necessidade de descrever detalhes da cena fazendo-o se aproximar do roteiro do tipo full script. Quanto maior sua habilidade neste quesito, mais o roteirista tem domínio sobre a narrativa de sua história.

karvey pekar

Roteiro e página pronta da hq Harvey Pekar encontra o Coisa, escrita por Harvey Pekar com arte de Ty Templeton

Roteiro Layouado de Beraldi para ken Parker

Roteiro e página desenhada da hq Horas de Angústias escrita por Giancarlo Berardi com arte de Ivo Milazzo

 

Full Script

O roteiro  do tipo Full Script é considerado como um mais profissionais e adotado pela maioria dos roteiristas de quadrinhos. O Full Script (ou roteiro completo) apresenta de forma textual todas as marcações de página e quadros, a descrição detalhada de cada cena e os textos ou falas dos personagens. Em linhas gerais, o full script é um guia detalhado de tudo o que o roteirista quer apresentar ao leitor e a forma que ele quer apresentar para que o desenhista tente seguir o mais fielmente o quanto for possível este guia na hora de produzir os desenhos.

“Páginas de quadrinhos contém toda informação visual e verbal que irá aparecer numa determinada página na revista impressa”

-Dennis O’neil, Guia oficial DC Comics – Roteiros

Os principais elementos que compõem o full script e que se repetem-se a cada quadro, são:

 Marcações: Textos que informam qual a página e qual o quadro que está sendo  descrito.

Descrição do quadro: Cada página é composta por um ou mais quadros. cada quadro possui uma descrição do que o leitor deve ver (ou o que o desenhista deve ilustrar). A descrição do quadro (Que também é chamada de descrição da cena mesmo que a cena em si se desenrole em vários quadros) pode inclui informações como planos e ângulos, descrição do cenário, dos personagens que são observados dentro deste cenário e, até mesmo, detalhes relacionados às suas personalidades ou estados emocionais. A descrição do quadro ainda permite que o roteirista informe ao desenhista comentários de cunho pessoal a respeito da cena em si.

Textos ou falas dos personagens: Nesta área, o roteirista informa os textos,as falas dos personagens, as onomatopeias e qualquer outro elemento textual que deve aparecer no quadro. Entre o que chamamos de textos, podemos colocar indicadores de passagem de tempo (“Alguns dias depois…”), de lugar (“Enquanto isto, na sala de justiça”) , etc. Em relação à fala dos personagens, podemos citar como exemplos não só o balão de fala, mas também, todos os balões que refletem a voz do personagem (balão de pensamento, de grito, de sussurro, etc.) como também as vozes narrativas da história (Sejam elas dos próprios personagens ou de um narrador oculto). Por fim, além das onomatopeias, elementos textuais como título da história, crédito dos autores e qualquer outro elemento textual também são mencionados aqui.

EXEMPLO:

Elementos básicos do Roteiro Full Script

No artigo que escrevi sobre enquadramento de hqs, eu explodo e detalho exaustivamente cada um e todos os elementos individuais que compõem um quadro de roteiro para quadrinhos.

O full script permite que o roteirista dite o ritmo da história que deseja contar ao lhe oferecer o controle total sobre a narrativa visual. Apesar disto, este controle é apenas teórico: o desenhista pode escolher fugir aqui e ali desta direção por sua própria conta e risco. Nas mãos de um desenhista competente e sensível, o resultado pode até ser para o melhor, mas, em muitos casos, pode acontecer o desvirtuamento total do que foi planejado pelo roteirista.

O full script para quadrinhos se aproxima dos scripts para o cinema, mas mantém algumas peculiaridades que o faz mais completo e complexo do que o seu irmão da sétima arte. Enquanto o full script se preocupa com planos e ângulos de visão e, até mesmo com a posição dos personagens dentro da cena, o script do cinema limita-se, na maioria das vezes, a simplesmente passar informações básicas da cena em que se encontram os personagens e descrever suas as falas.

Embora este tipo de roteiro tenha suas amarrações básicas, elas tendem a se adequarem ao desígnios de cada roteirista de forma bastante pessoal. Há escritores que não usam ou usam muito pouco ângulos e planos na descrição de um quadro e há escritores que ocupam mais de uma folha com detalhes a respeito de uma única cena. Da mesma forma, há roteiristas que são mais técnicos na descrição das cenas e outros mais naturais (Quase como se estivesse conversando com você e não lhe ditando marcações).

Se você está começando, uma boa sugestão é o Modelo De Roteiro Para Quadrinhos Versão 2.0 que eu preparei para mim mesmo e que disponibilizei no meu site.

O importante é entender que o full script lhe oferece mais controle sobre o seu trabalho e sobre a história que você pretende contar. E você pode utilizar de todo este controle ou abrir mão dele de acordo com a forma como escreve.

Para ver exemplos de roteiros no estilo full script, veja: JASON AARON – ESCALPO 35 – PÁGINA 6

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