Tudo sobre personagens

Personagens

Os personagens são as pessoas, animais, objetos ou qualquer coisa que o autor inventar que sirva com um agente ao redor da qual a história se desenrola e podem ter nome e personalidade (Sobre o qual falaremos um pouco mais adiante). A palavra personagem deriva de “persona” que, no teatro grego, era o nome dado ao orifício ao redor da boca das máscaras por onde os atores representavam, pelo som (per+sona) de sua voz, uma personagem.

Tipos de Personagens

Conhecer os tipos de personagens ajudam o escritor a saber onde está e para onde quer ir com suas criações e a dar a dimensão exata desejada pelo autor a cada um destes personagens em suas histórias. Os personagens podem ser classificados quanto à importância dentro da trama, e quanto à sua existência e quanto à sua Dimensão. Além disso, os personagens podem ser agrupados também em dois grandes grupos: Arquétipos e estereótipos. Veremos todos esses tipos a seguir

Quanto à importância

Protagonista é o principal personagem da história e em torno do qual, todas as ações giram ou se refletem. Em alguns casos, pode haver mais de um protagonista na mesma história.

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Exemplo de protagonistas: Super-homem, Batman, Harry Porter, Mônica e Cebolinha, Tin Tin.

 

Co-Protagonista é o segundo personagem mais importante da história. Embora a história não gire exatamente em torno dele, ele exerce uma função muito importante ao dividir as histórias como personagem principal, desenvolvendo-as ou ajudando o protagonista na resolução de seus problemas. Alguns co-protagonistas nasceram como coadjuvantes mas no decorrer de suas histórias cresceram tanto que acabaram se tornando co-protagonistas.

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Exemplos de co-protagonistas: Lois Lane, Hermione e Ron Weasley, Magali e Cascão, capitão Haddock

 

Antagonista é o personagem, objeto, ou fato que cria dificuldades para que o protagonista alcance seus objetivos.

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Exemplos de antagonistas: Lex Luthor, Voldemort, capitão feio, problemas naturais, financeiros, físicos, culturais.

 

Oponentes são os amigos/colaboradores do antagonista. O oponente está para o antagonista da mesma forma que o coadjuvante está para o protagonista.

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Exemplos de oponentes: Otis (Ajudante de Lex Luthor no filme de Superman de 1979) Draco Malfoy, Seres dos esgotos (Ajudantes do capitão feio).

 

Coadjuvantes têm como função ajudar o protagonista a compartilhar ou resolver seus problemas e fazê-lo alcançar seus objetivos. Na maioria das vezes tem amizade ou parentesco com o mesmo. Quando a história gira em torno do coadjuvante, ele se torna o protagonista daquela história.

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Exemplos de coadjuvantes: Jimmy Olsen, Alfred (Mordomo de Batman), Dumbledore.

 

Figurantes têm como sua única função a de preencher o espaço social no desenrolar da trama.

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Exemplos de figurantes: Pessoas andando na rua, sentados num restaurante, corredores numa maratona, multidão num show.

 

Quanto à existência

Reais ou históricos são personagens baseados em seres humanos reais. São utilizadas em biografias, obras históricas ou jornalísticas.

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Exemplos de personagens reais ou históricos: Gandhi, Getúlio Vargas, J. F. Kennedy

 

Fictícios ou ficcionais são personagens que foram inventados pelo autor mesmo que ele tenha usado alguma pessoa real como inspiração para seu personagem.

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Exemplo de personagens fictícios: Homem-Aranha, Corto Maltese, Drácula, Robin Hood.

 

Reais-ficcionais são personagens que, embora sejam reais, não temos como saber com certeza como eles eram e, dessa forma, criamos uma personalidade fictícia para eles baseado em informações.

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Exemplo de personagens reais-ficcionais:Rei Arthur, Ben-Hur;

 

Ficcionais-ficcionais são personagens ficcionais criados dentro de obras já ficcionais. Normalmente são criados para contar uma história paralela à que está sendo contada ou para expor nuances da personalidade do personagem principal.

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Exemplo de personagens ficcionais-ficcionais: Contos do cargueiro negro (Watchmen), Macaco chorão (Promethea).

 

Ficcionais-reais São personagens ficcionais que passaram a existir no mundo real. Normalmente são interpretados por atores que inserem seu personagem no mundo real para interação com outros seres humanos sem que estes saibam que se trata de um personagem fictício. Muito usados em “pegadinhas”.

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Exemplo de personagem ficcionais-reais: Borat

 

Quanto à sua dimensão

Por fim, temos o que, na minha opinião, é a classificação mais importante: Personagens quanto à sua dimensão.

Planos ou lineares: São personagens que possuem uma única característica e jamais fogem dela. Ou são bons, ou são maus, ou são cômicos e assim por diante. Esse tipo de personagem, embora careça de mais profundidade em sua personalidade e sejam bastante previsíveis no seu modus operandi, são mais comuns do que parecem e constituem a maioria dos personagens criados. Dependendo do tipo de trabalho no qual são aplicados, são considerados pobres e repetitivos. Dessa forma, em algumas histórias infantis, de humor, ou até mesmo de terror, esse tipo de personagem cumpre bem seu papel por facilitar a compreensão dos leitores quanto aos seus objetivos dentro da história. Porém, se você pensa em criar histórias e personagens duradouros, deve considerar seriamente em multiplicar sua dimensão e complexidade.

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Exemplos de personagens planos: Mônica.

 

Bidimensionais: São personagens ligeiramente mais evoluídos que os lineares pois possuem duas características ou objetivos principais. Este tipo de personagem, foi amplamente utilizado por Stan Lee, criador da maioria dos personagens da Marvel Comics. Esse tipo de personagem pode ser, ao mesmo tempo, um vilão cruel e um bom pai de família, ou então um herói egoísta. Os personagens bidimensionais dão uma ilusão de profundidade, porém não fogem muito de suas personalidades básicas.

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Exemplos de personagens bidimensionais: Batman, capitão América.

 

Circulares, redondas ou tridimensionais: Esses tipos de personagens são considerados os mais complexos de se criar pois eles apresentam tantas nuances em suas personalidades quanto uma pessoa real. Elas podem sentir e demonstrar, ao mesmo tempo, coragem, medo, egoísmo, bondade, insegurança, etc.. O maior exemplo desse tipo de personagem é Hamlet, da obra homônima de William Shakespeare. O personagem, apesar de sua alma pura e bondosa, durante sua luta por vingança, experimenta dúvidas, maltrata pessoas amadas e chega a ser capaz de matar. Os personagens circulares tornam-se mais completos e realistas dando-lhes mais credibilidade. Obviamente, numa história, nem todos os personagens precisam ser tão completos e você pode se esforçar para aplicar essa dimensão apenas nos personagens que exercem algum papel importante na história.

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Exemplos de personagens Circulares: Hamlet, Rorschach (watchmen).

 

Arquétipos e estereótipos

Os personagens ainda podem se inserir também em um dos dois grandes grupos que são identificados pelos traços mais característicos de suas personalidades.

Quando é necessário usar uma imagem para definir e, ao mesmo tempo, limitar uma pessoa ou um grupo de pessoas dentro da sociedade, usamos os estereótipos. Os estereótipos são imagens preconcebidas, de ampla aceitação na sociedade e culturalmente difundida. Elas condicionam comportamentos, formas de falar, pensar, vestir e definem modas e tendências. Essas imagens nem sempre refletem verdadeiramente uma pessoa, mesmo que ela pareça pertencer a esse grupo pois os seres humanos são bem mais complexos do que o que pode ser expresso através de um simples rótulo. São exemplos de estereótipos: A mulher rica e fútil, o homem de negócios ganancioso, o carioca malandro.

A utilização do estereótipo limita demais os seus personagens e não permitem que eles se desenvolvam. Por que eu não posso ter uma mulher rica que decide usar parte de seu dinheiro e seus esforços em ajudar populações pobres? Por que o homem de negócios não pode sofrer depressão das decisões cruéis que tem de tomar dia-a-dia pelo crescimento da empresa? Por que não podemos ter um carioca ingênuo perdido numa cidade grande como São Paulo? Como você pode perceber, os personagens podem muito mais do que os seus estereótipos podem oferecer. É óbvio que há algumas histórias onde pode-se utilizar personagens estereotipados, mas ao trabalhar com personagens importantes na sua história tente observar se eles não estão carregando essas características pois elas os empobrecem.

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Exemplos de esteriótipos:Povo americano e povo francês..

Segundo o psicólogo e psicanalista Carl G. Jung, “O conceito de arquétipo, que constitui um correlato indispensável da ideia do inconsciente coletivo, indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar”. Isto significa que, independentemente do tempo e lugar (cultura), existem símbolos comuns presentes que servem de base para a psique de qualquer pessoa. E estes símbolos recebem o nome de arquétipos.

Portanto, ao utilizar os arquétipos em sua história você está, automaticamente, conectando-se com imagens enraizadas no inconsciente do leitor. São exemplos de arquétipos comuns o pai, a mãe, o marido, a esposa, a amante. Nos quadrinhos, alguns dos arquétipos mais usados são: O herói, o guardião, a sombra, o pícaro.

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Exemplos de arquétipos dos personagens dentro da série LOST

Criando seu personagem

Uma vez que já sabemos quais os tipos de personagens que existem, o próximo passo seria criar (Ou refinar) seu personagem. Desde o início, é preciso encarar o seu personagem como uma pessoa tão real quanto você e eu. Por isso, quanto mais informações você puder fornecer a respeito de seu personagem, mais completo e interessante ele vai se tornar. Não se preocupe se algumas (Ou boa parte) dessas informações nunca aparecer em suas histórias. Elas não estão sendo colocadas para que você possa escrever em sua história que ele gosta de assistir desenhos animados dos anos 80, mas para que você possa ter subsídios o suficiente para que seu personagem possa agir ou tomar decisões baseadas nessas informações. Dessa forma, se em alguma história você precisar mostrar seu personagem assistindo televisão, você saberá imediatamente em que programas ele estará assistindo.

A forma mais fácil para que roteiristas, principiantes ou experientes, possam conhecer melhor seu próprio personagem e amarrarem sua consistência, é através de uma FICHA DE PERSONAGEM onde são listados todos os atributos físicos, personalidade, passado e outras informações pertinentes.

Não devemos subestimar a importância da Ficha do Personagem. Porém, da mesma forma, não devemos lhe atribuir uma importância religiosa e intocável a mesma. Se na ficha de seu personagem diz que ele adora as jujubas vermelhas, nada o impede de, um dia, querer provar uma jujuba amarela. As fichas dos personagens são linhas-mestras que o ajudarão a dar mais consistência ao seu personagem e, também, a mantê-lo coeso toda vez que você quiser se afastar das coisas que estão contidas nela.

A Ficha do personagem é tão completa e extensa o quanto você julgar necessária. Eu, particularmente, gosto de uma ficha rápida com as seguintes informações (embora, dependendo da história, nem todos os itens abaixo são necessários):

  • Nome do personagem: nome e alter ego do personagem (se tiver);
  • Características pessoais/Perfil psicológico: O que se passa na sua cabeça, se ele é uma pessoa boa ou má, egoísta ou solidário;
  • Perfil físico: características pessoais como idade, cor da pele, corte do cabelo, aparência em geral.
  • Passado/Histórico: Quais os fatos importantes que devem ser considerados como fator determinante na personalidade do personagem;
  • Motivações: O que motiva o personagem em suas ações e tomadas de decisões.
  • Curiosidades: Outras informações interessantes;

Exemplo de uma ficha rápida como a sugerida acima.

 ATRIBUTO  INFORMAÇÃO
Nome  Fernando Drummond Pessoa / F.D.P.
 Características Pessoais/Perfil Psicológico  Anti-Herói. Justo, mas não honesto; não é covarde, mas também não se arrisca voluntariamente, perseverante, decidido, inteligente, cáustico, inseguro, alcoólatra, excessivamente curioso!
 Perfil Físico  Cabelos negros, malcuidados, geralmente desgrenhados (ele não liga muito para a própria aparência), porte meio magro, mas ligeiramente forte. Barba geralmente por fazer, olhos castanhos. Idade: 28 anos.
 Passado  Quando tinha 18 anos, Fernando se envolveu com uma mulher e, mesmo sem casar, teve uma filha. Embora ainda nenhuma das duas tenham sido mencionadas na série, um acontecimento terrível com elas mudou de vez a personalidade de Fernando fazendo-o percorrer um caminho cada vez mais autodestrutivo.
 Motivações  Fernando possui essa teimosia desenfreada e um instinto autodestrutivo que o motiva a seguir adiante mesmo nas situações mais perigosas.
 Curiosidades  O Sobrenome de seu pai é Drummond e ele gostava muito do poeta Fernando Pessoa. Ele poderia ter batizado o filho de Fernando Pessoa Drummond para homenagear o poeta mas resolveu batizar o filho de Fernando Drummond Pessoa (Daí o acrônimo da série F.D.P.).  A mãe de Fernando insiste em dizer que não foi de propósito e seu pai (hoje, falecido), nem negava nem confirmava. Apenas sorria cinicamente. O fato é que Fernando considera a escolha de seu nome uma grandessíssima sacanagem que seu pai lhe aprontou.

Exemplo de uma Ficha de personagem mais detalhada. Fonte: Guión de Cómic.

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Não importa se você usa ou não uma ficha de personagens ou qual completa ela é. No final das contas, o que importa é que você saiba responder a seguinte questão: Por que o personagem age ou é assim? Se você puder responder a essa questão com segurança, então você saberá quais os caminhos que seu personagem irá seguir.

Um fato interessante a se notar é que os personagens, uma vez criados, passam a ter vida própria. Ou seja, não cabe mais a você decidir o que eles vão fazer mas aprender a escutá-los e compreender a natureza deles e perceber qual a escolha que eles fariam. Eu sei que parece uma história de louco, mas o que isso quer dizer é que os personagens devem agir de acordo com suas personalidades e experiências passadas e não baseado apenas no que o escritor julgar condizente. A saudosa Zélia Gatai, escritora nacional do livro “Anarquistas graças a Deus” e esposa do igualmente saudoso Jorge Amado conta que, certa vez perguntou ao escritor de “Dona Flor e seus dois maridos” o que ela deveria fazer com certos personagens. Jorge Amado a olhou seriamente e disse: “Não se meta na vida dos seus personagens!”.

Portanto, se um personagem é um ser vivo, ainda que precise de um autor para interpretá-lo, nós precisamos ultrapassar nossas barreiras e convenções morais, culturais, religiosas e sociais para melhor compreendê-los e, com isso, acrescentar-lhe verossimilhança em suas ações. E essa compreensão vem, uma vez mais, de uma observação realmente apurada de pessoas com as mesmas características que o seu personagem. Por exemplo, se você precisa escrever sobre um cobrador de ônibus, comece a observá-lo e anotar suas nuances, seus cacoetes, sua forma de trabalhar. Tudo isso enriquece seu personagem e o torna mais verossímil.

Uma outra forma de compreender melhor seu personagem é através da interpretação. Você mesmo pode fazer o papel de uma mulher fragilizada e tentar perceber como ela agiria diante de alguma situação que você queira colocá-la. É por isso que um escritor homem deve pensar e agir como uma mulher para que possa escrever uma mulher que não se assemelhe a uma versão feminina de um homem. Essas duas técnicas para melhorar a verossimilhança são emprestadas do teatro, mas são de grande ajuda para o roteirista.

Uma última questão a respeito da verossimilhança é que um escritor não pode fugir do enfrentamento que é se deparar com temas que não lhe sejam confortáveis. É o caso de entender a fundo o mundo de seus personagens fanáticos religiosos, psicopatas, desonestos, pervertidos, sádicos e quaisquer outros que possam, porventura, lhe incomodar. Escrever é, antes de tudo, uma prova de coragem e determinação para ir onde muitos não têm coragem.