Capítulo 7 – Athena

Desde que começou a sentir conscientemente o que é dor e medo, não tem um só dia em que Athena não sinta uma sombra perseguindo-a para lhe causar mal.

O sol cobria a imensidão celeste banhando de energia vital a flora que crescia abundantemente ao redor das antigas construções que outrora foram algo magnânimo de se ver, mas, agora, eram apenas frágeis cavernas abandonadas pelos homens.

Athena e Helena cavalgavam a passos lentos pela cidade deserta fazendo um reconhecimento cuidadoso, mas, também, à procura de raízes e plantas comestíveis ou algo deixado pelos “antigos” que pudesse ter alguma serventia para elas ou suas companheiras que aguardavam há poucos quilômetros dali, num acampamento temporário.

Tudo e nada era bem-vindo e muitas vezes restaurado e usado fora de seu propósito original.  Os cabos de telefonia eram usados como cordas, mas os poucos pratos encontrados intactos eram cobiçados e mais apreciados para se comer do que os feitos de madeira ou metal amassado. Por alguma razão, mesmo com a escassez de recursos, alimentar-se, sempre que possível, acabava se transformando num ritual que transcendia o puro e simples desejo de manter-se vivo.

Athena seguia concentrada em encontrar algo para se mostrar mais útil do que ela realmente se sentia dentro daquele grupo de mulheres extraordinárias. Todas eram tão fortes, decididas, impetuosas. Enquanto a pobre Athena era frágil, assustada e insegura. Queria ser diferente do que é, mas não conseguia. E isto a deixava frustrada e se perguntando se ela tinha o direito de estar ali entre aquelas bravas guerreiras.

-Você parece preocupada, Athena! – Perguntou-lhe Helena.

-Hã? o quê? – Retrucou Athena ainda alheia ao que lhe fora perguntado.

-E distraída, também! O que está havendo? Você parece estar a milhas de distância daqui?

-Não é nada, Helena!

-Ora, vamos! Você sabe que pode se abrir comigo, não sbe? Somos irmãs de armas, agora!

Athena hesitou por alguns segundos, mas rendeu-se a necessidade de colocar para fora aquela angústia que estava engasgada em sua garganta. Respirou fundo e começou a expor seu caso:

-Eu realmente agradeço por vocês terem me salvo! Por terem me dado abrigo e alimento, por estarem me ensinando coisas e a cuidar de mim mesma! E também pelo carinho e atenção que tenho recebido de todas!

-Eu sinto que um grande “mas” vem chegando por aí… – Brincou Helena.

-Pois é…eu sinto que não mereço toda essa atenção. Todo este investimento de tempo!

-E por que não?

-Eu não tenho nada a oferecer a este grupo: Não sou forte, não sou inteligente e não sei lutar.

-A força vem de dentro, a inteligência é só um outro nome para a experiência e ela  vem com o tempo e, por fim, não é preciso saber lutar, mas quando lutar! Não estamos juntas por interesses nas habilidades umas das outras, Athena! Estamos juntas porque o mundo se tornou um lugar muito cruel para as mulheres e, quem sabe assim, unidas, conseguiremos fazer deste mundo um lugar melhor!

-Mas eu tenho medo.

-Medo de quê?

-De quando vocês realmente precisarem de mim, eu não esteja preparada para ajudá-las!

-Você gostaria realmente de nos ajudar?

-Sim!

-Então, quando a hora chegar, quando for realmente preciso, você estará pronta!

Athena sentiu as forças das palavras de Helena e aquilo lhe deu uma energia, uma vibração tão positiva que, naquele momento, ela seria capaz de lutar contra um exército inteiro para defender suas irmãs. Estava feliz. Uma felicidade completa, ainda que, mesmo sem que ela soubesse, tão frágil quanto o casulo que envolve uma lagarta em transformação.

As Novas Amazonas [Athena] por Leandro Silva

As Novas Amazonas [Athena] por Leo Silva

Após dobrar uma esquina, avistaram, em meio às ruas e através dos prédios destroçados da cidade, algumas dezenas de contêineres. Elas não poderiam saber, mas aqueles imensos blocos de metal foram arrastados das docas de algum porto por quilômetros de distâncias através das forças dos maremotos que mudaram a face do mundo no dia do apocalipse climático que se abateu sobre a terra. Mas, de uma coisa Helena sabia por experiência anterior: existia a possibilidade de ainda haver algo dentro de algum daqueles reservatórios.

Os contêineres formavam uma espécie de labirinto irregular. Alguns mais à frente estavam abertos e vazios, mas ainda se podia ver um ou outro aparentemente fechado. Por isso, após alguns segundos refletindo,  Helena falou para a sua jovem aprendiz:

-Estas caixas de metal podem guardar coisas que podem nos ser úteis para uso ou para troca!

-Como o quê, por exemplo? -Indagou Athena.

-Roupas, sapatos, armas! Pode ter qualquer coisa! A Zoe me falou uma vez que era por meio deste tipo de caixa que os antigos carregavam as coisas para lá e para cá através de todo o mundo!

-Nossa! Mas e agora? o que a gente faz? Falta pouco para escurecer e tem muita caixa aqui para cobrir!

-Vamos nos separar e procurar! Se tiver alguma ainda lacrada pode ser que a gente tire a sorte grande!

-Mas não é perigoso?

-Estar vivo se tornou extremamente perigoso, Athena!

E assim, as duas amazonas seguiram por caminhos diferentes a procura de alguma coisa de serventia em algum contêiner ainda improvavelmente lacrado.

Athena seguia por entre as vielas formadas pelo alinhamento caótico dos grandes repositórios de metal que pareciam estar de bocas abertas e regurgitando pequenos objetos inúteis abandonados por pessoas que estiveram ali antes dela. Eram brinquedos, aparelhos de DVD, celulares e diversos outros tipos de objetos e aparelhos eletrônicos, todos cobertos de musgo e destroçados pelo tempo, deixados para trás.

Uma coisa que lhe chamou a atenção foram filmes em blu-ray com as capas desbotadas e amolecidas pelo sol e chuva. Apesar do estrago, ainda podia se ver a imagem em alguns deles. Uma delas atraiu a sua curiosidade: a de uma belíssima mulher, vestida de preto, coberta de jóias e segurando uma cigarrilha diante de uma refinada mesa de jantar. Se soubesse ler, Athena poderia entender que os signos sobre a mulher diziam: “Audrey Hepburn”, “George Peppard” e “Bonequinha de luxo”.

A pele imaculada, o corpo magro e esguio, o semblante que carregava uma felicidade despreocupada de que não haveria ninguém no mundo capaz de ameaçá-la, o repouso tranquilo para saborear uma refeição com elegância e tempo. Sua mente divagou através do questionamento de como seria possível que algum dia tivesse havido uma paz e ordem neste mundo capaz de permitir que uma mulher como aquela da imagem pudesse ter feito tudo isto.

As primeiras lembranças que Athena tem de si própria foi a de se esconder em cavernas com medo dos “homens maus”. Era assim que o seu pai chamava os saqueadores, os estupradores e assassinos que rondavam a região sempre à procura de tomar algo dos que lhe fosse mais fracos.

Athena vivia de se esconder e de fugir. Nunca ficava tempo demais em nenhum lugar e sempre estava carregando dentro de si o medo de ser pega. Viajava sozinha com seu pai e, apesar da apreensão que se imprimia em cada passo que davam, tiveram mais sorte do que azar. Algumas vezes seu pai a escondia e sofria resoluto as humilhações e as dores infligidas por estes selvagens. Outras vezes, quando não tinha sorte, era ela quem sofria a humilhação enquanto seu pai era obrigado a assistir tudo calado, apenas com as lágrimas para servir de obstrução à visão dantesca de ver sua filha sofrer na mão de pessoas sem coração. Independente de qual fosse o caso, uma coisa sempre era uma constante: jamais enfrentar seus inimigos.

-A vida é terrível, minha filha! Mas a morte é pior! – Dizia seu pai.

E assim, Athena e seu pai foram contando com a resolução e a sorte para ir escapando das agruras deste novo mundo.

Até que um dia, a sorte acabou.

Seu pai foi morto a sangue frio, mesmo tendo entregue o pouco que tinha a um grupo de ladrões nômades. Mesmo tendo sofrido tanto através dos anos, o choque de perder seu pai para sempre fez com que ela emitisse um grito de dor que acabou denunciando seu esconderijo. Retomando o pouco da consciência que tinha, pesou as duas opções que lhe restava: lutar ou fugir. E, em sua fuga alucinada, caiu nos braços daquelas guerreiras incríveis que subverteram tudo o que seu pai lhe ensinara até então e lhe mostraram que, sim, é possível lutar contra as mazelas do destino e, principalmente, contra os homens.

Foi quando um barulho tirou-a de seu transe nostálgico.

Eram vozes. Uma delas parecia ser a de Helena. Mas haviam outras. Vozes masculinas. Aquilo gelou o sangue de Athena. Ela ficou paralisada. Continuou prestando atenção nos sons sem ainda saber exatamente o que fazer: se seguir em direção ao sons das vozes ou se esconder.

De repente, escutou um assobio rápido e um grito grave de dor. Helena atacara com sua espada e ferira alguém. Porém, logo em seguida, escutou um som de uma batida forte e o grito de Helena. Desta vez, ela é quem fora atingida.

Abandonando todas as suas incertezas e medos, Athena pôs-se a correr sendo guiada pelos sons que os homens ainda emitem. Pareciam conversar sobre o que fazer com Helena. Athena chegou no momento exato em que um dos homens estava arriando as calças para se aproveitar da mulher inconsciente. Isto causou uma certa surpresa no grupo de 4 homens. Um deles estava caído no chão, segurando as entranhas depois do golpe de Helena.

Athena parecia estar agora em outro tipo de transe. Não pensava mais em si, não sentia mais medo, não estava mais preocupada. Seus olhos analisaram rapidamente a situação e seu corpo começou a avançar em direção aos homens que mais lhe ofereciam ameaça naquele instante.

Eles estavam com armas rudimentares como pedaço de paus e facas artesanais. Também não eram de grande constituição física. Eram os ratos dentre os ratos que eram os homens. A única forma deles terem conseguido abater Helena foi se um deles a pegou de surpresa por trás. Mas, naquele momento, Athena não pensava em nada disso. Tudo o que ela pensava era em tentar antever os movimentos de seus inimigos para desferir os seus.

Com sua lança longa conseguiu furar o pescoço do primeiro homem que estava mais próximo dela que parecia incrédulo com a rapidez e precisão da pequena garota. Enquanto o homem ia caindo, Athena escalou seu corpo com passos ligeiros, retirou a lança do pescoço do homem e, antes dele cair no chão como uma madeira morta, ela já estava arremessando sua lança no segundo homem que vinha em sua direção, cravando a arma em seu peito e fazendo-o recuar como se tivesse levado um coice.

O terceiro homem – que estava de calças arriadas – conseguiu subir suas vestes enquanto Athena dava cabo dos seus dois parceiros e partiu para cima da garota com um facão feito de um pedaço de metal polido. Ele desferiu um golpe na linha do horizonte, mas não conseguiu acertar a pequena garota que esquivou-se para baixo deslizando por entre as pernas do homem e indo parar perto de sua lança incrustada no peito de um dos algozes.

Athena removeu a lança do peito do segundo morto e voltou-se para o terceiro. Eles começaram uma luta onde tentavam esquivar-se e acertar um golpe em seu oponente.

A luta demorou algum tempo. Mais tempo do que Athena esperava que ela durasse. Já não tinha o fator surpresa ao seu lado e o homem parecia mais forte e ágil que os seus dois primeiros oponentes. Ela começou a ficar preocupada de que talvez não fosse capaz de vencer aquela luta e que seu destino seria uma vez mais a humilhação e, quem sabe até, a morte.

E, quando a dúvida entrou em seu pensamento, o selvagem visualizou uma brecha e  acertou um chute tão forte na barriga de Athena que ela voou alguns metros e caiu no chão com dificuldades de respirar. A dor era imensa, a falta de ar lhe desesperava e, para piorar, sua lança havia sido jogada longe dela.

O homem se aproximou dela satisfeito consigo mesmo. Não havia mais o que fazer. Agora era só esperar para saber qual seria o seu destino: a violação ou a morte.

Athena se encolhia, tentando, sem sucesso, recuar. A dor não lhe permitia esboçar mais nenhuma reação.

Era o fim.

Foi quando, ainda sem entender muito bem o que estava acontecendo, Athena escutou um novo assobio. Em seguida, sem saber explicar ainda como, o pescoço do seu adversário ficou pintado com uma linha de vermelho. O olhar dele parecia perdido, desnorteado. Por fim, a cabeça dele tombou para o lado e caiu no chão. Seu corpo caiu ajoelhado diante de Athena e o sangue que jorrava de seu pescoço com cabeça ausente choveu sobre a pequena garota de pele marrom.

Enquanto recuperava a sua respiração normal, em meio ao salpicar abundante de sangue, Athena viu Helena de pé, segurando sua espada na pose exata de quem acabou de desferir um golpe. Ela parecia ainda congelada, totalmente concentrada na ação que acabara de executar.

Naquele momento, o olhar de Helena encontrou-se com o de Athena. Ela permitiu-se relaxar um pouco e um sorriso misturado com dor brotou em seus lábios. Por fim, ela falou para a sua jovem pupila:

-Eu não disse que você estaria pronta?

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