O Jardim

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“Garden in May” de Maria Oakey Dewing

 

Hoje foi um dia normal: varri a casa, coloquei as roupas na máquina de lavar e pensei em me matar.

Alberto saiu cedo, como de costume, e nós quase não nos falamos. Um “bom dia” pra cá, outro “dia” de lá e, depois, “comida no bucho e pé no mundo” — Como dizia a minha mãe. Abriu a porta que leva à dimensão dos vivos e foi trabalhar, deixando-me, uma vez mais, no limbo das lembranças palpáveis de nosso lar.

Nossos dias tem sido assim desde…

Não. Melhor nem pensar.

Eu sei que Alberto também sente. Da maneira dele: fingindo estar trabalhando, embriagando-se silenciosamente quase todas as noites e chorando embaixo do chuveiro para que suas lágrimas se misturem com a água quente que cai.

Mas eu não posso ajudá-lo. Também vivo a minha mentira, também luto a minha batalha, também lambo a minhas próprias feridas. Estamos juntos na desgraça, mas sozinhos em nossa dor. Afinal de contas, não dá para salvar ninguém quando se está afogando. Ao invés disto, eu aspiro profundamente o ar ao meu redor e reúno — não forças, mas — resolução suficiente para continuar a minha rotina diária: executar as tarefas caseiras e imaginar formas de acabar com a minha vida.

Foi Nietsche quem escreveu que “a ideia do suicídio é uma grande consolação pois ajudar a suportar muitas noites más”. Para mim, ajuda a suportar cada um de todos os dias até o resto de minha vida. Mas tem uma coisa, uma única coisa, que ainda me traz algum alento e me dá um pequeno prazer: o jardim.

Nele, eu planto ilusões e colho sonhos. Aspiro o suave aroma da fantasia. Saboreio os doces sabores das lembranças de quando ele estava aqui.

O jardim foi ideia dele. Era algo que ele tomou gosto desde quando a professora da escolinha o fez plantar um grão de feijão num algodão embebido de água. A magia e o mistério da vida germinando diante de seus olhos o encantou de uma maneira que aquela alegria transbordava por todos os seus poros e nos contagiava de tal forma que, se alguma vez na vida alguém já teve dúvida do que era felicidade, bastava olhar para ele para saber como ela se parecia.

Mas ele já não está mais aqui. E, para onde ele foi, levou consigo o rosto da alegria. A mim, tudo o que restou foi o jardim. E o jardim era tudo o que restava dele. E não importa a dor que sinto pela sua ausência: era preciso cuidar do jardim como eu deveria ter cuidado melhor dele.

Como era de costume, reguei a terra com minhas lágrimas, mas cuidei para não deixar cair aquelas que eram de tristeza. Escolhi com precisão as que foram forjadas de momentos felizes: dos sorrisos puros que ele nos ofertava todos os dias, da insistência inventiva com que ele tentava desbravar o mundo, dos carinhos que ele sempre nos banhava quando menos esperávamos. Removi as ervas daninhas com a delicadeza de quem segura uma nuvem e revolvi a terra com meu corpo como se isto pudesse me fazer sentir seu corpo junto ao meu uma vez mais.

Cuidar do jardim me dava paz, mas, tão rápido quanto eu começava a derramar todo o meu amor sobre ele, mais rápido o tempo parecia passar e, logo, já era noite. Alberto ia voltar do trabalho, jantar e, discreta e silenciosamente, iria para a varanda beber. Eu também iria voltar para as minhas liturgias diárias de dona de casa cuja alma fugiu do corpo deixando uma casca vazia que repete atividades de forma mecânica registrando apenas qual a melhor forma de morrer sem deixar sujeira excessiva para os outros limparem.

Quando eu paro, eu penso que a vida sem ele não vale a pena ser vivida.

Mas, aí, eu me lembro do jardim…

FIM

Observação: Conto selecionado em 5º lugar no III Concurso Literário do Tribunal de Justiça de Pernambuco (2017).

 

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