F.D.P. de Leonardo Santana: Se não morrer ninguém não é notícia!

Versão original em: http://osantuario.com/2013/10/20/f-d-p-se-nao-morrer-ninguem-nao-e-noticia/

Publicado em: 20/10/????.

Autor: Rodrigo Garrit

Resenha de “F.D.P.” e uma entrevista exclusiva com o roteirista Leonardo Santana!

Por Rodrigo Garrit

Parem as prensas!

Conheça Fernando Drummond Pessoa… um jornalista que não é exatamente bem visto pelas pessoas à sua volta… na verdade, o fato de parecer estar sempre envolvido em alguma encrenca não o ajuda muito a socializar, e não é raro que seja dado um outro sentido para as iniciais do seu nome: FILHO DA PUTA!

Mas apesar de tudo ele é um adorável canalha, e busca trazer a verdade à tona com suas matérias, mesmo que seus métodos não sejam dos mais ortodoxos. Ele trabalha para mídia impressa de um grande jornal metropolitano e por causa de seu estilo “porralouca”, suas reportagens o colocam nas situações mais estressantes e perigosas que se possa imaginar… da máfia à seres sobrenaturais… mas esse F.D.P. sempre consegue um jeito de se sair bem… pelo menos até agora!

Nessa sua primeira aparição, somos apresentados ao universo do personagem, e sua rotina nada tranquila. Fernando vive cheio de hematomas, e rodeado por reclamações e gritaria, mas não foge da raia pra conseguir uma história… se bem que muitas vezes é colocado em situações de risco contra sua vontade…

Não espere “lugar comum”, ele não é o típico super-herói ao estilo americano, não tem poderes e tampouco uniforme colorido… e nem suas histórias se propõem a isso. Mas apesar de ser um roteiro “pé no chão”, o elemento sobrenatural e por que não dizer a ficção científica, também estão presentes, deixando claro o tom pelo qual será levada a história, (reparem a notícia estampada no jornal jogado no chão na primeira página da HQ) o que complica ainda mais a vida do protagonista, um homem comum colocado de frente com poderes além da compreensão… ou ele tem um ás na manga? Em se tratando do F.D.P., nunca se sabe.

A arte de J. Henrique é perfeita para o clima da história, e funciona muito bem ao retratar um canalha com o qual acabamos por simpatizar. A edição é caprichada, impressa em papel de qualidade e totalmente colorida. Vale destacar o belo trabalho de colorização de Téo Pinheiro, o que abrilhantou ainda mais essa edição.

Uma HQ divertida e descompromissada… excelente opção para quem quer ler algo de qualidade produzido no Brasil!

O autor recomenda que a leitura seja feita ao som de “A Little Less Conversation” do Elvis.

SANTUÁRIO: Quando você deixou de ser um leitor, e descobriu que era um autor, que queria escrever suas próprias histórias? Houve essa transição ou você sempre se viu como criador?

LEONARDO SANTANA: Desde a adolescência, sempre me vi desenhando. Acho que todo mundo que gosta realmente de histórias em quadrinhos, mais cedo ou mais tarde acaba seaventurando nessa arte. Os que sentem que tem algum talento, continuam (Muitos não), os outros acabam se contentando em apenas consumir passivamente as histórias. Quando cheguei ao fim de minha adolescência, me vi jogado no mundo adulto e tendo que trabalhar, formar família, etc. Isto me afastou dos quadrinhos como um todo (Tanto leitura quanto produção). Após alguns anos, com uma pequena mas certa estabilidade, resolvi me aventurar novamente na produção de quadrinhos. Logo percebi que sentar direto e desenhar a história sem ter um script pronto era improdutivo pois precisava sempre voltar e corrigir mudanças na trama. Acabei tomando gosto pela arte de escrever. Isso e a percepção de que meus desenhos sempre foram amadores, me fizeram focar apenas na parte que se refere aos roteiros, deixando a arte para pessoas mais talentosas.

S: Como foi sua trajetória como roteirista, desde o começo até hoje… quais trabalhos mais te deixaram feliz?  Fale um pouco sobre cada um dos seus prêmios que recebeu.

LS: Comecei participando de listas de quadrinhos e oferecendo meus préstimos na arte do roteiro para quem solicitava ou precisava. E como ninguém me conhecia, eu focava em duas coisas: rapidez e qualidade. Quando alguém precisava de um roteiro de, digamos, até 8 páginas, eu conseguia fazer  em 3 a 7 dias. Como os roteiros feitos nessa época agradavam aos que os liam, acabei me destacando e sendo chamado para alguns projetos. O mais importante desses foi a revista BRADO RETUMBANTE no qual participei escrevendo uma personagem de terceiros, Cabala, e, posteriormente, acabei trabalhando como editor da revista. Esse trabalho foi tão bem aceito que eu acabei ganhando o prêmio DB artes como melhor roteirista. A revista também me abriu portas para novas parcerias como, por exemplo, a P.A.D.A.. Para a P.A.D.A., através de sua revista Prismarte, publiquei vários trabalhos como colaborador o que me rendeu vários prêmios concedidos pela P.A.D.A. e intitulados, então, de OS MELHORES DA PRISMARTE. E foi um dos trabalhos publicados na Prismarte que rendeu o Trofeu Alfaitaria de Fanzines como melhor roteirista. Trata-se da História “Cláudia encontra a felicidade”, da série “Metrópoles”. Vários trabalhos que fiz me deixaram feliz. São como filhos, difícil escolher um só. Acho que, partindo da receptividade que certas histórias e personagens receberam, eu poderia listar o F.D.P., Renegado 3000, As novas amazonas e Andrômeda.

S: Como é sua relação de trabalho com os desenhistas? Vocês mantém um contato próximo, discutem o roteiro detalhadamente ou você prefere passar uma ideia geral e deixar o artista trabalhar em cima dela?

LS: Eu gosto de pensar que minha relação com os desenhistas é honesta e aberta. O contato que mantemos não é tão próximo quanto eu gostaria mas ele com certeza se estreita durante a produção de uma HQ. Meu método de trabalho é, normalmente, o seguinte: Eu escrevo um roteiro no estilo Full Script com todas as descrições de cada quadro o mais minuciosamente que seja necessário. Depois disso, passo para o desenhista que tem liberdade total para fazer o que tem no script (Tanto que não chego a aprovar cada página que vai ficando pronta). O que tento evitar é que o desenhista mude a história sem a gente bater um papo antes.  Como a história é minha, gosto de ter a palavra final sobre aquilo que vai ter o meu nome nos créditos. Mas, na maioria dos casos, a mudança que os desenhistas propõem fazer são menos traumáticas para a história e acabam melhorando o resultado final de modo que, normalmente, não temos problemas quanto a isso.

S: Falando mais especificamente do F.D.P., conte mais sobre o processo de criação do personagem… existe alguma coisa nele “emprestada” da sua personalidade ou de alguém próximo, ou ali é tudo 100% ficção?

LS: O F.D.P. é um projeto muito antigo. Acho que foi um dos primeiros personagens que criei. Ele já se chamou BASTARDO, SAFADO e outros nomes antes de eu fechar com o F.D.P.. Eu gosto de brincar dizendo que as histórias do F.D.P. são uma mistura de Charles Bukowski com Arquivo X. Quanto a personalidade do F.D.P., ela é totalmente ficcional. Eu diria que ela representa o meu lado negativo (Tudo o que eu não sou ou penso).

S: Quais outros criadores brasileiros ainda desconhecidos do grande público você apontaria como grandes apostas pro futuro? O que você está lendo atualmente em matéria de quadrinhos nacionais?

LS: Essa é o tipo de pergunta que eu normalmente faço aos outros. Eu acho que temos bons nomes despontando no cenário nacional e, embora eles façam até um certo sucesso, não chegam a ser conhecidos do grande público por que não existe um trabalho midiático e editorial por trás deles. Quero dizer, alguns deles até tem editoras por trás mas elas normalmente apenas imprimem o trabalho e o lançam sem suporte publicitário algum.  Mas eu poderia citar, mesmo nem todos sendo totalmente desconhecidos, Will, Daniel Esteves, Luciano Félix e Téo Pinheiro (Ambos da P.A.D.A.), Rom Freire, Marcos Caldas e por aí vai.

Atualmente estou lendo alguns títulos da DC (Mulher maravilha, Frankestein, Monstro do Pântano, etc), relendo a série de Hellblazer (Por que percebo que deixei passar muitos números por causa da zona que foi a publicação do título no Brasil), Walking Dead, 100 balas (Fantástica!!!!) , Sandman Mystery Theather e a fabulosa X-Force.

S: E de modo geral, que tipo de quadrinhos, livros ou filmes você tem curtido recentemente?

LS: Eu gosto de quadrinhos bem escritos e com boas tramas. Nesse meio, destacam-se 100 balas e the walking dead. O restante do que leio é o que é suficiente para não me deixar entediado e me manter minimamente atualizado.  De livros, comecei a ler Ulisses de James Joyce mas parei porque senti a necessidade de ler primeiro o livro A Odisséia de Homero para poder entender melhor as similaridades e diferenças sutis que existem entre os dois. No momento estou relendo FREE, O FUTURO DOS PREÇOS de Chris Anderson, autor do livro A Cauda Longa que explica o mercado virtual de sucesso voltado para nichos específicos. Também li A LEITURA DOS QUADRINHOS de Paulo Ramos. De filmes, tenho tido cada vez menos paciência para ficar duas horas assistindo a uma única história. Mas, do cinema, gostei muito dos Vingadores. Em casa, os últimos filmes que assisti que me deixaram com um frisson no corpo foram Drive e Projeto X.

S: Em sua opinião, existe chance de surgir um mercado editorial rentável de quadrinhos nacionais, além da franquia da Turma da Mônica? Ou isso deve acontecer somente num futuro distante? 

LS: Digamos que existe um ambiente totalmente favorável para isso. Infelizmente, as editoras não querem arriscar um centavo sequer. Preferem continuar apostando nos mesmos cavalos. Existem algumas iniciativas saindo um pouco dessa linha mas ainda são muito tímidas para dizer que estão estimulando o mercado e não apenas poucos artistas individuais. Eu diria que uma editora que estimule o mercado (de artistas) e tenha uma possibilidade (Não certeza) de almejar um patamar como o de Maurício de Sousa só teria sucesso se dependesse de alguém que juntasse a paixão pelos quadrinhos com um suporte financeiro mais uma competentíssima equipe editorial. É a famosa história do gado que só engorda perto da vista do dono. Mas eu acredito que estamos perto de ter uma editora, senão com esse modelo patriarcal, com essa mentalidade honesta de produzir material nacional para o público brasileiro e estimular a produção baseada na qualidade artística de cada um independente de o artista já ter feito seu nome ou não.

S: Um exercício de imaginação: Se você fosse o dono de uma editora e tivesse o poder de editar quadrinhos nacionais da forma que quisesse, podendo chamar qualquer escritor e artista atuando hoje no mercado brasileiro, quem você contrataria? E que personagens mereceriam revistas mensais na sua editora?

LS: Roteiristas: Com certeza absoluta Gian Danton, Abs Moraes, Daniel Esteves, José Salles, Marcelo Marat,Alexandre Lobão e JJ Marreiro. Deve ter mais mas de bate e pronto foram esses que me vieram a cabeça.

Desenhistas: Allan Goldman, Daniel Brandão, Luciano Félix, Téo Pinheiro, Nestablo ramos, Danilo Beyruth, Jean Okada, Eduardo Schloesser, Rom Freire, Marcos Caldas, Rosendo Caetano. Desenhista tem tantos que fica difícil citar todos os que eu poderia ou gostaria de colocar.

Personagens: Eu gosto de pensar em revistas voltadas para nichos. Então, teríamos uma revista de terror, uma policial e uma de super-heróis. E cada personagem se encaixaria em uma dessas revistas. Mas poderia citar o F.D.P., Renegado 3000, Andrômeda, As Novas Amazonas, Couto (de Abs Moraes), Os exploradores do Desconhecido (Gian Danton e Jean Okada), Zé gatão (Eduardo Schloesser), Comando V (Allan Goldman), Chico Spencer (José Salles), Zoo (Nestablo Ramos), Necronauta (Danilo Beyruth), etc.

S: Voltando ao mundo real, quais os seus planos futuros? Pretende continuar estendendo o universo de seus personagens, criar novos universos, escrever no de outros…?

LS: Eu estou aberto a qualquer uma dessas possibilidades. Na verdade, eu mantenho minhas metas flexíveis para poder entrar em qualquer projeto que pareça mais promissor no momento. No momento estou trabalhando em roteiros para os outros (Mesmo por que já tenho muitos roteiros meus esperando desenhistas).

S: Deixe suas considerações finais para os leitores do Santuário!

LS: Bom, eu gostaria de agradecer pela oportunidade de falar sobre mim e meu trabalho. É um espaço muito importante que dá a possibilidade do leitor de conhecer coisas novas. Gostaria de avisar que a segunda HQ do F.D.P. está sendo publicada semanalmente gratuitamente on-line no meu blog (https://roteiristaleo.wordpress.com/). Gostaria de avisar também que quem se interessou pelos meus trabalhos (F.D.P., Space Opera, Brado Retumbante, Prismarte e outros), pode adquirir as edições na minha loja virtual de quadrinhos nacionais independentes, a Bodega do Leo (http://www.bodegadoleo.com/). Por fim, gostaria de deixar também o blog da P.A.D.A. (http://www.prismarte.com.br/pada/), grupo que já há algum tempo faço parte que tem as novidades do que estamos fazendo em matéria de quadrinhos aqui em Pernambuco. Acho que é só, pessoal. Um grande abraço a todos e nos vemos por aí.

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