Novo conto e novas artes na Galeria dAs Novas Amazonas

Voltamos a publicar os contos dAs Novas Amazonas e, dessa vez, abordamos um pouco da história de Jasmim: uma guerreira que traz dentro de si muitos conflitos internos.

Para ler o conto, clique aqui.

E, aproveitando a oportunidade, recebemos também duas artes novas para a  nossa galeria: Uma Jasmim ilustrada por Vubidugil Henrique e uma Lolita ilustrada por Glaydson Gomes.

Clique nas imagens para vê-las maiores!

Não conhece ou quer saber mais sobre As Novas Amazonas? Clique aqui.

E veja a galeria com as personagens aqui. Se quiser, mande uma ilustração para a gente postar na galeria.

 

 

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Novo conto inédito das Novas Amazonas com ilustração exclusiva de Carlos Eduardo

Chamada Conto Lolita

“Para Lolita, escapar da morte não era questão de sobrevivência: era o que tornava divertido e menos tediosos os seus dias. “

E assim começa mais um conto das Novas Amazonas – desta vez focado em Lolita, a mais jovem e inquieta das guerreiras.

E, para ilustrar essa história, contamos com uma belíssima ilustração feita pelo Pernambucano (praticamente meu vizinho) Carlos Eduardo Cunha. Recentemente o Carlos ganhou um concurso feito pelo Felipe Cagno e publicou uma hq na revista 321 Fast Comics. Acredito que, em breve, vamos ainda ouvir muito sobre o Carlos Eduardo.

Para ler o conto e ver a arte completa, clique aqui.

Olímpia: Novo conto dAs Novas Amazonas com ilustração inédita e exclusiva de Daniel Brandão

As Novas Amazonas

Por Leonardo Santana

Olímpia

As Novas Amazonas [Olímpia] por Daniel Brandão

As Novas Amazonas [Olímpia] por Daniel Brandão

– Deve ser muito divertido ser feliz!

– O que foi que você disse, Olímpia?

– O quê? Não é nada, Jasmim! Estou pensando alto…

Olímpia não queria tocar no assunto com Jasmim pois sabia como a guerreira de bela cabeleira ruiva era irritantemente compreensiva. Assim sendo, fingiu continuar limpando suas duas pistolas Taurus PT 100 enquanto permanecia olhando de soslaio, de quando em vez, para as apaixonadas Isolda e Zoe. Ah, como aquilo a exasperava.

As novas amazonas estavam numa bela clareira em frente a um límpido rio que corria sereno por entre o verde da selvagem mata atlântica. Estavam afastadas dos destroçados centros urbanos e as guerreiras descansavam de sua jornada em direção à região norte do Brasil, aproveitando as poucas horas de tranquilidade que lhes era permitido ter. Helena lia um dos livros de Zoe – a insustentável leveza do ser – , Athena e Lolita brincavam nuas nas águas do rio, Zoe e Isolda conversavam numa sombra de um pau-Brasil próximo, Jasmim providenciava uma fogueira para preparar o jantar e Olímpia, para não parecer que não estava fazendo nada, resolveu desmontar suas armas e fingir estar limpando-as.

Mas o que Olímpia estava mesmo fazendo era observar – e se incomodar com – o comportamento de Zoe e Isolda.

Isolda e Zoe eram amantes. O único casal a se formar entre as sete mulheres. Por mais que abominassem os homens e seus comportamentos brutos e cruéis, as relações amorosas entre as guerreiras não floresceram na mesma proporção em que suas amizades. E isto é uma das ironias do amor: é ele quem dita as nossas escolhas e não o contrário. Tirando as duas amazonas, o sentimento que existia entre as demais era o de irmãs: havia o amor, mas ele não era acompanhado do desejo carnal.

Na agradável sombra que se formava, a musculosa Isolda estava sentada encostada no pau-Brasil e a aparentemente frágil Zoe estava encostada na companheira. Porém, esta segunda estava com a parte superior de seu tronco e o rosto ligeiramente voltados para trás, procurando os olhos da amada de cabelos curtos. Elas conversavam e riam suavemente com alguma brincadeira particular que só elas compreendiam. Zoe estava comendo uma maçã e, de tempos em tempos, erguia a fruta até a boca de Isolda para que esta também usufruísse de seu sabor adocicado. E riam mais um pouco.

Estavam felizes. Aquele momento de tranquilidade era raro e a possibilidade de ficarem assim, juntinhas, despreocupadamente sorridentes, era algo para ser festejado. Do jeito delas, simplesmente estando uma ao lado da outra, sentindo um corpo relaxar no outro, rindo de futilidades, compartilhando sabores e suspirando ao perceber no fundo dos olhos da outra que existe ali um sentimento capaz de tornar todos os sacrifícios menos penosos.

E era isto que Olímpia não conseguia entender.

Como podem estas mulheres ficarem felizes num mundo destes? Onde é preciso lutar para sobreviver, onde os homens só pensam em subjugar e destruir. Onde as mulheres não passam de escravas ou prostitutas. Ou ambos.

Este não era um mundo para o amor. Era um mundo onde apenas os mais fortes e cruéis sobrevivem. Era nisto que Olímpia acreditava. Foi isto que a vida lhe ensinou. Por isto, ela não conseguia encontrar motivos para compartilhar daquele sentimento de paz, alegria, comunhão. Um inconformismo aliado a um sentimento de raiva, inveja e frustração apoderaram-se dela e ela ficou ainda mais impaciente do que de costume.

– O que você tem, Olímpia? – Perguntou-lhe Jasmim que notara a perturbação tomar conta de sua amiga.

– Não é nada! – Respondeu rispidamente Olímpia e arrematou: -Por que você não cuida da sua vida?

A convivência com Olímpia não era nada fácil e Jasmim era uma das poucas – senão a única – a preocupar-se realmente com a controversa pistoleira. O contraste entre as duas era tão gritante que ficava difícil de entender como elas criaram este verdadeiro, embora sempre frágil, laço. Enquanto Olímpia era impaciente, intolerante e agressiva, Jasmim era calma, compreensiva e gentil. E estas qualidades, algumas vezes, irritavam ainda mais Olímpia. A esguia amazona de longos cabelos negros e lisos, de olhar sempre afiado e instintos sempre no limite, algumas vezes se fechava de tal forma que, quanto mais Jasmim tentava lhe ajudar, mais ela se afastava.

Isto se dava, principalmente ao fato de que Olímpia, embora sentisse tudo intensamente, não conseguia entender ou expressar estes sentimentos para os outros. Sempre que tentava esboçar alguma reação neste sentido, não só não conseguia encontrar as palavras certas como também começava a achar aquelas sensações ridículas e despropositadas se levassem em consideração o mundo em que viviam. E assim, ela seguia afastando-se cada vez mais das únicas pessoas que poderiam lhe dar algum tipo de ajuda.

A despreocupação de Helena, a ingenuidade de Athena e Lolita, o amor entre em Isolda e Zoe e, principalmente, a preocupação de Jasmim fizeram com que Olímpia se apressasse em remontar suas pistolas e a levantar-se dali.

– Aonde você vai? – Perguntou Jasmim não sem antes pesar bastante se devia ou não interpelar uma vez mais a amiga.

– Vou checar o perímetro! – Respondeu Olímpia ligeiramente mais calma ao saber que o afastamento das demais iria ajudá-la a refrear seu descontentamento.

– Eu vou com você! – Ofereceu-se Jasmim.

– Não é preciso! – Respondeu Olímpia de forma tão firme que Jasmim imediatamente percebeu que a companheira queria alguns momentos para si.

– Ok! Se achar alguns palmitos por aí, traga-me alguns! Vai dar mais sabor ao peixe que irei preparar!

Com as duas pistolas em seus coldres amarrados ao redor das coxas, Olímpia sai da clareira e continua seguindo as curvas sinuosas formadas pelo rio selvagem. Anda ligeiramente cabisbaixa ainda incomodada pelos gestos de carinho entre Isolda e Zoe.

Ela própria nunca soube o que era amor.

A lembrança mais antiga que ela tem é a de um homem que ela achava ser seu pai entregando-a, ainda na tenra idade de 4 ou 5 anos, por um punhado de carne seca, a outro homem. Na realidade, aquele homem que ela julgava ser seu pai, na verdade havia encontrado-a ainda bebê e teria cuidado dela até aquele dia onde a fome e o desespero falaram mais alto e ele preferiu “vender” a criança para outro homem que parecia ter mais posses e poderia cuidar melhor dela do que ele. A verdade é que o maior temor que ele tinha, naquele momento, era de que a fome o fizesse a cometer com a criança o ato mais cruel que alguém poderia cometer com outro ser humano: o canibalismo.

Mas o destino não havia reservado dias melhores para a pequena Olímpia. O homem que a comprara já tinha seus 50 e tantos anos, era magro como um cadáver e possuía um olhar frio e inflexível. Mesmo sem saber nada da natureza humana, Olímpia imediatamente percebeu que aquele homem era o que se podia chamar de a personificação do mal. E ela estava certa.

Ela nunca soube seu primeiro nome mas todos se dirigiam a ele como Senhor Meireles. “Monstro”, porém, seria a definição ideal para aquele homem sádico e cruel. Ele vivia praticamente sozinho num bunker escondido na floresta. Depois de alguns anos de convívio com o “monstro”, Olímpia ficou sabendo que ele matara uma família inteira que vivia ali e que foi ingênua o suficiente para oferecer abrigo para ele. Eram raras as ocasiões em que ele deixava seu abrigo. Geralmente para efetuar trocas. Era conhecido na região como um colecionador: recolhia, catava, coletava, trocava e, muitas vezes, arrancava a força toda a sorte de itens exóticos que encontrava em meio aos destroços de um mundo devastado. Livros, quadros, vinhos, armas – dentre elas as duas pistolas Taurus PT 100 que Olímpia hoje carrega – e um sem número de quinquilharias se entulhavam no interior do bunker que ficava incrustado há alguns metros dentro da terra.

E foi nas mãos do senhor Meireles que, durante 15 infinitos anos, a amazona de cabelos negros conheceu o inferno. Ele sempre a manteve agrilhoada pelo tornozelo e sentia prazer em humilhá-la não só fisicamente, mas também psicologicamente. Ele não precisava de motivos para abusar de seu corpo, castigá-la com chutes, tapas e murros e estava sempre à procura de novas formas de lhe infligir dor. Apesar de tudo isto, ele parecia ter uma preocupação especial de que todo o seu sadismo não promovesse danos visíveis irreparáveis. O carrasco, apesar de cruel, não gostava de ver sinais de cicatrizes no corpo da amazona que cresceu sob o seu jugo. Ao contrário disto, tinha um outro fetiche que, ao mesmo tempo que machucava Olímpia, transformava-a em sua obra de arte particular: a tatuagem. Foi ele quem tatuou o escorpião próximo a virilha, uma faixa com motivos tribais no braço e um imenso dragão subindo nas costas de Olímpia. Ela ainda se lembra da voz rouca e fina do monstro sussurrando em seu ouvido enquanto aguentava mais uma sessão de tatuagem:

– Não chore, meu amor! O dragão é um símbolo de força e de proteção! É dele o poder de dar e o de tirar vidas!

Um barulho que não lhe era estranho tirou Olímpia de seus devaneios e a trouxe de volta para a realidade. Percebeu que havia se afastado bastante do acampamento das amazonas e o som que escutava era a de dois homens conversando despreocupadamente em volta de uma rede com alguns peixes ainda saltitantes presos nela. Eles tinham acabado de sair das águas do rio e conversavam e riam sem perceber ainda a presença da amazona que, após um segundo de hesitação para analisar a situação, continuou caminhando em direção aos dois homens até o ponto em que eles pudessem percebê-la chegando.

Os homens – um barbudo e outro careca, ambos na casa dos 30 anos – assustaram-se com a presença da mulher pois achavam que estavam sozinhos. Olímpia já havia percebido que as únicas armas que traziam eram pequenas facas desgastadas pelo uso e pelo tempo que, até hoje, muito provavelmente, só penetraram na carne de peixes moribundos.

-Oh, é só uma mulher! – Disse o barbudo após recuperar-se do susto inicial.

– Não precisa ficar com medo, querida! – Disse o careca ao perceber a compleição desconfiada de Olímpia. – Somos apenas pescadores! Não lhe desejamos mal algum!

– Vocês estão sozinhos? – Perguntou Olímpia.

– Sim! – Respondeu o careca. – Fizemos da barriga de uma criatura de aço a nossa morada e temos vivido isolados aqui na floresta desde então. Achamos mais seguro do que próximo das cidades abandonadas.

A criatura de aço ao qual o careca se referia, na realidade tratava-se de um avião caído na floresta que tinha mantido intacta uma boa parte de sua fuselagem.

– Venha! – Disse o barbudo. – Sente-se conosco! Iremos fazer uma fogueira e hoje teremos peixe assado!

– Vocês dois não me enganam! – Disse Olímpia num tom agressivo.

– Como assim? – Perguntou o careca. – Não estou entendendo…

– Vocês querem que eu baixe minhas defesas e quando estiver totalmente desprevenida, vocês irão me subjugar! Mas isto não irá acontecer seus desgraçados!

E, ao dizer isto, Olímpia saca suas duas pistolas e aponta para os homens à beira do rio.

Eles se desesperam e, enquanto um tenta acalmar Olímpia, o outro começa a correr em direção contrária à da amazona. Olímpia, de forma fria e calculada atira primeiro no que está fugindo. Dois tiros varam-lhe as costas derrubando o homem nas margens do rio deixando-o com metade do corpo dentro do rio e o restante em terra. O outro cai de joelhos, chorando, soluçando e implorando por sua vida.

– P-por favor…p-piedade…não fazemos mal a ninguém…só queríamos viver em paz…

– Vocês são homens! – Respondeu Olímpia. – A paz não é da natureza de vocês…

E, dizendo isto, acertou uma bala na cabeça do careca que tombou surdamente sobre o cardume de peixes. Todos mortos. Tudo em silêncio. Somente a corrente do rio sussurrando um ritmado sonido.

Olímpia encontrou com suas companheiras no meio do caminho entre o massacre aos homens e o acampamento das amazonas. Todas, sem exceção, vieram de armas em punho em seu encalço depois que ouviram os tiros.

– Olímpia! – Gritou Helena num misto de preocupação e alívio ao ver a pistoleira caminhando tranquilamente na sua direção. – Ainda bem! Estávamos preocupadas!

– Sim! – Disse Jasmim – Ouvimos tiros!

– O que houve? – Perguntou Zoe ainda preocupada com a irmã de armas.

– Não houve nada demais! – Respondeu Olímpia impassivelmente. – Fui atacada por dois homens!

– Você está bem? – Perguntou-lhe a mais jovem amazona, Athena.

– Mas é claro que estou! – Respondeu-lhe Olímpia.

– E o que aconteceu? – Perguntou Helena, agora mais calma ao saber que o perigo não pairava mais sobre as amazonas.

– Eu aconteci! – Respondeu-lhe Olímpia.

Olímpia gostaria de acreditar no amor, na esperança, na paz. Mas o que sofreu na vida até aquele momento ergueram uma barreira intransponível para todos estes sentimentos.

FIM

Zoe: Um novo conto dAs Novas Amazonas

Zoe por ROM

Zoe por ROM

ZOE

Manter a esperança. Acreditar que amanhã poderá ser melhor do que hoje. Procurar o brilho das coisas mesmo estando mergulhado na mais profunda escuridão. Essa era a verdadeira batalha a ser vencida. Pelo menos era isto que Zoe acreditava.

A bela amazona de cabelos claros como a luz do sol e lisos como seda estava montada em seu cavalo, passando pela floresta da mata atlântica. Ela não estava sozinha. Era acompanhada pelas demais guerreiras que se auto intitulavam de As Novas Amazonas. Ela observava atentamente às árvores, à vegetação densa e aos pequenos animas que abriam passagem assustados quando ela e suas amigas passavam. Mas ela também observava de quando em vez, misturado ao verde das matas, carros destroçados, ferragens diversas, sofás rasgados, pias de banheiro, placas de trânsito. Tudo aquilo havia sido arrastado até ali pelas ondas gigantescas que varreram a costa dos continentes. E depois que a maré recuou, deixou ali aquele amontoado de entulho.

Um leve estalido aguçou todos os seus sentidos e a fez, imediatamente, armar uma flecha em seu vigoroso arco. A tensão durou alguns segundos que pareciam uma eternidade. Sua respiração tornou-se lenta e espaçada, uma gota de suor começara a cair de sua têmpora e ela sem mexer um músculo apontando sua arma para o lugar de onde o barulho tinha vindo.

Foi quando, por detrás de um pedaço de uma asa de avião, saíram uma mulher, um homem e uma criança. Todos tinham uma aparência maltrapilha, de pedintes, quase bichos, mas estavam muito calmos, diria-se que quase felizes. O homem devia ter uns 25, talvez 30 anos. A mulher, mais jovem que ele, deveria estar chegando na casa dos 25. E a criança – uma garota – devia ter uns de uns 2 para 3 anos. A mulher carregava um arco laçado por entre o corpo mas Zoe percebeu que eles não representavam nenhum perigo e relaxou a sua flecha na corda do seu arco.

– Algum problema, Zoe? – Veio a voz de Helena lá do fundo, de alguns metros de onde ela estava.

– Não! – Respondeu Zoe ainda sem tirar os olhos da família – Não é nada!

Zoe observou melhor àquelas 3 criaturas: fracas, sujas, desgraçadas. Porém unidas. Unidas no infortúnio, na dor e no sofrimento diário de sobreviver num mundo tão duro e violento. E o fruto daquela união estava ali em seus braços. Esta união lembrou a Zoe de uma outra. Uma na qual não pensava há muito tempo.

O nome de Zoe veio de um livro velho onde jovens guerreiros e antigos Deuses viviam e lutavam entre si. Um livro que seu pai leu para ela quando ela ainda tinha 4 ou 5 anos. Aliás, foi de seu pai que Zoe herdou o gosto pelos livros e a esperança no futuro. De sua mãe, aprendeu coisas mais práticas como o uso das ervas para curar ferimentos e doenças e a caçar com o arco e flecha. Sua mãe era uma guerreira. Seu pai, um pacifista. Olhando para trás agora, ela não consegue imaginar como duas pessoas tão diferentes se apaixonaram. Ela ainda lembrava-se das discussões dos dois a respeito deste tema: guerra e paz. Sua mãe exasperava-se tentando demonstrar seu ponto de vista. Ela gesticulava, andava de um lado para o outro, cuspia berros de indignação. Enquanto isto, seu pai observava tudo com a maior atenção do mundo, escutando cada palavra dela com verdadeira concentração, mas, quando ela perguntava o que ele achava disto tudo ele simplesmente levantava-se, aproximava-se dela, beijava-a profundamente com um amor tão sincero como Zoe nunca mais vira outra vez e então, com um sorriso doce e franco nos lábios, dizia-lhe:

– Pode uma espada vencer isto?

A mãe de Zoe baixava a guarda e desistia da conversa. Pelo menos até a próxima oportunidade.

Eles se conheceram de uma maneira sui generis. Sua mãe dizia que estava andando pela floresta a procura de alimento quando encontrou seu pai sentado embaixo de uma árvore lendo um livro tão compenetrado que sequer percebeu quando a bela arqueira passou por ele. Não resistindo a curiosidade, ela deu meia volta em seu cavalo e perguntou a ele:

– O que você está fazendo aí?

– Lendo! – Ele respondeu após dar uma boa olhada naquela altiva mulher montada no cavalo.

– Lendo? – Ela indagou – o que é isto?

– Você nunca… – ele surpreendeu-se, mas logo lembrou-se de que este não era um hábito comum e que eram poucas as pessoas que passavam este conhecimento de uma geração para outra. – Ler é decifrar os ensinamentos contidos nestes livros!

– E o que você está…lendo… neste…livro? – Ela perguntou cada vez mais fascinada com aquele misterioso e, ao mesmo tempo cândido, homem.

– A Maldição de Titã de alguém chamado Rick Riordan!

Zoe esboçou um leve sorriso ao se lembrar desta história que seu pai sempre lhe contava. Mas o sorriso logo desapareceu de seus lábios dando lugar a uma expressão triste que remetia à saudade que ela sentia pela ausência dos dois.

Zoe e seus pais viveram felizes por muitos anos. Felizes de acordo com as possibilidades dentro desta nova configuração mundial de caos e selvageria. Mas a união entre os três era mais do que suficiente para ignorar as desgraças ao seu redor. Zoe lembrava-se como seu pai estava sempre fazendo-a rir e mostrando-lhe sempre que, por mais terrível que as coisas podiam parecer, estar vivo sempre seria uma dádiva e que dias melhores haveriam de chegar para afastar os dias ruins.

– Não importa por quanto tempo a dor e a tristeza te acompanhe, minha pequena Zoe! – Ele dizia-lhe olhando firmemente em seus olhos – Um único momento de alegria é capaz de te fazer esquecer décadas de sofrimento!

E ele estava certo. A seu modo. A vida deles não era fácil: sempre se mudando de um lugar para o outro a procura de abrigo e alimento, evitando ao máximo o encontro com outros seres humanos (Principalmente quando estavam em grupos) e lutando contra os perigos que a própria natureza lhes impunha. Mas tinham uns aos outros. E os momentos juntos eram sempre especiais. Zoe sempre sentiu isso. Parecia saber que aquilo não iria durar eternamente e sempre procurou aproveitar ao máximo aqueles breves momentos de riso, distração e carinho.

E quando tudo acabou, acabou de uma forma rápida mas extremamente dolorosa para dar lugar a um enorme período de provações e sofrimentos. Zoe não consegue se lembrar exatamente de onde eles vieram. O que ela se lembra é do alvoroço, da correria e dos gritos. Seu pai tomou-lhe nos braços e correu o máximo que pôde. De relance, por cima dos ombros dele, ela viu quando sua mãe tentou armar mais uma flecha e foi atingida por uma lança rudimentar que lhe atravessou o corpo fazendo-a tombar inerte. Em seguida, viu cada vez mais se aproximar a sombra daquele cavaleiro vestindo roupas rasgadas e carregando uma espada na mão. E quando esta espada desceu, seu pai parou de correr e os braços dele afrouxaram-se ao redor de Zoe. Ela foi cercada pelos outros homens e conheceu, pela primeira mas não última vez, a brutalidade selvagem do sexo tomado à força. E enquanto aqueles animais se revezavam em cima dela, a mente de Zoe flutuava no etéreo tentando fugir da violência que seu corpo sofria.

Zoe tinha, então, apenas 12 anos.

Estes pensamentos ruins acabaram por trazer-lhe de volta ao presente e amargar um pouco o doce sabor da lembrança de seus pais que iniciara todas essas reminiscências. Percebeu então por que raramente procurava pensar nos seus pais: a alegria da lembrança sempre estava atada a um grande sofrimento que Zoe luta diariamente para esquecer.

– Você está bem, Zoe? – Perguntou Isolda, a gigantesca e musculosa amazona, aproximando seu cavalo do de Zoe. – Você está aí parada olhando para o nada há alguns minutos.

Zoe surpreendeu-se com a chegada de Isolda, o grande amor de sua vida, e respondeu-lhe:

– O quê? Oh, Isolda, é você? Não percebi você chegando!

– O que houve? Você está se sentindo bem? – Insistiu a outra amazona.

-Oh, sim! Claro! Eu só…achei que tinha visto…algo! Uma família: um homem, uma mulher e uma criança! Mas agora não há nada! Devo estar imaginando coisas!

– Como eles eram? – Perguntou Isolda, armando-se de seu machado preparando-se para algum eventual perigo.

– O Homem era barbudo e a mulher tinha os cabelos loiros e compridos… – Respondeu Zoe.

– Loiros como os seus?

Neste instante Zoe teve certeza de que aquela família que encontrara no meio da mata era fruto mesmo de sua imaginação. Talvez da saudade imensa que nunca deixou de sentir. Talvez da memória que insistia em não lhe deixar esquecer. Mas a verdade é que os estranhos que pensara ter visto, eram na verdade, seu pai e sua mãe num reflexo da primeira memória que ela se lembra deles. Ao tomar consciência disto, Zoe deu um leve sorriso e, enquanto uma lágrima de felicidade e saudade escorria de seus olhos, ela respondeu a Isolda:

– Sim…como os meus…

FIM

Para ler as hqs das Novas Amazonas, clique nos títulos: “Homem bom é homem morto”,  “Antigas Histórias” e “Mais intenso que a vida, maior que a própria morte”.

Quer saber mais sobre As Novas Amazonas? Clique aqui. E veja a galeria com as personagens aqui. Se quiser, mande uma ilustração para a gente postar na galeria.

Procuram-se desenhistas de histórias em quadrinhos

Este ano estou voltando com vários projetos que estavam pendentes por falta de tempo. E, apesar de sempre receber críticas excelentes a respeito de meu trabalho, encontrar desenhistas que se tornam parceiros fixos é SEMPRE muito complicado. Por isso, resolvi listar os mehores roteiros que tenho e que pretendo levr adiante em projetos diversos este ano e ver se algum desenhista com talento e boa vontade possa entrar nessa caminhada junto comigo.

Segue uma rápida descrição dos roteiros disponíveis. Se você se interessar por algum, mande-me um e-mail com algumas amostras de seu trabalho ou deixe um comentário com seu e-mail e link de seus trabalhos pra gente conversar melhor.

Corpo do poeta Shelley encontrado na praia.

A TEMPESTADE
GÊNERO:
DRAMA
14 PÁGINAS
SINOPSE: Em 1822, testemunhamos os últimos momentos de vida do poeta inglês Percy Shelley ao deixar a cidade de Livorno, na Itália, numa pequena embarcação para reencontrar-se com seu grande amor, Mary Shelley. É uma história que fala de amor, poesia e morte com participação especial de Lorde Byron. DETALHE 2 PÁGINAS DUPLAS.

Esboço de uma cena da hq do Raio Negro

A ÚLTIMA AVENTURA DO RAIO NEGRO
GÊNERO: AVENTURA
19 PÁGINAS
SINOPSE: Recontagem da origem do Raio Negro, imortal herói criado por Gedeone Malagola,  inserindo-o no meio da ditadura Brasileira e fazendo-o questionar-se entre os seus deveres como herói, suas obrigações como militar e os seus desejos de homem. Nessa história apresentamos uma origem mais contextualizada e ligeiramente diferente e descobrimos, também, o que aconteceu com o Raio Negro depois de seu desaparecimento nos final dos anos 60.

O HOMEM JUSTO, criado por Oscar Kern

A VOLTA DO HOMEM JUSTO
GÊNERO: AVENTURA
18 PÁGINAS
SINOPSE: Em mais esta homenagem aos super-heróis nacionais, recontamos a origem do Homem-Justo, personagem criado por Oscar Kern, contextualizando-a de uma forma mais realística, mostrando o que ele andou fazendo nos últimos 30 anos e, principalmente, que perigos o trouxe de volta.

A cartomante por Wilski

A CARTOMANTE
GÊNERO: DRAMA
9 PÁGINAS
SINOPSE: Adaptação do conto de Machado de Assis trazendo-o para os dias de hoje mas mantendo todos os elementos da história original onde o melhor amigo de um homem se envolve comamulher deste e recorre à cartomante para saber se ele sabe da verdade ou não.

Velhinha Simpática bem parecida com a da hq O GRANDE PASSEIO. Fonte da imagem: internet.

O GRANDE PASSEIO
GÊNERO: DRAMA
8 PÁGINAS
SINOPSE: Adaptação do conto homônimo de Clarice Lispector onde acompanhamos a via crucis de uma simpática velhinha chamada mocinha que ninguém deseja ficar.

Bipolaridade é o tema dessa hq. Fonte da imagem:internet.

O HOMEM BIPOLAR – CAP. I -TODO FIM TEM SEU INÍCIO…
GÊNERO: DRAMA
10 PÁGINAS
SINOPSE: Memórias alteradas de sentimentos verdadeiros de um homem com distúrbio bipolar que sabe que tem um problema mas não consegue lidar com ele.

F.D.P. Por Carlos Brandino

F.D.P. 3  – A MORTE DO HOMEM-EXTRAORDINÁRIO
GÊNERO: AVENTURA
22 PÁGINAS
SINOPSE: A morte do homem-extraordinário é uma pequena fábula onde encontramos elementos tão disparates como heróis, filósofos alemães e favelados atuando numa sincronia imperceptível a primeira vista. E, no meio disto tudo, temos o F.D.P. tentando juntar as pontas da história da morte do maior herói da cidade.